domingo, 13 de dezembro de 2009

LENDAS URBANAS - "Pai-de-Santo Que Queria Ser Papai-Noel "


Postado por Kamadon...

:: O Pai-de-Santo Que Desejava Ser Papai–Noel Oswaldino era um pai–de–santo afro descendente e idoso que trabalhava em um terreiro de Umbanda . Ele costumava incorporar uma entidade chamada de Preto Velho , que dava conselhos aos seres aflitos . Certa noite de janeiro , um senhor moreno escuro , de barbas brancas apareceu para ele e disse : - Oswaldino , você abusou demais do seu poder ! - Por isto , a partir de amanhã o seu terreiro minguará pouco a pouco . O pai–de–santo acordou com o coração na boca e notou que aquilo tudo era um grande pesadelo . Porém a partir daquele sonho , o religioso foi perdendo seus fiéis pouco a pouco e teve que fechar o terreiro em novembro . Então ele pensou : - Onde poderei arranjar um emprego temporário neste final de ano ?! - Já estou velho e de barbas brancas ... - Quem dará um serviço para mim ?! De repente , surgiu uma idéia : - Já sei ! - Procurarei emprego de Papai-Noel ! - Afinal , idade e barriga eu tenho ... - Porém , há um problema : sou afro descendente e nunca vi um São Nicolau de pele morena escura . - Mas se até o Jesus da obra “O Auto da Compadecida” era afro descendente ... - Por que uma loja não contrataria um Papai–Noel moreno escuro ? Após isto Oswaldino colocou uma roupa de São Nicolau e em toda a loja que ele via a placa com os dizeres : - “Precisa-se de Papai–Noel” ele se oferecia para o emprego . Porém a resposta era sempre a mesma : - O senhor não tem o tipo físico para o cargo . Até que depois da décima quinta loja , ele foi entrevistado por uma senhora simpática , que ao final da entrevista disse : - O senhor está contratado e pode começar amanhã ! - Meu querido , você ficará sentado no trono , do Seu Nicolau , distribuindo balas às crianças ! Em sua casa Oswaldino pensou : - Eu deveria dar mais do que balas para os pequeninos ... De repente , ele teve uma idéia : - Já sei ! - Oferecerei as bonequinhas mágicas da sorte que a minha bisavó ensinou–me a fazer . Confeccionar um brinquedo destes é simples : basta um pedacinho de pano e muita habilidade . Reza a lenda que a criança que ganha esta boneca , de um idoso , tem o seu sonho realizado . Sem falar que a tradição deste brinquedo é antiga , pois veio dos meus ancestrais da África . Assim Oswaldinho passou a noite inteira fazendo estas bonecas e depois colocou todas num saco . No dia seguinte ele começou a trabalhar . De repente , uma menina de quatro anos , sentou–se em seu colo e disse chorando : - Papai–Noel , meu nome é Daniele e o único presente de Natal que eu desejo é que minha mãe consiga um emprego . Desta maneira o bom velhinho mostrou a bonequinha para a garota e exclamou : - Este brinquedo ajudará a sua mãe a encontrar um serviço ! Depois da visita desta criança , apareceu um menino , aos prantos , explicando : - Eu só queria que minha vovó saísse da UTI . Deste jeito Oswaldino deu a boneca para o garoto e afirmou : - Este brinquedo ajudará a sua avó a sair do hospital . Então muitas crianças vieram fazer pedidos ao ex–pai–de–santo . Porém estes dois pequeninos , citados acima , foram os que mais marcaram o idoso . Alguns dias depois , no dia 24 de dezembro , Daniele apareceu correndo , deu um abraço no Papai–Noel e falou : - Obrigada , bom velhinho ! - Pois minha mãe conseguiu um emprego . Naquele mesmo instante , o menino , que estava com a sua avó doente , surgiu na frente da loja , abraçou o São Nicolau e exclamou : - Viva ! - Minha vovó saiu da UTI ! - Agora ela poderá passar o Natal com toda a família ! Assim Oswaldino explicou : - Não é a mim que vocês devem agradecer e sim à bonequinha mágica . De repente o bom velhinho sentiu muito sono , dormiu e avistou uma moça de vermelho que gritou : - Oswaldino , levarei você para um lugar muito bonito ! Deste jeito o idoso falou: - Quem é você , dama de vermelho ?! - Já sei : - Você é a Mamãe Noel ! Desta forma a moça explicou : - Não sou Mamãe Noel porcaria nenhuma ! - Não se lembra mais de mim ?! - Eu sou a Pomba–Gira! - Mas não levarei você ao inferno . Pois você está com o espírito de Natal incorporado no seu corpo . Como um raio o corpo do velhinho caiu do trono e as crianças gritaram . Naquele mesmo instante a dona da loja veio socorrê–lo , sentiu os seus pulsos e exclamou : - Acho que ele está morto ! - Por favor , chamem a ambulância ! Após o socorrista examinar o idoso , ele comentou : - Com certeza este senhor morreu em paz . Pois desencarnou vestido de Papai–Noel e fazendo os pequenos felizes . Oswaldino faleceu e o tempo passou . Alguns anos depois , um senhor nissei de barbas brancas , olhou–se no espelho e pensou : - Todos os dias do ano faço serviço voluntário e participo das atividades da minha religião : o Budismo ... - Mas neste final de ano eu gostaria de exercer uma atividade que fosse remunerada e que , ao mesmo tempo , fizesse as pessoas felizes ... - Já sei : - Eu poderia ser Papai–Noel de loja ! - Porém , tem um problema : - Eu sou nissei ... - E eu nunca vi um Papai–Noel descendente de japoneses ! - Sem falar que eu sou budista e nunca freqüentei a igreja católica ... Naquele instante , o oriental escutou um barulho de trovão e viu a imagem de um Papai–Noel moreno escuro no espelho , dizendo : - Pare com isto ! - Ás vezes o preconceito está dentro de nós mesmos ! - Enquanto eu morava aí na Terra era afro descendente , praticante de Umbanda e mesmo assim consegui um serviço de Papai–Noel no comércio . - Foi o melhor emprego que eu tive ! - Não importa a sua cor e muito menos a sua religião ... - Afinal , o essencial é que o espírito de Natal baixe em você ! Após falar estas palavras o São Nicolau moreno escuro desapareceu e o senhor nissei resolveu procurar emprego de Papai–Noel de loja

O capitalismo depois da crise - Perspectivas e temores sobre o futuro do sistema

Postado por Attman e Kamadon...

Artigo de Roberto Amaral pronunciado no SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE A CRISE MUNDIAL

Queridas amigas, queridos amigos, companheiras e companheiros militantes, faço inicialmente, de coração, um agradecimento necessário ao Partido dos Trabalhadores, ao Partido Comunista do Brasil, à Fundação Perseu Abramo e à Fundação Maurício Grabois por haverem convidado o meu partido, o Partido Socialista Brasileiro, para participar deste Seminário estar e assim desfrutar da oportunidade de falar a este auditório.
No curso dos debates até aqui travados, exorcizamos o capitalismo — ele foi revolvido como um cadáver exposto na pedra de mármore de um Instituto Médico Legal. Reviramos todas as suas vísceras, caminhamos pela sua biografia, fomos a seus antepassados. Alguns de nós ousaram e outros ousarão ainda falar de suas descendências. Concluída a diagnose, porém, coloca-se uma questão crucial para nós: o velho desafio que é 'O que fazer?'.
Que o capitalismo era tudo o que foi dito neste encontro, desculpem, nós já sabíamos. O que se coloca para nós — partidos de esquerda, partidos socialistas, partidos comunistas — é outra demanda: no mesmo momento em que se instala crise do capitalismo, registra-se (sugerindo uma contradição) a inflexão do movimento social e da força revolucionária de nossos partidos. A social-democracia caminha para a direita, enquanto tradicionais partidos socialistas transitam para o campo correspondente às sociais-democracias atrasadas. Ou padecemos, a esquerda, pela ausência de referência política e doutrinária, ou mesmo programática a oferecer como contrapartida, ou carecemos de uma alternativa concreta. De uma forma ou de outra, coloca-se o desafio reclamando enquanto arde a crise: ‘O que fazer?
O capitalismo não funciona. Está aí, batizada de 'crise', sua disfunção. Mas nada estaria resolvido se ele 'funcionasse', pois, permaneceria padecendo mal incurável: o capitalismo é incurável, porque é fundamentalmente aético. Ele não tem cura porque é imoral. Podem os bancos centrais fazer o que quiserem, mas o capitalismo continuará inaceitável — porque ele se baseia na exploração do homem pelo homem. Há uma alternativa — a construção socialista —, mas esta promessa não está no nosso horizonte. Temos de trabalhar como quem se apega a uma utopia, perseguir a construção do socialismo sabendo que o capitalismo não cairá de podre, nem que haverá a transição do capitalismo para o socialismo simplesmente via crise após crise.
Independentemente da crise do capitalismo, o socialismo só vingará como resultado da ação revolucionária. É esta a questão que se recoloca para nossos Partidos — particularmente para aqueles, como os partidos brasileiros de esquerda, os quais, hoje, têm hoje funções e responsabilidades de Estado. Não podemos confundir o Estado com o Partido, nem vice-e-versa, mas não podemos renunciar aos nossos princípios socialistas e revolucionários, revolucionários porque socialistas.
Estou convencido de que, finda esta crise — como ao final das crises anteriores —, o capitalismo emergirá fortalecido com correções de curso, ou, como dizem os economistas, vacinado, através de regulações, contra novas e futuras alucinações de mercado, isto é, preparando-se para produzir novas crises e conjurá-las.. Às vezes, tendo a dizer que não há crise do capitalismo. Se ela é constante e hodierna, se é uma característica funcional, não é crise. Talvez não seja inevitável que o capitalismo saia fortalecido, mas será inevitável o seu fortalecimento se permanecermos pura e simplesmente, analisando suas ‘crises’ e procurando as soluções tradicionais para ‘salvar’ o capitalismo, em nome do bom propósito de salvar nossos países.. E é isso, tão-só isso o que o mundo tem feito, e nele nossas administrações, as administrações socialistas dos países capitalistas, e nos países capitalistas os partidos socialistas for a do poder.. Desconheço qualquer experiência contemporânea que signifique o enfrentamento da crise s aprofundando a contradições do capitalismo.
Estamos nós, inclusive, muito satisfeitos quando desmoralizamos o neoliberalismo ( e implicitamente estamos dizendo que a crise não ‘;e do capitalismo mas de uma exacerbação sua, o neoliberalismo) e dizemos que o capitalismo, para se salvar, teve de lançar mão do intervencionismo estatal, e com isso dizemos que esse intervencionismo é vitória nossa. Mas intervencionismo estatal não se confunde com o Socialismo!. A presença do Estado na economia é uma característica do capitalismo mundial. Do ponto de vista político o cenário de hoje está a nos convencer de que, ao fim da crise, emergirá a mesma hegemonia, a mesma hegemonia econômica e política das grandes potências capitalistas, Estados unidos à frente, simplesmente porque a crise capitalista, isolada, não implicou crise de hegemonia.. Não há outra hegemonia se contrapondo ou se oferecendo como alternativa à hegemonia norte-americana. Os Estados Unidos sairão da crise ainda como maior potência militar, técnico-científica e econômica.
O que há, do ponto de vista da hegemonia, é uma tentativa de associação paralela. O que querem os outros países? O que querem os emergentes? O que desejam os BRICs? Serem ouvidos, serem considerados, mas jamais substituírem a força hegemônica. Quero dizer que temos de nos preparar para conviver ainda por muitos anos com o enfrentamento do imperialismo. Do meu ponto de vista, não haverá mudança do modo de produção em escala mundial, nem tampouco podemos esperar uma superação hegeliana do sistema interestatal capitalista. Não estão dadas as condições objetivas, nem as subjetivas. As condições subjetivas nós podemos construir, pela perspectiva de uma alternativa socialista a médio prazo.
O que pode ocorrer, o que, talvez, pode ser uma tendência histórica, é que a agudização da crise leve — como levou no passado — a alternativas totalitárias, xenófobas, aos nacionalismos, aos protecionismos, à discriminação étnica, dentro do capitalismo. Por inexistência de atores e impossibilidade da guerra mundial, as guerras localizadas podem substituir a necessidade de produção do capitalismo. Este quadro se oferece em momento de crise do modo de produção industrial em todo o mundo. Quando falo em crise de produção industrial, estou falando em tendência mundial ao desemprego e ao enfraquecimento do proletariado, obrigado a transitar das reivindicações políticas para as reivindicações econômicas ou assistencialistas. Conservar o emprego, quase a qualquer custo, passa a ser a palavra de ordem.
Falando com a responsabilidade de presidente da República, o maior líder sindical que este país já teve, hoje nosso maior líder popular, há pouco, disse o Presidente Luis Inácio Lula da Silva que, em tempos de crise, o que cabe ao sindicalismo é defender seus postos de trabalho. Ele não falou nada mais que a verdade. Isso significa um retorno da luta sindical para as postulações econômicas, afastando-se cada vez mais da lide política. É outro desafio que a realidade concreta coloca ao nosso enfrentamento e aos nossos deveres como militantes revolucionários.
Temos, no Brasil, uma conquista importante a preservar, entre muitas outras: nossa integridade territorial, que ressalta quando olhamos — o que raramente os brasileiros fazem — na direção dos Andes, na direção do Oeste. Aqui, em contraposição à divisão de Estados da América hispânica, construímos uma América portuguesa com uma área de 8,5 milhões km² — o que nos condena a sermos um grande país. O Brasil não tem o direito de fracassar, de não conhecer o desenvolvimento, de não construir aqui uma sociedade sadia e igualitária, sob o reino da liberdade.
Mas o Brasil tem também uma característica que contrasta com a tradição hispânica, que é nosso horror à ruptura, à revolução. Getúlio Vargas entrou na Revolução de 30 quase coagido, levado pelos seus companheiros de aventura comedida. Ele não queria a Revolução— seu projeto era simplesmente e ser reconhecido como presidente-eleito, no lugar de Júlio Prestes o ungido nas eleições defraudadas, e assim, simplesmente assumir a Presidência da República. Mais de cem anos antes, nossa Independência ( a ruptura colonial de Portugal) não resultou de luta social nem de revolução civil, nem de guerra de independência. Consumou-se como fruto de negociação da classe dominante, uma associação de portugueses e latifundiários brasileiros, negociando o financiamento da dívida portuguesa com a Inglaterra. O marechal Deodoro da Fonseca, o militar que proclamou nossa República, saiu de casa para depor o gabinete conservador que lhe era hostil. Assumiu a Presidência e ficou o tempo todo sem saber por que não o tratavam de “Vossa majestade”, como chamavam a seu padrinho, D. Pedro II, o monarca deposto.
Enquanto vários países tiveram de enfrentar a guerra civil — os Estados Unidos se dilaceraram na Guerra da Secessão —, construímos a Abolição da Escravatura em doses homeopáticas. No dia 13 de maio de 1888, o que se consagrou, fundamentalmente, foi o pleito dos conservadores que tudo podiam ceder contanto que não se fizesse, com a abolição, a reforma agrária, pleiteada por Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Esta marca da alma brasileira, a negociação, o compromisso, os descompromissos ideológicos, se se reivindica o mérito de haver contribuído para a querida unidade territorial do país, pode ser acusada de constituir-se em empecilho a qualquer avanço ou progresso social que exija ruptura. Daí a placidez de nossa história comungando com o longo processo exigido pelas transformações sociais.
Evidentemente, quaisquer que sejam as características de nossos países, de nossos povos e de cada um de nossos processos revolucionário, a luta política contra a crise (suponhamos que ela esteja sendo travada em algum lugar) implica acumulação de forças. Mas a acumulação de forças não é um processo em si, autônomo, que se justifica por si: acumular forças para quê? Não podemos guardá-las como se preservam informações em um banco de dados… No momento, a correlação de forças em nosso país é desfavorável à esquerda. Não nos iludamos com o quadro brasileiro. Estamos dependendo da liderança popular extraordinária, anormal e desconhecida em toda a História do país, que é a liderança pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua liderança pessoal é maior que a reunião das forças dos partidos de esquerda que integram a base de seu governo! Isto por si só, é um desafio que fala de sua potência e de nossa fragilidade. Harmonizar esses elementos é desafio importantíssimo, principalmente quando nos aproximamos de uma nova eleição presidencial. No caso brasileiro, eleição importantíssima, pois renovará todos os parlamentos estaduais, o parlamento federal Câmara e Senado federais) e todos os governos de estado. Não está distante de nós a possibilidade de um retrocesso, que seria a eleição de qualquer representante do núcleo de poder derrotado em 2002 e 2006.
Mas, ao contrário do que está ocorrendo na Europa — onde nos ameaça o avanço das forças reacionárias, retrogradas -- assistimos na América do Sul a fenômeno absolutamente novo em nossa história: a emergência das massas. Estou falando em “emergência das massas” com todos os riscos, pois, em muitos casos, não se trata de massas organizadas, e emergência com a qual poucos de nossos partidos podem se considerar protagonistas. É fato inédito na história dos nossos países que um índio governe a Bolívia, que um crioulo governe a Venezuela. As novas lideranças desses países são originárias e não representantes da burguesia. Não são europeizadas. São índios, são camponeses, são crioulos. E ninguém pode mais chamar a isso de populismo, como sempre o fez a direita brasileira, reproduzindo a direita internacional. Os originários desses países é que estão fazendo sua política, sem intermediação. E isso incomoda, sobremodo, nossas classes dominantes.
Em meio ao crescimento dos movimentos sociais e à emergência popular no Paraguai, no Equador, na Bolívia e na Venezuela, porém, registra-se a quase irrelevância da presença dos partidos de esquerda. Pode ser que desse espontaneísmo das massas e do voluntarismo de seus líderes resulte, ameaçando-o, a fragilidade ideológica do processo. E eis uma preocupação a mais. Precisamos entender — e pelo menos o Brasil de Lula entende — que o processo social, seu avanço, seu bom êxito, está diretamente vinculado ao sucesso das experiências progressistas da América do Sul, vale dizer, do sucesso político e administrativo dos governos que estão protagonizando. Eis por que nossa solidariedade internacional deve ter seu primeiro ensaio na América do Sul, fortalecendo, protegendo e aprofundando essas experiências. Já tivemos exemplos de que isso é possível, caso que é o da concertação de países em torno da manutenção do regime constitucional boliviano.
Entre nós, no Brasil, assistimos, principalmente em 2006, à mais espetacular manifestação popular deste país.O presidente Lula, depois de enfrentar — e agora pode-se dizer isso — uma tentativa de golpe em 2005, enfrentou uma eleição verdadeiramente plebiscitária contra todas as forças conservadoras do país e toda, repito: toda, a imprensa brasileira. O resultado do processo eleitoral questiona o papel da imprensa como manipuladora da opinião pública e construtora do pensamento da classe média e dessa influir na formação da opinião das grandes massas. Essas, nada obstante o ataque ideológico unilateral, entenderam que Lula e sua política se identificavam com os interesses do povo, do homem comum e pobre. Sem o presidente na disputa, esse fenômeno brasileiro particularíssimo de emergência das massas se repetirá em 2010?
Não sei e não posso apostar como serão as eleições de 2010, mas o último processo eleitoral destruiu aquele poder que a imprensa se supunha ter: o papel de conduzir, através da classe média, a chamada opinião pública nacional — que não é opinião pública, mas opinião publicada. O presidente Lula foi eleito e consagrado em processo eleitoral democrático e universal. Antes desse fenômeno chamado Lula, e mesmo nas suas primeiras campanhas, as esquerdas não tinham acesso às grandes massas, às massas desorganizadas, aos desabrigados, aos sem teto e sem terra, aos ‘descamisados’.. Tratava-se de privilégio do populismo, do assistencialismo, da influência do poder econômico nas eleições. Em São Paulo, nossa principal província, reinava populismo o mais reacionário, como o ademarismo, o janismo, e, mais recentemente,. Mas em 2006 o povo brasileiro fez uma opção política, dando às costas ao apelo populista, ao papel da classe-média, ao papel da imprensa, resistiu mesmo à pregação do moralismo anacronicamente udenista, que vitorioso e derrotado com os militares, renascia na cruzada na imprensa. . Com toda a crise do moralismo e ação dos meios de comunicação de massa, das forças conservadoras, das federações da indústria e do comércio, o povo identificou um ponto de apoio, nosso lado, e um adversários: nossos adversários.
Caberá agora saber ( e quem saberá?) se teremos competência para conservar essa aliança, em cuja construção as massas foram mais sujeito-ativo do que nossos partidos. Mas seremos nós os responsáveis pela manutenção desse pacto. Este desafio já está colocado para a esquerda brasileira.
Para alcançar tal objetivo será necessária a construção de um projeto de desenvolvimento nacional. Falta à esquerda brasileira construir um projeto de nação.
Que nação queremos?
Como construir essa nação?
Quais são os passos necessários para essa construção?
Temos um objetivo estratégico que nos une — e que é a construção do socialismo. De um socialismo que nós ainda não definimos. Sabemos apenas que ele não pode ser a reprodução do socialismo que nos foi dado conhecer e que não será construído através de nenhum assalto a nenhum símbolo de poder, seja uma reinventada Bastilha, seja um renovado ‘Palácio de inverno’. Dependerá, essa construção, da mobilização das grandes massas, de seu papel de sujeito, de sua consciência coletiva, do papel de suas lideranças, é verdade, sem espaço para os ‘guias geniais’. Muito obrigado!

* Roberto Amaral é cientista político, professor universitário, vice-presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ex-ministro de Ciência e Tecnologia (2003-2004) no governo do presidente Lula.

O povo boliviano consolida uma mudança histórica

Postado por Attman e Kamadon...

SERPAL *

Tradução: ADITAL
Por Carlos Iaquinandi Castro
redação de SERPAL.



O povo boliviano, que nos anos 90 livrou múltiplas batalhas contra as expressões das políticas neoliberais, foi construindo uma organização e uma consciência popular que derrubou tentativas como as da privatização da água ou a entrega de sua riqueza em gás natural. No início desse novo século, ficou evidenciada uma confrontação aberta entre dois modelos antagônicos: um baseado na continuidade do controle político por uma elite minoritária para assegurar os controles no econômico e social. Isso supunha manter a injusta distribuição da riqueza e das oportunidades. O outro modelo se apresentava como uma forma imprecisa de mudança e transformação, que apontava para o controle dos recursos nacionais e para o nivelamento das desigualdades, outorgando participação e direitos sociais básicos, como educação e saúde às massas indígenas e camponesas, até então ignoradas e marginalizadas pelas classes dominantes.


Nasce o "instrumento político"

A expressão política que conseguiu dotar esses setores sociais majoritários com organização e consciência foi liderada por um sindicalista de origem indígena e camponesa. Simples e elementar para a direita e para os analistas políticos, Evo Morales começou sua incansável tarefa de somar vontades e explicar com as palavras justas, porém compreensíveis para seu povo, a necessidade de unir-se para mudar esse injusto estado de coisas herdado desde tempos da Conquista. Assim nasceu o que eles denominaram "o instrumento político".

A fundação do MAS (Movimento Al Socialismo) afrontou a risco de transformar-se, como outras experiências bolivianas, em um partido cuja ação política pouco ou nada tivesse com suas siglas, como é o caso do histórico Movimento Nacionalista Revolucionário ou do Movimento de Esquerda revolucionária. Porém, nesse caso, a experiência de luta popular encontrou uma liderança firme e clara, surgida de suas próprias filas que partilhou avanços e retrocessos e acompanhou bloqueios e mobilizações. Evo, ao referir-se aos processos eleitorais, advertiu que qualquer possibilidade de mudança através do voto não significava uma aposta ou um cheque em branco. Tratava-se de exercer essa possibilidade democrática com todas as limitações existentes e sem ‘baixar a guarda’; sem desmobilizar-se; sem abandonar o envolvimento cidadão após votar. Porém, não somente advertiu; uma vez ganhas as eleições há exatamente quatro anos, colocou tudo em prática. E foi cumprindo seus compromissos: a nacionalização dos hidrocarbonetos; a convocação para a Assembleia Constituinte; o reconhecimento dos direitos indígenas; o bônus ‘Juancito Pinto’, para todos os estudantes; a ‘Renda Dignidade’, para os idosos/as; ou a ampliação dos serviços em educação e saúde.

Sempre recordou que a força está no povo unido e consciente de seus direitos e de seus objetivos. Evo Morales e seu vice-presidente, Álvaro García Linera, explicaram que a fortaleza de uma possibilidade de mudança estava na acumulação social, na base ativa dessa mudança. Por isso, não ficaram somente em consignas e em ações dirigidas unicamente aos indígenas ou aos camponeses; mas, nessa segunda fase do processo, intensificaram seu trabalho com setores médios e profissionais e entraram nos bastiões da oposição, como Pando ou Santa Cruz de la Sierra. O resultado está à vista. Em quatro anos não somente obtiveram uma histórica reeleição; mas, o significativo apoio de 53,7% dos votantes se transformou em um estrondoso 63,3% dos votos e na obtenção da maioria necessária na Assembleia Legislativa, o que permitirá impulsionar as leis e as normas que permitam desenvolver os princípios da Nova Constituição Política do Estado (CPE), aprovada em referendo no início deste ano.

Um caminho minado

O que foi conseguido nesses primeiros quatro anos superou as previsões mais otimistas. No caminho foram derrotadas as conspirações urdidas pelas correntes que se alternaram e se beneficiaram do poder. Conservadores, neoliberais; autoritários nostálgicos das ditaduras militares; e capatazes das multinacionais estrangeiras ensaiaram boicotes; algazarras violentas, matanças de camponeses, como em Pando; tramas golpistas, como em Santa Cruz de la Sierra, com sicários contratados no exterior; subornos; difamações ou mentiras; e manipulação constante através do controle dos principais meios de comunicação. Tudo isso e mais deveriam enfrentar as correntes populares que reconhecem a liderança de Evo Morales. Essas investidas que, às vezes, pareciam definitivas foram fortalecendo o movimento popular, que soube tirar lições de cada choque com aqueles que pretendiam deter as mudanças. Cada erro teve que ser corrigido; cada acerto, multiplicado.

Aprendendo a construir

Esta experiência exige uma profunda reflexão a todos os que lutamos por essas mudanças necessárias em nosso continente. Aos que livramos essa velha batalha pela justiça social; por eliminar desigualdades; por recuperar a soberania sobre nossos próprios recursos. Não para estimular torpes tentativas de "copiar" modelos; mas, para resgatar os princípios básicos da luta do povo boliviano. Entre eles, a construção de baixo para cima; desde a base social, que é o sustentáculo e a força natural da mudança. A perseverança e a paciência na tarefa política. A simplicidade e a humildade exercida a partir da liderança, acompanhadas por uma conduta honesta que se converte em exemplo a seguir.

A mudança em mãos do povo

O povo boliviano celebra sua vitória. Como disse Evo Morales, este triunfo eleitoral "quer dizer que a revolução democrática cultural e social deixou de ser uma bandeira de um partido e se converteu no projeto político do povo boliviano". Será difícil que essas massas indígenas e camponesas, que, com sua própria luta, ganharam espaços de participação e dignidade, aceitem um retrocesso. O fatalismo histórico e seus mentores intelectuais e dos meios de comunicação foram derrotados pela consciência e pela vontade popular. Porém, seria errôneo supor que este é o ponto de chegada. Ao contrário, é um ponto de partida, no qual se multiplicarão os riscos. Riscos internos para controlar a burocratização e a soberba; ou a corrupção a partir dos cargos públicos; ou para manter a firmeza em encaminhar as mudanças imprescindíveis.

Porém, também existem riscos externos desse conglomerado de resíduos do antigo sistema que continua controlando o poder econômico e midiático e são os ‘testa de ferro’ de multinacionais acostumadas a "comprar" governos e legisladores. Sempre rechaçaram a possibilidade de perder seus privilégios e seu controle político, econômico e social. Agora sabem que esta não é uma conjuntura, mas uma virada histórica. Gravemente feridos, são mais perigosos. Têm sido capazes de recorrer à violência quando esta não era imprescindível. Agora pode ser que a considerem como o único caminho para evitar seu definitivo derrocamento. Certamente, os que bem sabem disso são os irmãos bolivianos que souberam chegar a este memorável seis de dezembro. Eles demonstraram o mais difícil: que tudo é possível quando há consciência e organização popular. Resta-nos apoiá-los, conscientes de que sua vitória também é nossa; é a vitória de todos os povos da América Latina. E colocar em prática que esse potencial do povo boliviano está na força coletiva, isto é, na vontade ativa de cada um de nós.


* Serviço de Prensa Alternativa

A Páscoa de Thiago

Postado por Attman e Kamadon...

Fr. Marcos Sassatelli *

"Todas as vezes que vocês fizeram isso
a um dos menores dos meus irmãos,
foi a mim que o fizeram!" (Mt 25, 40)

Thiago - um adolescente de 17 anos, que já tem um filhinho de nove meses, Paulo Henrique - foi barbaramente assassinado na noite do dia 18 deste mês de novembro. O fato aconteceu justamente - parece até uma ironia - na Avenida chamada Vale dos Sonhos e em frente à Igreja chamada Nossa Senhora da Paz, no Bairro São Domingos, na região noroeste de Goiânia.

Sem negar a responsabilidade pessoal de quem o matou, podemos afirmar que Thiago é mais uma vítima do sistema capitalista neoliberal, que é um "sistema econômico iníquo" (Documento de Aparecida - DA, 385) ou - como afirma Paulo VI - um "sistema nefasto", porque considera "o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes" (Populorum Progressio - PP, 26).


O sistema capitalista neoliberal - que coloca o dinheiro como um deus, como um valor absoluto, a serviço do qual tudo pode e deve ser sacrificado, inclusive a vida de um adolescente - produz desigualdade social gritante, que é uma das causas principais da violência.

Há trinta e seis anos, em plena ditadura militar, Bispos do Centro-Oeste do Brasil definiam o capitalismo como sendo "o mal maior, o pecado acumulado, a raiz estragada, a árvore que produz esses frutos que nós conhecemos: a pobreza, a fome, a doença, a morte da grande maioria" (Marginalização de um Povo, 1973).

Há poucos meses - voltando da mesma Igreja Nossa Senhora da Paz depois da Missa dominical das 19,30h - já tinha me deparado com o corpo de outro jovem, estendido na mesma Avenida Vale dos Sonhos. O corpo estava rodeado de pessoas, aguardando o carro do IML. Quantos jovens marcados para morrer! Quanto desrespeito pela vida humana! Quanta maldade!

Precisamos dar um "basta" a tudo isso. Como nos lembra o lema do Grito dos Excluídos 2009, "a força da transformação está na organização popular". Não podemos perder a esperança de um mundo diferente, de um mundo novo.

Os poderes públicos, municipal, estadual e federal, não se preocupam com a realidade do nosso povo sofrido. Basta ver o espetáculo deprimente dos conchavos políticos ao qual assistimos todos os dias, sobretudo em época de eleições. Cada pessoa ou grupo visa seus próprios interesses da forma mais acintosa e despudorada possível.

Na nossa cidade de Goiânia não temos políticas públicas - que sejam realmente prioritárias - para crianças, adolescentes e jovens, sobretudo "em situação de rua". O motivo é sempre a "falta de verbas". Por que será que para grandes obras sempre tem verbas? O que falta realmente é vontade política e, sobretudo, amor ao povo.

A qualidade de ensino nas nossas escolas públicas deixa muito a desejar. Para ocupar o tempo livre, depois das aulas, não existem programas educativos que ajudem as crianças, os adolescentes e os jovens a crescer em sua autoestima, a desenvolver sua criatividade e a descobrir o verdadeiro sentido da vida.

Para os jovens, que já têm idade para trabalhar, não existem políticas públicas que ofereçam possibilidades de emprego. Quando os jovens conseguem algum trabalho, temporário ou permanente, ganham um salário de miséria. Os jovens não têm incentivo e não têm perspectiva de um futuro digno. Dai a tentação do dinheiro fácil, entrando no mundo da violência, da prostituição, do tráfico de drogas e do crime.

As crianças, os adolescentes e os jovens são, quase sempre, vítimas do descaso do poder público, de estruturas sociais injustas ou, em outras palavras, de uma sociedade assassina. É esta uma situação de pecado social, de pecado estrutural.

Apesar de tanta maldade humana, no velório de Thiago nós celebramos a vida, não a morte. Sabemos que Deus nos ama, quer o nosso bem e a nossa felicidade. Na sua breve existência terrena, Thiago foi batizado, fez a primeira eucaristia e recebeu o sacramento da crisma. À luz da fé, podemos dizer que Thiago, adolescente de 17 anos, "completou sua Páscoa" e se encontra agora na plenitude do Reino de Deus.

Os pais de Thiago, Zoroastro e Ivanete, e os irmãos, Bruno e Loraine, participam da Comunidade Nossa Senhora da Paz. A mãe deu um testemunho que nos emocionou a todos, e que revela uma sensibilidade humana profunda e uma fé em Deus inabalável. Mesmo sofrendo muito, juntamente com o esposo e os filhos, ela declarou, ao lado do caixão, que perdoava o assassino de seu filho Thiago e desejava que a mãe dele nunca passasse pela dor que ela estava passando.

A CNBB nos lembra que "crianças, adolescentes e jovens precisam ser reconhecidos como sujeitos na sociedade e, portanto, merecedores de cuidado, respeito, acolhida e principalmente oportunidades".

"A Igreja no Brasil - continua a CNBB - conclama os poderes públicos Executivo, Legislativo e Judiciário bem como a sociedade civil a debater o assunto. Urge a busca de soluções focadas nas políticas públicas que efetivem melhores condições de vida para todos, na implementação de medidas sócioeducativas previstas no ECA e no desenvolvimento de uma política nacional de combate ao narcotráfico, penalizando com maior rigor a manipulação e o aliciamento de crianças, adolescentes e jovens pelo crime organizado" (Declaração da CNBB contra a redução da maioridade penal, Indaiatuba, São Paulo, abril de 2009).

"CRIANÇA E ADOLESCENTE PRIORIDADE ABSOLUTA" (Constituição Federal, art. 227). Por que será que os nossos governantes e os nossos políticos, em sua grande maioria, não levam a sério esta "prioridade absoluta"? Nas próximas eleições votemos em políticos que queiram realmente servir ao povo e não se servir do povo, aproveitando sua boa fé e traindo sua causa, que é a causa de "um outro mundo possível".

"Basta de morte! Queremos vida!"
"A juventude quer viver"
"Diga sim aos direitos da juventude"!
(Campanha em Defesa da Vida, iniciada em 2004)


* Frade dominicano. Doutor em Filosofia e em Teologia Moral. Prof. Especialização em Direitos Humanos do Instit. Dominicano de Justiça e Paz "Frei Antônio Montesino". Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia

O encanto dos Orixás

Postado por Attman e Kamadon...

Leonardo Boff

Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuína brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento incessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso país criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteísmo, mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Álvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, "os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores".

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.



* Teólogo, filósofo e escritor

sábado, 12 de dezembro de 2009

Vida em outros Planetas

Não somos os únicos...

Por Allan Kardec

Sistema SolarDe acordo com o ensinamento dos Espíritos, de todos os globos que compõem o nosso sistema planetário, a Terra é onde os habitantes são menos avançados, tanto física quanto moralmente. Marte ainda estaria inferior e Júpiter muito superior em todos os sentidos. O Sol não seria um mundo habitado por seres corporais, e sim um lugar de encontro de Espíritos superiores que, de lá, irradiam seus pensamentos para outros mundos, que dirigem por intermédio de Espíritos menos elevados, transmitindo-os a eles por meio do fluido universal. Como constituição física, o Sol seria um foco de eletricidade. Todos os sóis parecem estar numa posição idêntica.

O volume e a distância que estão do Sol não têm nenhuma relação necessária com o grau de adiantamento dos mundos, pois parece que Vênus é mais avançado que a Terra, e Saturno menos que Júpiter.

Muitos Espíritos que na Terra animaram pessoas conhecidas disseram estar encarnados em Júpiter, um dos mundos mais próximos da perfeição, e é admirável ver, nesse globo tão avançado, homens que, na opinião geral que fazemos deles, não eram reconhecidos como tão elevados. Isso não deve causar admiração, se considerarmos que alguns Espíritos que habitam Júpiter podem ter sido enviados à Terra para cumprir uma missão que, aos nossos olhos, não os colocava em primeiro plano; que, entre sua existência terrestre e a de Júpiter, podem ter tido outras intermediárias, nas quais se melhoraram. E, finalmente, que nesse mundo, como no nosso, há diferentes graus de desenvolvimento, e que entre esses graus pode haver a mesma distância como a que separa entre nós o selvagem do homem civilizado. Desse modo, o fato de habitarem Júpiter não quer dizer que estão no mesmo padrão dos seres mais avançados de lá, da mesma forma que não se está no mesmo padrão de um sábio da Universidade só porque se reside em Paris.

As condições de longevidade não são também as mesmas que na Terra, e por isso não se pode comparar a idade. Um espírito evocado, desencarnado há alguns anos, disse estar encarnado há seis meses num mundo cujo nome nos é desconhecido. Interrogado sobre a idade que tinha nesse mundo, respondeu: “Não posso avaliá-la, porque não contamos o tempo como vós; além do mais, o modo de vida não é o mesmo: desenvolvemo-nos lá com muito mais rapidez; embora não faça mais que seis dos vossos meses que lá estou, posso dizer que, quanto à inteligência, tenho trinta anos da idade que tive na Terra”.

Muitas respostas semelhantes nos foram dadas por outros Espíritos, e isso nada tem de inacreditável. Não vemos na Terra um grande número de animais adquirir em poucos meses seu desenvolvimento normal? Por que não poderia ocorrer o mesmo com os habitantes de outras esferas? Notemos, por outro lado, que o desenvolvimento adquirido pelo homem na Terra, na idade de trinta anos, pode ser apenas uma espécie de infância, comparado ao que deve alcançar. Bem curto de vista se revela quem nos toma em tudo por protótipos da criação, e é rebaixar a Divindade crer que, fora o homem, nada mais é possível a Deus.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"O Inimigo de Deus"

“O ser humano é inimigo de Deus”. (Paulo)

O que é um ser humano?

Podemos definir ser humano como um ser espiritual vivenciando uma experiência humana. No entanto, o ser humano vive exatamente ao contrário: imagina-se humano vivenciando experiências espirituais.

Essa compreensão é importante porque quando o ser viver dentro da realidade da sua existência, o foco da vida mudará. Enquanto o ser vivenciar a vida como um humano que apenas realiza experiências espirituais o foco da sua vida serão os objetivos materiais. Apenas quando se souber espiritual vivendo experiência humana poderá mudar o valor que atribui as coisas da vida.

Por exemplo: as situações negativas da vida. Sabemos que elas são provas para a evolução espiritual, mas enquanto o homem sentir-se humano rejeitará essas situações, fugirá delas, pois verá apenas o lado trágico aos desejos humanos. No entanto, quando se compreender como espírito vivendo a vida carnal entenderá a necessidade da existência desses momentos e só então poderá vivenciá-los como dádiva do Pai para a sua eternidade espiritual.

A prova, as situações negativas, é o lado espiritual do ser dentro da experiência humana. No entanto, se ele é ser humano não quer passar pelas provas por que quer a felicidade agora, nesse planeta.

Dessa forma, não podemos definir ser humano como um indivíduo ou uma pessoa, mas um espírito vivendo uma experiência humana.

Já que somos espíritos, para podermos viver perfeitamente a vida carnal, retirando dela a sua humanização e alcançando a consciência da existência eterna, precisamos compreender o que é a experiência humana que um espírito vive.

Somos todos espíritos, vivendo a experiência carnal ou não. Possuímos uma memória onde estão arquivados os valores que aprendemos durante a nossa existência eterna no universo. Chamamos essa memória de consciência espiritual.

Quando o ser humaniza-se não consegue acessar esses dados guardados na sua consciência espiritual, ou seja, não consegue utilizar-se dos conhecimentos que possui. Isso ocorre porque ela é encoberta por um novo elemento temporário que o ser adquire: o ego, ou consciência material.

O ego é um “personagem” que o espírito cria antes do nascimento carnal. Ele será composto de elementos que servirão ao ser durante a experiência carnal como campo de provas para sua elevação espiritual. O ego determinará a personalidade, o corpo, o nome e tudo que se relacionar com o ser humano a tal ponto que o ser humanizado imaginar-se-á como o ego e não como o espírito que é.

Aí está a prova. O ser humanizado precisará da fé e do amor a Deus para suplantar as verdades que o ego lhe transferirá e viver a existência carnal como experiência espiritual. Enquanto não conseguir essa vitória, estará preso às realidades que o ego cria e não aproveitará a chance da encarnação. Quando o ser conseguir vencer ao ego poderá, então acessar à sua consciência espiritual e aí viver a vida em total comunhão com o Todo.

Não existe o ser humano. Marias, Paulos, Josés ou qualquer outro ser humano são egos criados por seres universais para viver uma existência carnal. Você é um espírito, sem nome, cor, idade, sexo, religião, raça, etc: tudo o que imagina ser é um personagem (ego) que criou para viver essa aventura carnal.

O ser humano, portanto, é um ser universal (espírito) vivendo uma aventura humana conduzida pelo ego na qual necessita destruí-lo para poder atingir à sua realidade: a espiritual.

Cumpre ressaltar que essa aventura humana não está diretamente relacionada com a ligação com uma matéria carnal. Existem diversos seres universais que já desencarnaram, mas que ainda não conseguiram libertar-se do ego. São aqueles que ainda imaginam-se donos de propriedades, maridos, mulheres ou filhos e que, mesmo fora da carne, ainda vivem apegado a essas coisas materiais.

A vitória só acontecerá quando ele vencer o ego e isso terá que ser realizado necessariamente antes da próxima encarnação. O ser só poderá formar um novo ego quando destruir esse e reassumir a sua consciência espiritual. Portanto, a humanização do ser não acaba com a morte, mas sim com a destruição do ego.

Por isso, podemos afirmar que existem muitos seres humanos fora da carne, mas também que existem muitos espíritos vivendo na carne. O que determina a sua “classe” não é a carne em si, mas a consciência com a qual vivencia a sua existência.

A partir dessa visão, podemos então entender que o ser humano não é um homem (corpo mais espírito), mas apenas o ego que dirige a existência do espírito por determinado tempo. O ser universal é sempre um espírito (ser puro e inocente como criado por Deus) e a sua humanidade é representada pelos diversos egos que cria para realizar provas ao longo da eternidade.

Paulo afirma: o ser humano é inimigo de Deus, ou seja, o ego que humaniza o ser universal é inimigo de Deus.

Agora que já conhecemos a separação entre os seres universais (humanizados ou espiritualizados), podemos compreender que aquele que vive com a consciência espiritual está muito mais perto da Realidade (Deus), enquanto que o primeiro vive num mundo ilusório. Para ele, a realidade é criada pelo seu ego e não pela perfeita consciência das coisas espirituais (Realidade).

Somente quando o ser desvencilhar-se de seu ego, desacreditando das verdades que ele cria, poderá entrar na Realidade do universo. Só então, poderá viver em comunhão com o divino.

Aquele que vive dirigido pelo seu ego não consegue a religação com o Pai porque está preso no individualismo. Essa característica que é a principal do ego leva o espírito a vivenciar a realidade buscando levar vantagem sempre. O ego está sempre conduzindo o raciocínio do ser com verdades que promovam o seu bem-estar individual acima do coletivo.

O ser, quando de posse da sua consciência espiritual, está sempre atento a cumprir o segundo mandamento ensinado pelo mestre Jesus Cristo (”amar ao próximo como a si mesmo”), mas aquele que vive a experiência humana guiado pelo ego ama a si mais do que aos outros. É por isso que ele é inimigo de Deus.

O Pai é a Justiça Perfeita, o Amor Sublime. Ele ama por igual a todos os filhos e dá a todos igualmente. Em momento algum Deus proverá a um mais do que outro, ou seja, nunca privilegiará um em detrimento do outro. Isso nos leva a entender que todos os acontecimentos da vida são soberanamente Justos e Amorosos por causa de sua Fonte. O ego, que quer sempre ganhar, não deixa o ser humanizado ver isso.

Ele reclama de injustiça e desamor quando não ganha. Para isso cria ilusões onde afirma que aconteceram erros, agressões, ferimentos, etc. O ser guiado por ele crê nessa ilusão e por isso afasta-se também do Pai, acusando a vida de ser injusta. Por isso Salomão diz que tudo o que um ser humano pode compreender é ilusão e Krishna afirma que o ser humano vive em maya (ilusão).

Portanto, o ser humanizado (guiado pelo ego) se transforma em um inimigo de Deus porque utiliza individualismo enquanto que o universo é guiado pelo universalismo, ou seja, a cada um na sua justa medida.

Apesar de muito forte, a conclusão de que o ser humanizado é inimigo de Deus é a primeira que qualquer ser encarnado deve alcançar quando iniciar a sua busca espiritual. Sem isso ele jamais buscará sair da sua humanidade, ou seja, lutar contra o seu ego para vencê-lo.

De nada adianta o ser buscar a elevação espiritual seguindo os conceitos que já formou sobre esse assunto. Alcançar a elevação espiritual é calar a mente (funcionamento do ego) em todos os sentidos. É não ter mais verdades ou realidade, mas viver a vida em completa harmonia com os acontecimentos.

Para isso se faz necessário não se tirar mais conclusões sobre nada, pois todas elas serão formações do ego que estará falseando a verdade para iludir o ser. Aquele que busca a elevação espiritual não sabe de nada, não conhece nada, não vê, não ouve, nem fala nada, mesmo que o assunto seja os conhecimentos religiosos.

O ser que busca a elevação espiritual (vencer o ego) não possui religião nem código de normas. Para ele tudo do universo é manifestação de Deus e por isso tudo é Perfeito, Justo e Amoroso.

Portanto, a humanização do ser é uma etapa da existência espiritual, onde ele deve provar ao Pai que é capaz de vencer a si mesmo, eliminando todo o seu individualismo. Por isso o mestre Jesus Cristo nos ensinou: é preciso renascer. Não reencarnar, mas matar durante a existência tudo aquilo que o ego criou e começar a viver com universalismo.

Já havíamos definido universalismo como amar ao próximo como a si mesmo, mas como será esse amor? Essa foi uma pergunta que os fariseus fizeram ao mestre Jesus Cristo, mas ele respondeu com uma parábola (Bom Samaritano) e muitos até hoje não compreenderam perfeitamente o ensinamento.

Amar a todos como a si mesmo, na prática, é viver para servir ao próximo. Quem não vive para isso, vive para se servir do outro, ou seja, baseia-se no individualismo. Apenas o serviço ao próximo, sem desejos ou vontades, pode universalizar um ser.

Você quer ir? Vamos. Você quer ficar? Fiquemos. Você acha que está certo e eu estou errado, então estou. Você quer que eu faça, eu faço. Você não quer que eu faça, eu não faço. Esse é o serviço ao próximo.

Quando o ser se contrapõe ao que o outro quer não estará servindo ao próximo, mas se servindo dele, ou seja, buscando impor sua vontade individual. Esse é um ser humilde (”bem-aventurado os humildes”) e que jamais será humilhado. Ele serve com a consciência espiritual do amor e não se sente rebaixado ao servir o próximo.

Quem age dessa forma é um ser universal de posse da sua consciência espiritual. Assim, o ser humano é o contrário disso, ou seja, é quem se serve do próximo. O ser humano precisa que o outro lhe sirva de instrumento para que ele seja feliz, o ser universal é feliz por servir. Por isso Paulo diz que o ser humano é inimigo de Deus.

Deus não vive para Si mesmo, mas para o Todo. Tudo que Ele faz é no sentido de proporcionar a felicidade integral a todos sem privilégios nenhum. Quando o ser está humanizado e necessita que os outros cedam para que ele se sirva, age contrariamente ao objetivo da existência de um espírito: aproximar-se de Deus.

Esse ensinamento não encontra fronteira nos relacionamentos humanos: deve ser aplicado em todos os casos. Uma mãe, por exemplo, que só é feliz quando seu filho é saudável, estudioso, comportado, serve-se dele para ser feliz. Para servi-lo ela deveria estar feliz sempre, independente do “estado” do filho. Não estamos falando em não orientar, mas nunca perder a sua felicidade.

Quantos pais orientam seu filho com raiva e fazem acusações de todos os tipos sobre ele? É preciso a manutenção do amor para bem orientar. Ao invés de brigar, gritar e acusar, sentar e conversar com o filho. Se mesmo assim ele permanecer na postura anterior, sentar e conversar novamente. Como ensinou Jesus Cristo: perdoar setenta vezes sete.

Os pais não conseguem fazer isso porque querem que o filho mude-se logo para eles (pais) conseguirem a felicidade. Enquanto o filho não for tudo aquilo que os pais sonham e almejam eles não estarão felizes. Portanto, servem-se do filho para obter a felicidade, ao invés de servirem ao filho com orientações amorosas e carinhosas. São inimigos de Deus que os ama incondicionalmente.

Todos os seres são filhos do Pai, encarnados ou não. Deus deu aos pais materiais o poder de orientar os filhos carnais e não de mandar ou comandar o destino de Seus filhos. É Ele quem determina o que acontecerá com cada um durante a existência carnal para que a Justiça jamais seja quebrada e para que cada um receba de acordo com suas obras.

Os pais carnais, no entanto, não compreendem dessa forma porque querem se servir dos filhos (ser feliz à custa das atitudes dele). Por isso querem comandar o destino do filho, ou seja, fazer com que sigam determinados caminhos. Isso é impossível, pois por não possuírem o conhecimento sobre a Realidade, os pais, muitas vezes, estariam levando-o a desperdiçar a oportunidade da encarnação.

Os pais, como seres guiados pelo ego, vivem pela busca do individualismo e apenas isso sabem ensinar ao filho. Se o destino desse filho estivesse nas mãos dos pais carnais sua vitória sobre o ego estaria comprometida, pois eles saberiam apenas ensiná-lo buscar se servir dos outros.

Além disso, a própria rebeldia do filho serve como prova para a vitória dos pais sobre os seus egos. Servindo-o com amor incondicional, sem estabelecer parâmetros para que esse amor (estado de espírito de felicidade) exista, os pais aprendem com os filhos a viver com os demais seres humanizados servindo-os.

Servindo o filho em casa (orientando sem depender das mudanças para ser feliz, ou seja, não colocando sua felicidade na dependência da mudança do filho), os pais aprendem a viver com a Realidade: cada um age dentro da sua natureza, guiado por Deus, para provar a sua libertação do ego.

Ao ser universal resta aprender a conviver com essa Realidade sem contrapor-se a ela. No entanto, enquanto o ego estiver guiando o ser universal ele não conseguirá viver assim e lutará com os outros fazendo críticas para poder transformá-los com a intenção de que cada um sirva de instrumento à sua felicidade.

A crítica é uma característica do ser humanizado, pois o ego precisa da reforma do mundo no sentido de adaptar-se aos padrões (verdades) individuais. Critica a todos e a tudo com o objetivo de transformá-los em cópia perfeita de si mesmo e assim, servir-se deles. No entanto, se essa mudança fosse possível, o próprio ego mudaria as suas verdades para novamente “abrir guerra” contra o próximo, pois ele se compraz com a vitória.

O alimento preferido do ego é o prazer da vitória que é alcançada com a submissão do próximo. Para ele não basta apenas o próximo concordar com as ilusões criadas por ele, mas precisa haver a vitória total sobre o outro (mudança de verdades) para que ele se infle.

Isso é humano, ou seja, é característica do ser que vive comando pelas ilusões que o ego cria. Por isso muitos tentam lutar contra a crítica e o julgamento para elevarem-se e não conseguem, pois não combatem o ego, a origem de tudo. Para elevar-se o espírito precisa se libertar do ego, ou seja, precisa não mais querer se servir do outro. Só assim ele se transformará em amigo de Deus.

Quem não é humano não age assim, mas quem ainda possui humanidade sempre agirá dessa forma. Portanto, o ser humano é aquele que critica e julga o próximo com a intenção de alimentar seu ego e por isso é inimigo de Deus.

O ser humano é dominador por natureza. Quer dominar o outro, as coisas, os acontecimentos, a si mesmo de tal forma que ele se satisfaça sempre, que ganhe sempre. Essa é uma experiência obrigatória para todos os espíritos. Nenhum espírito consegue alcançar a elevação espiritual sem passar por essa experiência, pois só com a vitória sobre ela terá o merecimento da elevação.

A vida universal é baseada no merecimento. Ninguém ganha nada de graça: é preciso conquistar, merecer para receber. Por isso o ser humaniza-se: para merecer elevar-se. Apenas vencendo o ego, a vontade de dominar a todos e a tudo o ser conseguirá avançar na ascensão espiritual.

Assim, a humanização de um ser não o transforma em “mau” ou “ruim”, um inimigo de Deus, mas a insistência em permanecer preso a ilusão criada pelo ego que é que o transforma em inimigo de Deus. Quando ele compreende isso e abre luta contra suas verdades é tratado como o filho pródigo que retorna ao lar.

Para esse espírito é preparada uma grande festa no seu retorno, sendo esquecido tudo o que ele fez enquanto estava iludido pelo poder humano. Ele é respeitado pelos seus irmãos espirituais como um batalhador, um guerreiro. Mas, aquele que não compreende isso, ou mesmo que compreenda insista na ilusão criada pelo ego como realidade, a esse o título de inimigo de Deus dado por Paulo.

Conclamamos, portanto, a todos os irmãos humanizados a lutarem contra seus egos para voltarem à consciência da família universal que somos, abandonando as ilusões criadas como realidades e verdades com fins individualistas. Mas, como vencer esse ego, como conseguir retornar a casa do Pai? Não seria justo apenas apontar o caminho sem ensiná-lo.

O ego jamais poderá ser vencido com a lógica humana. Como já dissemos, todas as verdades que o ser humanizado crê são criações do seu ego, fantasias (ilusões) que ele quer que o ser acredite para ele (ego) poder continuar existindo. Dessa forma, qualquer raciocínio (análise de conhecimentos) do ser humanizado será dirigido pelo ego e o seu resultado será, então, uma nova ilusão.

É preciso fugir das verdades, desmenti-las, desmascará-las, para que o ego seja vencido. Portanto, raciocinar, estudar, ler, compreender ensinamentos, jamais levarão um ser humanizado a universalizar-se, mas criarão novas verdades ilusórias que substituirão as atuais e manterão o ego ainda ativo.

Como, então, vencê-lo? Negando-se a dar ao ego o resultado do raciocínio. Conheçamos um pouco mais do ego para possamos entender essa afirmação.

O ego nutre-se de dois sentimentos básicos: o prazer e a dor. Quando o ser humanizado sente o prazer (a satisfação de ter seus desejos realizados) ou a dor (o desprazer quando não é atendido) o ego alimenta-se e infla-se.

O caminho para vencer o ego, se não é pela lógica que afinal é ele mesmo quem dita, deve ser o da inanição, ou seja, não alimentá-lo. O ser humanizado precisa negar-se a sentir tais sentimentos independentes da compreensão que tenha recebido do ego para poder deixar de alimentá-lo até que ele morra de inanição.

Assim, quando o ego logicamente (pensamento) disser que a situação “não é boa”, o ser humanizado deve negar-se a sentir sofrimento, a acusar dor, injustiça ou ferimento. Da mesma forma quando o ego mostrar que a situação agrada ao ser humanizado, esse deve negar-se a sentir o prazer, a soberba, a vaidade, etc.

Tudo no universo está Perfeito. O que está acontecendo não foi criado por Deus para satisfazer ao ser, mas para servir de instrumento para sua elevação. Se o ser ainda possui um desejo e se por “acaso” nesse momento o que ele desejava realizou-se, o ser precisa deixar de imaginar que aquilo foi feito porque ele estava “certo”. Da mesma forma, se não se concretizou o esperado, não houve um “ataque” de Deus.

Buda, que mais ensinou sobre o desejo, não falou que o ser humanizado deve deixar de ter desejos, pois isso é quase impossível. O ser humanizado está sempre preso ao ego e este sempre agirá criando-os, pois esse é o instrumento que ele tem para alimentar-se. O ensinamento de Siddharta Gautama é no sentido de não se apaixonar pelo desejo, não transformá-lo em uma condição para a felicidade na vida.

O ser humanizado que se liberta da realização dos desejos deixa de ser escravo do ego e pode, então, finalmente ligar-se à Deus, pois como nos ensinou o mestre Jesus Cristo, não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

“Gostaria de ter ido a determinado lugar, mas não fui. E daí? Por que eu tenho que sofrer por causa disso? Por que eu tenho que acusar Deus de não haver me transportado para lá? Se não fui era perfeito ficar e Deus, o Pai, não me levou porque sabe o que é melhor para mim. Louvado seja Deus por eu não ter ido”. Esse é um raciocínio que liberta o ser humanizado da ação do ego.

“Droga, não fui onde queria. Que vida desgraçada a minha que eu não consigo fazer nada que quero. O culpado é essa droga de carro que quebrou justamente agora”. Esse é o raciocínio do ser aprisionado ao ego. O “inimigo de Deus” lança verdades (o carro quebrou, alguém chegou e eu não pude sair) para que o ser humanizado sinta-se infeliz, injustiçado, afrontado, para que ele alimente-se desse sentimento.

“Pai, afasta de mim esse cálice, mas se não for possível que seja feita a Vossa Vontade”. Nessa frase de Jesus Cristo o ensinamento maior para vencer o ego. De nada adiantaria o mestre dizer que gostaria de ser crucificado, de ser surrado, caluniado, etc, porque isso é irreal: nenhum ser humanizado quer. Jesus Cristo precisava deixar o caminho para Deus e se agisse de modo totalmente estranho à realidade da vida humana, não conseguiria fazê-lo.

O mestre agiu como um ser humanizado. Expôs o desejo que é natural em todos os seres humanos: fugir dos seus momentos de sofrimento. No entanto, apesar da existência desse desejo, submeteu-se com felicidade aos desígnios de Deus. Ele não se contrapôs aos acontecimentos, mas harmonizou-se com a Realidade da sua existência.

Esse é o caminho para a vitória sobre o ego. O ser humanizado precisa compreender que nada pode construir o destino a não a ser à vontade de Deus. De nada adianta ao homem querer alguma coisa porque se isso não for “útil” à elevação espiritual, o Pai jamais concederá.

Deus não se subordina aos desejos humanos. Sua intenção não é de “agradar” ao homem, pois como Paulo ensinou, o homem é inimigo de Deus. Ele age sempre na intenção de salvar o ser universal da ação humana e faz isso agindo contra os desejos ou vontades do ser humanizado. Deus nos ama, mas ao ser universal e não a experiência humana que ele vive temporariamente.

É isso que o ser universal humanizado que busca a sua elevação espiritual precisa compreender para poder voltar ao Reino do Céu. Quando isso for realidade, não haverá motivos para sofrimentos ou ufanismos. Não importa se aconteceu o que o ser humanizado quer ou não, sua reação será sempre a de harmonia com o momento (sem erros ou acertos), em paz, ou seja, sem armas (verdades) para guerrear contra o acontecimento e no estado de espírito de felicidade incondicional.

Para realizar tudo isso, no entanto, a primeira providência que o ser humanizado precisa tomar é desistir de ser humano. Desistir de querer mudar o mundo, desistir de querer mudar as pessoas, desistir de querer alterar os acontecimentos. Essa é a ação do inimigo de Deus: ele quer mudar o reino do Senhor Supremo para atender o seu bel prazer.

Por isso toda a busca da elevação espiritual começa com a mudança do auto-entendimento sobre si mesmo. Deixar de ver-se como um ser humanizado que vivencia experiências espirituais e passar a viver como ser universal que está tendo uma experiência humana. Enquanto o ser achar-se o homem (ego) terá que reagir dentro dos padrões ditados pelo inimigo de Deus que mora dentro dele.

O ser que compreende que o seu reino não é desse mundo não se preocupa em alterar a vida, mas em vivê-la em harmonia. Aquele que compreende que é apenas filho do dono, não muda a casa do seu Pai. O ser é uma visita na casa de Deus, mas durante a experiência humana quer reorganizá-la de acordo com suas vontades.

Quando um ser humanizado acusa outro de ter batido no seu carro, por exemplo, não vê a ação de Deus contra o seu ego. Ele não entende que o Pai está lhe mostrando que o homem não pode imaginar que o seu carro é ileso a batidas. Imaginar isso é querer possuir o bem material o que é uma ilusão criada pelo ego para o que o ser humanizado viva o dualismo do prazer e da dor.

Deus está provocando o a situação para ensinar ao ser humanizado que a verdade ilusória de que jamais poderia ocorrer um acidente com ele é fruto do ego e não da Realidade. Todos que possuem um automóvel estão sujeitos a que um dia possa acontecer um acidente, mas o ego não deixa o homem compreender isso.

Aquele que vive essa ilusão como realidade sentir-se-á atacado, ferido, pelo agente do combate à ilusão e não compreenderá a ação de Deus por trás do acontecimento. Livre das amarras do ego, do conceito que o seu carro é incólume a batidas, o ser espiritualizado verá nisso apenas um acontecimento profícuo de Deus, uma forma de ensiná-lo a viver com a Realidade. Não há mais motivo de sentir-se apunhalado, mas encontrará o amor do Pai atrás daquele ato.

A desistência do prazer trás a real felicidade. Aprendendo a conviver na casa de Deus como ela está, deixando a vida seguir o seu fluxo normal sem querer dirigi-la, traz a verdadeira felicidade ou o bem celeste (bem-aventurança) que Jesus Cristo nos conclamou a buscar.

Não se trata de comodismo, como muitos podem imaginar, mas de dar a César o que é de César. Tudo que existe é criação de Deus e, por isso, não pode estar imperfeito. Quando o ser, que ainda está em processo de evolução e, portanto, pouco sabe do universo, acusa imperfeições na obra, está acusando o próprio Deus de não saber o que faz. Por isso Paulo afirma que o ser humano é inimigo de Deus, pois quer destruir aquilo que Ele criou.

Quem não desiste de alterar o mundo para aquilo que acha “certo” cria justificativas quando não consegue mudar as coisas. Coloca a culpa do acontecimento contrário ao seu desejo em outras pessoas, nas coisas, na sorte, no azar, na maldade da humanidade: enfim, em todo o resto do mundo. No entanto, todas essas justificativas são apenas frutos do ego para que o ser não desista de lutar e que apenas o prazer e a dor sejam sentidos.

O ego através dessas justificativas mantém o ser humanizado escravo dele, pois encobre com as acusações ao mundo o real desejo de poder: que todos um dia estejam aos seus pés, fazendo aquilo que o ser quer. No entanto, como já vimos, isso é ilusão, pois se viesse a acontecer isso, o ego mudaria a lógica, para continuar a batalha contra as coisas da vida que levam ao sofrimento e o prazer.

O ser para libertar-se do ego deve compreender que tudo pode acontecer e que isso, independente da sua vontade, será fruto do amor de Deus por cada um. Para o ser elevar-se espiritualmente é preciso viver com a Realidade. Quem está vivo vai morrer; quem está com saúde ficará doente; quem não tem terá e quem já tem pode perder. Nada se perpetua: tudo se transforma constantemente.

Viver na ilusão que a situação jamais se alterará é não compreender uma das qualidades da vida espiritual: a impermanência. Todas as coisas se transformam constantemente a cada segundo. O que hoje está em cima, amanhã desce; o que está em baixo certamente subirá. O ego não deixa que o homem viva uma vida com essa qualidade e para isso cria a ilusão de que as coisas “boas” jamais acabarão e que as “ruins”, jamais chegarão.

O ser espiritualizado luta contra o seu ego para compreender a impermanência das coisas. Ele sabe que “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”, por isso é equânime em todas as situações. Se a vida lhe é propícia não se exalta, pois sabe que essa exaltação gerará o sofrimento na mudança da situação. Se a vida não lhe é propícia, também não se desespera, pois sabe que esse “inverno” é apenas o período que antecede a primavera.

Não há primavera sem inverno, nem outono sem verão. O ser humanizado compreende isso e passa pelo seu inverno com a convicção que as flores reaparecerão. O ser humanizado quer parar o tempo e fazer que sua vida seja sempre um mar de rosas. “Pobre homem, que o sopro de Deus pode lhe abater”.

Como dissemos, a elevação espiritual através da luta contra o ego não é comodismo: é ação. O ser precisa agir, não para mudar o mundo, mas para aprender a viver a Realidade. Ele precisa agir contra o ego e não contra o mundo, contra a vida. Sem ação não há vida: o problema é o direcionamento que se dá a essa ação.

O ser humanizado luta contra o mundo, luta contra as pessoas, contra as coisas, contra os acontecimentos e por isso é inimigo de Deus e dos homens. O ser espiritualizado luta contra si mesmo, contra seu ego, contra a necessidade da realização de seus desejos, contra suas paixões.

Por isso, quem está hoje desempregado precisa lutar contra a ilusão criada pelo ego que o seu emprego é eterno. Isso é ilusão criada para manter o ser no dualismo do prazer e da dor. Quem está com frio precisa lutar contra o desejo de iniciar-se o verão e aprender a conviver harmonicamente com a temperatura baixa até que chegue a estação que ele quer.

Quando ela acontecer, também não deve exaltar-se, mas vivê-la com equanimidade para que a felicidade não seja apenas fruto do seu desejo. Para isso é importante saber que o frio retornará: é apenas uma questão de tempo.

No entanto, o ser humanizado não age dessa forma. Ele goza todo o prazer de estar vivendo a temperatura que o agrada e fica cada vez mais preso ao desejo e a ilusão de que ela nunca se encerrará. Aí a ação divina traz o frio e ele certamente sofrerá, mas isso acontece porque não entende a ação de Deus.

O frio é necessário para que muitas sementes de alimentos que foram plantadas germinem e as plantas se desenvolvam para poderem alimentar o próprio ser humano. O ser humanizado não é apenas inimigo de Deus e dos homens, mas também de si mesmo. Sem o frio ele morreria de fome, pois as plantas não dariam os frutos e sementes que precisa para manter-se vivo.

Na cidade a chuva é um tempo “ruim”, mas no campo ela é “ótima”. Ela é necessária para a irrigação dos campos, fator necessário para o florescimento da vida vegetal que trará lucro ao agricultor. Sem ela o homem do campo não consegue tirar o seu sustento. Portanto, a chuva será “boa” ou “ruim” dependendo apenas dos desejos de cada um, ou seja, da influência do ego de cada um.

O ser espiritualizado reconhece essa verdade e por isso liberta-se da ação do ego. Ele não rotula as coisas (”boa ou má”), mas vivencia a obra de Deus em louvor ao Senhor do universo. Compreende que o Pai ama a todos (”Pai Nosso”) e age equanimente com todos. Quando chega a hora propícia a outros, o ser espiritualizado não sofre; quando chega o seu momento auspicioso a si, não exulta.

Portanto, dentro de nossas definições de ser humano podemos acrescentar que: o ser humano é um ser universal que vivencia uma experiência humana onde ele não aceita que os acontecimentos da vida passem por oscilações e por isso sente o prazer (exaltação) na subida e a dor (sofrimento na descida). Já o ser espiritualizado pode ser definido como o ser universal que vive uma experiência humana de forma retilínea, ou seja, que quando passa pela sua humanização (vida oscilatória entre momentos que deseja e outros onde não é satisfeito) não se compraz na dor nem se exalta na felicidade.

Aprender a viver equanimente as diversas situações da vida foi ensinado por todos os mestres que vieram falar em nome de Deus, inclusive pelo Espírito da Verdade, que falou a Allan Kardec. No Livro dos Espíritos, ao responder a pergunta sobre o objetivo da encarnação ele ensinou: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Mas para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal”.

Muitos entendem o termo “vicissitude” como necessidade e por isso criou-se a crença que o ser humano nasceu para sofrer. Mas, a definição para essa palavra é outra: “VICISSITUDE – mudança ou alternância das coisas que se sucedem – MINI DICIONÁRIO AURÉLIO”.

O homem não nasceu para passar por sofrimentos, mas para aprender a viver equanimente com as alternâncias da vida. Se o ser humanizado não tivesse a tentação, ou seja, o desejo de que as coisas fossem apenas satisfatórias, não venceria a alternância das coisas. Foi para isso que o ser universal criou um ego e subordinou-se a ele.

Deus coloca a prova e o ego tenta: a função do ser nesse “jogo” é dizer de que lado ele está. Se optar pela vida eterna (espiritual) ligar-se-á a Deus, amando-O acima de todas as coisas, mas se optar pelo amor próprio (ao seu ego), vivenciará o prazer e a dor dependendo da alternância das situações.

Aprender a viver com equanimidade as vicissitudes é, portanto, o objetivo da encarnação e para isso é indispensável a vivência da impermanência das coisas. Isso responde às perguntas que o homem até hoje não conseguiu responder: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Por que estou vivo? Você é um ser espiritual que se humanizou e que um dia terá que eliminar toda ação do seu ego para poder retornar à sua pátria espiritual.

Pobre ser humanizado. É inimigo de Deus, dos outros, mas, principalmente, é inimigo de si mesmo. Ele nasce para aprender a viver as oscilações da vida sem individualismos (desejos) e vive a vida buscando fugir das situações incômodas. Não compreende que só conseguirá acabar com esse processo quando vencer as tentações geradas pelo ego. Por isso Jesus Cristo ensinou: Felizes serão vocês quando forem perseguidos, caluniados, em meu nome.

Só no momento da contrariedade pode se alcançar à felicidade espiritual, pois ele será o resultado do objetivo da vida. Aquele que desejar se afastar desses momentos jamais conseguirá alcançar essa felicidade, pois não obterá a vitória sobre o mundo. Para isso, o fundamental é alterar o sentido de sua existência: vivê-la como uma aventura material do ser universal.

Quando o ser entender a vida carnal como uma aventura do espírito poderá vivenciá-la de forma equânime, sem subir ou descer ao sabor das ondas (vicissitudes da vida). E aí se encontra um outro grande desentendimento daqueles que procuram a elevação espiritual: é o ser que vive retilineamente e não a vida.

Todos imaginam que quando alcançar a elevação espiritual a vida se transformará automaticamente em um mar de rosas: engano. A vida continuará a ter momentos propícios ao ser humano e outros não, mas esse, agora espiritualizado, saberá vivenciá-los de forma reta.

Como ensinou Jesus Cristo, não se acende uma lamparina para esconder dentro do armário. É preciso que ela seja colocada em um ponto onde a sua luz oriente o caminho daqueles que estão na escuridão. O ser agora desumanizado ainda passará por situações onde o desejo humano não é satisfeito e reagirá a eles mantendo a sua paz, tranqüilidade, harmonia e felicidade. Com isso, ensinará àqueles que ainda estão humanizados como se vivencia a vida com equanimidade.

Dessa forma, não serão os acontecimentos da vida que mudarão, mas o ser é que se transformará. Esse é o renascimento, o matar o homem velho e deixar nascer o homem novo. Esse ser renovado será amigo de Deus, pois servirá ao próximo iluminando-lhe o caminho da vida.

O ser humanizado, no entanto, não pode servir para auxiliar o próximo, para servi-lo, pois como ensinou Jesus Cristo, é cego aquele que quer ver (compreender as coisas) e, quando um cego guia o outro, os dois caem no buraco. Dessa forma, a única coisa que o ser humanizado pode fazer é se servir: do outro, das coisas, dos acontecimentos e até de Deus.

Nos momentos onde a situação não lhe agrada, ao invés de buscar guerrear contra os desejos que o ego está lhe enviando, o ser humanizado busca o auxílio de Deus para livrar-se daquele momento. Pede a Deus que não envie a doença, que não o deixe ser assaltado, que não o deixe ser demitido.

O ser humanizado não busca ser instrumento da vontade do Pai, mas quer que Deus lhe sirva, que atenda os seus desejos. Quer colocar Deus também subordinado aos caprichos do ego. Por isso Paulo afirma que o homem é inimigo de Deus.

Quando Deus não o atende, revolta-se com o Pai: “por que o Senhor deixou isso acontecer?”. Deus na Sua Sublime Paciência responderá: “Eu não deixei, fiz acontecer, porque lhe amo, meu filho. Estou dando o remédio para a sua doença. Sei que o gosto pode ser amargo para você, mas isso é o que o curará”.

O ser desumanizado livre das amarras do ego, consegue perceber claramente a ação divina e por isso seu coração enche-se de júbilo e glória a cada momento, independente daquilo que está ocorrendo. Sabe que naquela vicissitude pelo qual está passando agora há a presença divina expressando todo o Seu Amor Sublime pelo Seu filho. Ao invés de clamar contra os céus, o ser espiritual louva a Deus pela Sua Sublime Direção do universo.

Não adianta apenas o ser resignar-se ou aceitar os momentos da vida: é preciso amá-los. Quem se resigna ainda continua sofrendo e mesmo que não brade contra os céus, o seu pranto será resultado da sua intenção de satisfazer-se. Quem apenas aceita os momentos como inevitáveis sem louvar a Deus não comunga com o universal, mas sim consigo mesmo, ou seja, na verdade “tinha que ser”. Como já afirmamos, é preciso agir e não se omitir (aceitar os momentos). Essa ação, no entanto, deve ser amorosa: estabelecer uma conexão amorosa com a Fonte do universo.

Quem age dessa forma não é inimigo de Deus, pois está sempre em perfeita comunhão com o Pai. Ele pode não conhecer Deus, Sua origem, Forma ou Composição, mas reconhece o Seu Amor em ação. Aqueles que buscam compreender Deus em qualquer dos seus aspectos não conseguem mais do que apenas criar Dele uma imagem individual.

Krishna nos ensinou que o mundo espiritual (aí incluído os seres e as matérias e suas relações), não pode ser compreendido de forma racional pelo homem. Paulo também nos disse que Deus não deixa o homem conhecê-lo pela sua lógica, mas apenas quando esse transcender a matéria (entrar na lógica de Deus) poderá senti-Lo e se tornará um verdadeiro sábio.

Para o ser humanizado a sabedoria é determinada pelo excesso de cultura. No entanto, ele não entende que quanto mais cultura tiver, mais elemento estará servindo ao ego para iludi-lo. Como disse Jesus Cristo, louvado seja Deus que mostra aos simples o que esconde dos sábios.

O verdadeiro sábio é aquele nada sabe, que nega saber qualquer coisa. Para ele a única coisa que existe é Deus e Sua ação (Amor Sublime) que é expressa nos acontecimentos da vida. Quando vivencia um momento da vida o ser desumanizado não está preocupado em saber o que está acontecendo, mas está com toda a sua atenção voltada para sentir o Amor de Deus.

Por isso o ser humano é inimigo de Deus. Ele está de costas para o Pai, vendo apenas a “sombra” (projeção) que ele mesmo criou com suas fantasias ilusórias e afirma que essa projeção é Deus. Para se ver uma árvore é preciso virar-se de frente para ela e quando isso acontecer, as verdades materiais ficarão nas costas do ser. Aí ele não será mais inimigo de Deus, pois compartilhará um relacionamento amoroso com o Pai.

Mas, será possível um ser humano libertar-se do ego? Será possível que alguém vença o mundo? Exemplos, famosos ou não, de pessoas que conseguiram são muitos, mas citá-los seria retirar o ensinamento do particular. Falar daqueles que um dia tiveram o seu despertar, ou seja, assumiram o seu objetivo espiritual, seria generalizar e cada um ainda não compreenderia a possibilidade de realizar a sua própria obra individual.

Será que você está preparado para essa luta, independente da sua posição atual (cultural, religiosa ou afetiva)? Para responder a essa pergunta basta apenas uma constatação: você está humanizado agora. Você é um ser universal que se encontra no processo humano com essa finalidade e isso só aconteceu porque Deus e você próprio acharam que estava pronto para a luta.

Quando um ser, depois do desencarne liberta-se do ego criado para uma vida, ele logo começa a preparar-se para a nova prova, para a nova encarnação. Busca com ansiedade a nova oportunidade de realizar sua elevação espiritual. No entanto, não pode executá-la com a mesma presteza que imagina.

Existe no orbe do planeta Terra mais espíritos do que a vida carnal suportaria. Na realidade, são aproximadamente dez espíritos aguardando a reencarnação para cada encarnado. Depois que o ser liberta-se do seu ego é preciso aguardar a sua vez em uma “fila de espera”.

Você passou por todo esse processo. Já viveu uma outra vida, desencarnou, cumpriu uma existência temporária em lugares humanizados fora da carne (umbral ou inferno) onde se libertou do ego da última encarnação, preparou-se para a nova enfrentando a fila de espera até que chegou a sua vez. Essa oportunidade só foi dada por Deus e aceita por você justamente porque os dois tinham convicção de que poderia ser alcançada a vitória. Se você não estivesse preparado ou se Deus não o julgasse apto, não estaria agora vivendo a aventura humana.

Portanto, você está mais do que preparado: está pronto para a vitória. Basta para isso utilizar-se do seu livre arbítrio e modificar o sentido da sua vida. Não mais viver como escravo das verdades, desejos e paixões e virar-se de frente para Deus e encarar a Realidade. Para isso é preciso que o ser humano amadureça, deixe de agir como uma criança, espiritualmente falando.

Quando o ser chora e acusa ingratidão ou ferimento pelos acontecimentos da vida é como uma criança carnal que bate o pé quando a mãe ou o pai não lhe dá o que ele quer. Somente quando amadurece, o ser humano aprende que tudo tem seu momento certo e que deve trabalhar e esperar a hora de receber.

O ser humanizado é essa criança. Ele chora, resmunga, bate o pé, quando Deus, seu Pai, não faz suas vontades. O ser universal é maduro na sua relação com o mundo: sabe trabalhar e esperar para receber.

Portanto se você pode fazer, eu afirmo conscientemente que sim, mas se vai conseguir fazer, isso não posso responder. O resultado da sua vida será fruto do seu livre arbítrio, da sua vontade soberana em querer crescer ou não que Deus deu a cada filho. Optando em permanecer na infância espiritual, esperando que o Pai o satisfaça e resmungando quando Ele não fizer, acabará essa encarnação e terá que passar por todo o processo para recomeçar uma nova.

Agora, tenha certeza: em uma das encarnações o seu ego terá que ser vencido. Quando o ser liberta-se do ego fora da carne essa liberdade não é válida para elevação espiritual, mas é tratada como um “banho” (limpeza) que o espírito toma para se livrar das impurezas (verdades individuais). Para que a liberdade do ego tenha valor ela precisa ser resultado de uma vitória e isso só se consegue na carne.

Então, tenha a certeza que os processos que afirmamos nesse trabalho serão realizados por você nessa ou em outra encarnação. Dessa forma, para que esperar começar tudo de novo? Para que perder essa chance de estar encarnado? Para que ter que enfrentar toda a angustiante espera novamente? Basta apenas você parar de querer se satisfazer e ligar-se amorosamente a Deus.

Mas o ser humanizado não quer abandonar o prazer de forma alguma: prefere satisfazer-se agora e enfrentar posteriormente todo o processo do mundo espiritual (limpeza e nova reencarnação). Essa forma de proceder é irracional, até mesmo pela lógica humana, de querer ganhar sempre. Entendendo o funcionamento da Realidade (vida depois da carne), o ser humanizado pode entender que só “perderá” com essa forma de proceder.

A Verdade sobre o universo já foi apresentada pelos mestres enviados de Deus, mas até hoje o ser humanizado não a entendeu. Tudo o que dissemos nesse trabalho já foi ensinado ao longo dos séculos pelos mestres. Por isso, a cada novo ensinamento que aludimos, citamos algum mestre.

Busque estudar a vida de cada um daqueles que conseguiram penetrar nessa existência onde a felicidade independe dos acontecimentos da vida (santos). Verifique pelas suas biografias que eles não nasceram puros, mas humanizados. Veja que passaram por situações desagradáveis e agradáveis até que um dia abandonaram o seu querer e começaram a vivenciar todas as situações de forma equânime.

Ninguém nasce “santo”: todos conquistam a santidade. São seres universais iguais a você, que nasceram da mesma forma, mas que um dia aceitaram a Deus em seus corações e se libertaram do individualismo. Passaram a viver para servir a Deus servindo ao próximo e com isso conquistaram a tão sonhada bem-aventurança. Se eles conseguiram, porque você não?

Basta crer, decidir e entregar-se com fé a Deus. Nesse momento você conseguirá ser amigo de Deus, pois o ser humano que Paulo afirmou que é inimigo de Deus é você também e não apenas a resto da humanidade.

Até agora, na leitura desse trabalho, com certeza o seu ego já apontou inúmeros “inimigos de Deus”, pessoas que você achou que agem como aqui foi descrito, mas o fez para que você não entendesse que precisa mudar-se. O seu ego não quer que tenha essa compreensão porque senão você irá matá-lo.

Conscientize-se de que é um ser humanizado. Volte agora nas descrições que fizemos do ser humano e veja se suas reações não são exatamente aquelas que descrevemos aqui. Não deixe o ego fantasiar dizendo que você tinha razão em agir daquela forma, pois isso será uma ilusão de um desesperado que não quer morrer.

“Caia na real”, como se diz: você está humanizado. Ainda não consegue superar as dificuldades com amor, ainda não consegue harmonizar-se com o momento, ainda tem desejos e paixões, “certo e errado”, “bonito e feio”, “bom ou mal”. Você está de costas para Deus.

Não importa o quanto você está empenhado nessa busca ao Pai, se ela ainda estiver sendo escrita com lógica material (seus conhecimentos), você ainda estará vivendo uma ilusão. Estará satisfazendo o seu ego buscando cultura para poder servir de instrumento ao seu lado humano.

Assim que compreender que essa mensagem é para você, que você ainda é o inimigo de Deus, faça as pazes com o Pai. Jogue fora tudo que até hoje estudou, aprendeu, leu, inclusive esse texto. Liberte-se dessa bagagem cultural que você carrega há milênios e que só serviu para você iludir-se a respeito do mundo.

Liberte-se de tudo isso e vá viver. Sem a sua cultura, o que determina o “certo” e o “errado”, você conseguirá conviver harmonicamente com o universo. Sem os seus desejos não haverá mais êxtase nem contrariedades: você será equânime. Ninguém mais lhe fará mal, ninguém mais lhe ofenderá, ninguém mais lhe prejudicará.

Seja um ser espiritual dentro de uma aventura humana e não mais um ser humano que possui momentos espirituais. Vivendo desse jeito estará ao lado de Deus e será seu amigo.

Com as graças de Deus.