Postado por Attman e Kamadon
Artigo de Slavoj Zizek
"Uma nova classe global está assim surgindo, "com, digamos, um passaporte indiano, um castelo na Escócia, um 'pied-à-terre' em Manhattan e uma ilha caribenha privada", escreve Slavoj Zizek. Segundo ele, "São Paulo, no Brasil de Lula, que hospeda 250 heliportos na área do centro da sua cidade" é um exemplo dos "cidadãos globais" que vivem em áreas isoladas.
"Para se isolar do perigo de se misturar com as pessoas comuns, - escreve Zizek -, o rico de São Paulo prefere usar os helicópteros, pois então, olhando o horizonte da cidade, sente-se verdadeiramente como se se encontrasse em uma megalópole futurista do gênero descrito em filmes como "Blade Runner" ou "O quinto elemento", com pessoas comuns que se aglomeram em ruas perigosas embaixo, enquanto o rico passeia em um nível mais alto, no ar".
Publicamos aqui um trecho do novo livro do filósofo esloveno Slavoj Zizek, "Dalla tragedia alla farsa. Ideologia della crisi e superamento del capitalismo" [Da tragédia à farsa. Ideologia da crise e superação do capitalismo], publicado na Itália pela editora Ponte alle Grazie. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 25-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Doze anos antes do 11 de setembro, no dia 09 de novembro de 1989, caiu o Muro de Berlim. Esse evento parece ter anunciado o início dos "felizes anos 90", a utopia de Francis Fukuyama do "fim da história", a fé de que a democracia liberal venceria em linha de princípio, que o advento de uma comunidade liberal global estaria esperando logo depois da esquina, e que o obstáculo a esse feliz fim hollywoodiano seria meramente empírico e contingente (bolsões locais de resistência, cujos líderes ainda não teriam compreendido que o seu tempo havia acabado). O 11 de setembro, ao invés, simbolizou o fim do período clintoniano e iniciou uma era em que novos muros parecem surgir em todos os lugares: entre Israel e a Cisjordânia, ao longo da fronteira mexicana, mas também dentro dos próprios Estados-nação.
Em um artigo da Newsweek, Emily Flynn Vencat e Ginanne Brownell se referem a como hoje "o fenômeno do 'members-only' [apenas para membros] está se expandindo em um inteiro estilo de vida, incluindo tudo, desde as coalizões bancárias privadas até as clínicas de saúde apenas para convidados (...), aqueles que tem dinheiro estão crescentemente fechando toda a sua vida atrás de portas fechadas. Em vez de participar de grandes eventos midiáticos, eles organizam shows, desfiles de moda e exibições de arte em suas próprias casas. Vão fazer compras fora de horário e controlam rigorosamente a classe e a renda dos seus vizinhos (e potenciais amigos)".
Uma nova classe global está assim surgindo, "com, digamos, um passaporte indiano, um castelo na Escócia, um 'pied-à-terre' em Manhattan e uma ilha caribenha privada". O paradoxo é que os membros dessa classe global "jantam privadamente, fazem compras privadamente, veem arte privadamente, tudo é privado, privado, privado". Estão criando um ambiente vital próprio para resolver seu dilema hermenêutico angustiante. Como afirma Todd Millay: as famílias ricas não podem simplesmente "convidar pessoas e esperar que elas entendam o que é ter 300 milhões de dólares".
Então, quais são os seus contatos com o mundo externo? São de dois tipos: negócios e beneficência (proteção ao meio ambiente, luta contra as doenças, mecenatismo etc.). Esses cidadãos globais vivem a sua vida acima de tudo na natureza incontaminada – fazendo trekking na Patagônia ou nadando nas águas transparentes das suas ilhas privadas. Não podemos deixar de notar que uma das características de fundo da atitude desses ultrarricos que vivem nas suas torres de marfim é o medo: medo da vida social externa em si. A maior prioridade dos "ultrahigh-net-worth individuals" é, portanto, minimizar os riscos de segurança – doenças, exposição às ameaças de crimes violentos e assim por diante.
Na China contemporânea, o novo rico construiu para si comunidades isoladas modeladas à imagem idealizada das "típicas" cidades ocidentais. Perto de Xangai, por exemplo, existe uma réplica "real" de uma pequena cidadezinha inglesa, incluindo uma rua principal com um pub, uma igreja anglicana, um supermercado Sainsbury etc.: toda a área está isolada daquilo que a circunda por uma cúpula invisível, mas não menos real.
Não existe mais uma hierarquia entre grupos sociais que vivem na mesma nação, aqueles que residem nesta cidade vivem em um universo no qual, dentro do seu imaginário ideológico, o mundo ao redor de "classe inferior" simplesmente não existe. Esses "cidadãos globais" que vivem em áreas isoladas não representam talvez o verdadeiro polo oposto daqueles que vivem nas favelas e das outras "manchas brancas" da esfera pública? Com efeito, eles representam as duas faces da mesma moeda, os dois extremos da nova divisão de classe.
A cidade que melhor encarna essa divisão é São Paulo, no Brasil de Lula, que hospeda 250 heliportos na área do centro da sua cidade. Para se isolar do perigo de se misturar com as pessoas comuns, o rico de São Paulo prefere usar os helicópteros, pois então, olhando o horizonte da cidade, sente-se verdadeiramente como se se encontrasse em uma megalópole futurista do gênero descrito em filmes como "Blade Runner" ou "O quinto elemento", com pessoas comuns que se aglomeram em ruas perigosas embaixo, enquanto o rico passeia em um nível mais alto, no ar.
Parece assim que a utopia dos anos 90 de Fukuyama deveria morrer duas vezes, a partir do momento em que a queda da utopia política liberal-democrática do 11 de setembro não atingiu a utopia econômica do mercado capitalista global. Se o colapso financeiro de 2008 tem um significado histórico, então, é como sinal do fim da face econômica do sonho de Fukuyama. O que nos reporta à paráfrase marxiana de Hegel: é preciso lembrar que, na sua introdução a uma nova edição do "18 Brumário" nos anos 60, Herbert Marcuse acrescentou um novo enrijecimento: às vezes, a repetição à guisa de farsa pode ser mais terrificante do que a tragédia original.
Em um famoso debate na Universidade de Salamanca em 1936, Miguel de Unamuno lançou uma flechada aos franquistas: "Venceréis, pero no convenceréis" (Vencereis, mas não convencereis). Estaria aqui tudo o que a esquerda pode dizer hoje ao capitalismo global triunfante? A esquerda está predestinada a continuar desempenhando o papel daqueles que, ao contrário, convencem mas no entanto continuam perdendo (e são particularmente convincentes ao explicar retroativamente as razões da sua própria falência)?
A nossa tarefa é descobrir como dar um passo adiante. A nossa undécima tese deveria ser: nas nossas sociedades, a esquerda crítica só conseguiu até agora desonrar aqueles que estão no poder, enquanto o ponto real é castrá-los...
Mas como podemos conseguir isso? É necessário aprender com os fracassos da política da esquerda no século XX. A tarefa não é praticar a castração no ápice de um confronto direto, mas sim minar aqueles que estão no poder com um trabalho ideológico-crítico paciente, de modo que, mesmo que ainda estejam no poder, deem-se conta de repente que os poderosos encontram-se novamente falando com vozes inaturalmente finas.
Nos anos 60, Lacan chamou o jornal da sua escola, que foi publicado de maneira irregular por um breve período, de Scilicet. A mensagem não era o significado hoje predominante da palavra ("isto é", "ou seja", "quer dizer"), mas literalmente "é permitido saber". (Saber o quê? O que a Escola Freudiana de Paris pensa sobre o inconsciente...). Hoje, a nossa mensagem deveria ser a mesma: é permitido saber e comprometer-se plenamente no comunismo, agir novamente em plena fidelidade à ideia comunista. A permissividade liberal é da ordem do "videlicet" – é permitido ver –, mas o fascínio pela obscenidade que nos foi permitido observar nos impede de saber o que é que vemos.
Moral da história: o tempo da chantagem moralista liberal-democrática acabou. Não devemos mais continuar justificando-nos. Enquanto seria melhor para eles começar a fazer isso logo.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"O espectro do marxismo"
Postado por Attman e Kamadon
Conferência sobre "a ideia de comunismo" proposta por Alain Badiou e Slavoj Zizek é reunida em livro.
A reportagem é de Leneide Duarte-Plon e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-05-2010.
A luta de classes está de volta. O espectro de Marx reaparece para mostrar que a "ideia do comunismo" e sua utopia igualitária não morreram, apesar dos desvios e dos estragos feitos a elas pelo "socialismo real" e pelos totalitarismos que dele resultaram. Num momento em que o capitalismo triunfante parecia ter definitivamente enterrado Marx, 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, 15 filósofos de horizontes distintos resolveram repensar o comunismo.
Esse "pequeno número de filósofos constitui, no mundo de hoje, o pequeno grupo dos que não se intimidam com a opinião dominante", escreve Alain Badiou na apresentação do novo livro "L'Idée du Communisme" (A Ideia do Comunismo, ed. Lignes). A obra traz as 15 exposições proferidas na Conferência de Londres, em maio do ano passado, por iniciativa de Alain Badiou e Slavoj Zizek.
Na apresentação, Badiou declara que tanto ele quando Zizek tinham certeza de que "repor em circulação esse velho vocábulo magnífico, não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização, relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade toda eram uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental "democrático" que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido".
O filósofo Jacques Rancière escreve: "A "crise" atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da autorregulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado".
Apresentadas em ordem alfabética, as conferências de Alain Badiou, Judith Balso, Bruno Bosteels, Susan Buck-Morss, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Minqi Li, Jean-Luc Nancy, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano, Gianni Vattimo, Wang Hui e Slavoj Zizek abordam diferentes aspectos do pensamento comunista.
O filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek conta que, numa reunião de lacanianos em Buenos Aires, em 2008, encontrou um grupo de psicanalistas venezuelanos, ferrenhos opositores do regime de Hugo Chávez. Alegavam que o presidente venezuelano fosse "violento e criminoso".
Zizek escreve: "Eles esqueciam que o regime precedente, no qual milhões de pobres vivendo em favelas eram excluídos da riqueza gerada pelo petróleo, era, em todos os sentidos, mais violento e criminoso. Trata-se de um exemplo claro da maneira como a classe tangencia a visibilidade (invisível) da violência: a brutalidade policial cotidiana para com os pobres é invisível, enquanto a menor perturbação da rotina das classes médias é condenada como um ato de violência".
Polêmica
Inimigos de Badiou o acusaram, em fevereiro, de "terrorista de salão", "mestre perverso" e "velho perdedor", em texto no semanário francês "Marianne".
O filósofo francês mais lido e comentado no mundo enche mensalmente o enorme anfiteatro da École Normale Supérieure, em Paris. Pessoas de todas as idades se deslocam para ouvir seu seminário sobre Platão. Mas seus inimigos não perdoam o fato de fazer ressurgir o espectro de Marx. Ainda neste ano, uma conferência em Berlim prolongará a reflexão sobre a "ideia de comunismo".
Conferência sobre "a ideia de comunismo" proposta por Alain Badiou e Slavoj Zizek é reunida em livro.
A reportagem é de Leneide Duarte-Plon e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-05-2010.
A luta de classes está de volta. O espectro de Marx reaparece para mostrar que a "ideia do comunismo" e sua utopia igualitária não morreram, apesar dos desvios e dos estragos feitos a elas pelo "socialismo real" e pelos totalitarismos que dele resultaram. Num momento em que o capitalismo triunfante parecia ter definitivamente enterrado Marx, 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, 15 filósofos de horizontes distintos resolveram repensar o comunismo.
Esse "pequeno número de filósofos constitui, no mundo de hoje, o pequeno grupo dos que não se intimidam com a opinião dominante", escreve Alain Badiou na apresentação do novo livro "L'Idée du Communisme" (A Ideia do Comunismo, ed. Lignes). A obra traz as 15 exposições proferidas na Conferência de Londres, em maio do ano passado, por iniciativa de Alain Badiou e Slavoj Zizek.
Na apresentação, Badiou declara que tanto ele quando Zizek tinham certeza de que "repor em circulação esse velho vocábulo magnífico, não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização, relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade toda eram uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental "democrático" que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido".
O filósofo Jacques Rancière escreve: "A "crise" atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da autorregulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado".
Apresentadas em ordem alfabética, as conferências de Alain Badiou, Judith Balso, Bruno Bosteels, Susan Buck-Morss, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Minqi Li, Jean-Luc Nancy, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano, Gianni Vattimo, Wang Hui e Slavoj Zizek abordam diferentes aspectos do pensamento comunista.
O filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek conta que, numa reunião de lacanianos em Buenos Aires, em 2008, encontrou um grupo de psicanalistas venezuelanos, ferrenhos opositores do regime de Hugo Chávez. Alegavam que o presidente venezuelano fosse "violento e criminoso".
Zizek escreve: "Eles esqueciam que o regime precedente, no qual milhões de pobres vivendo em favelas eram excluídos da riqueza gerada pelo petróleo, era, em todos os sentidos, mais violento e criminoso. Trata-se de um exemplo claro da maneira como a classe tangencia a visibilidade (invisível) da violência: a brutalidade policial cotidiana para com os pobres é invisível, enquanto a menor perturbação da rotina das classes médias é condenada como um ato de violência".
Polêmica
Inimigos de Badiou o acusaram, em fevereiro, de "terrorista de salão", "mestre perverso" e "velho perdedor", em texto no semanário francês "Marianne".
O filósofo francês mais lido e comentado no mundo enche mensalmente o enorme anfiteatro da École Normale Supérieure, em Paris. Pessoas de todas as idades se deslocam para ouvir seu seminário sobre Platão. Mas seus inimigos não perdoam o fato de fazer ressurgir o espectro de Marx. Ainda neste ano, uma conferência em Berlim prolongará a reflexão sobre a "ideia de comunismo".
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Imaginando que é
Postado por Kamadon
Retirado do estudo 'Em busca da felicidade'
Você sabe por que a maioria das pessoas não consegue ser maluco beleza?
Participante: Porque elas se policiam demais...
Não. Sabe por que você não é feliz? Sabe por que não é maluco beleza? Porque sabe o que é ser feliz, sabe o que é ser maluco beleza. Quando você sabe o que é ser alguma coisa é sinal de que segue um padrão de ser. Sendo assim, quando você acha que é, não é, pois está apenas seguindo um padrão...
Você não consegue ser feliz porque sabe o que é ser feliz, ou seja, estabeleceu um padrão do que é ser feliz. Mas, este padrão é apenas criação da mente e não realidade. Sendo assim, quando você imagina que alcançou a felicidade, não fez nada, pois apenas seguiu mais um padrão da mente...
Quando alguma coisa se torna difícil na sua vida, você se torna infeliz. Por que? Porque a dificuldade não está dentro do padrão criado pela mente para ser feliz.
Na verdade, esta infelicidade não é ocasionada pelo que acontece, mas como uma criação da mente. Ela cria o padrão do que é ser feliz, você o aceita; ela cria a ideia da dificuldade em alguma coisa e diz que isso não está dentro dos padrões de ser feliz, você aceita, então o sofrimento.. .
Na verdade você é infeliz porque o seu senhor lhe disse que é. Como você acha que é a mente, só faz o que ela manda.
Sabe, vocês não são escravos da mente, não... O escravo é sempre revoltado contra o senhor dele, mas vocês não se revoltam contra a mente. Pelo contrário: adoram ser ela...
Na verdade, vocês são como cavalos que usam antolhos e que vão todos felizes andando para frente sem olhar para o lado. Como esses cavalos, também acham que são vocês que estão querendo ir para aquele lugar...
Vocês são como os bois que vão para o matadouro. A mente vai lhes levando para o matadouro e vocês vão felizes por aquele caminho sem imaginar o que os espera no final...
Não, vocês não são escravos, pois para ser isso precisariam tentar se libertar do jugo do seu senhor. Mas, vocês não querem se libertar da mente... Na verdade querem ser a mente...
Sabe, a mente cria um padrão do que é ser live e, como adoram ela, vocês querem essa liberdade para vocês. Mas, essa liberdade é a prisão...
Sabe o que é ser livre? É ser livre... Mesmo estando preso...
A liberdade não pode ser explicada, pois se criarmos um padrão do que é ser livre estaremos presos a estes padrões. Ou seja, só vamos nos sentir livres quando cumprirmos o padrão...
Não, ser livre é ser livre... Mas, vocês só se dizem livres quando se veem enjaulados pela norma que a mente cria dizendo o que é ser livre...
Na verdade quando vocês se sentem livres, estão presos. Pior: escolheram ser presos...
Retirado do estudo 'Em busca da felicidade'
Você sabe por que a maioria das pessoas não consegue ser maluco beleza?
Participante: Porque elas se policiam demais...
Não. Sabe por que você não é feliz? Sabe por que não é maluco beleza? Porque sabe o que é ser feliz, sabe o que é ser maluco beleza. Quando você sabe o que é ser alguma coisa é sinal de que segue um padrão de ser. Sendo assim, quando você acha que é, não é, pois está apenas seguindo um padrão...
Você não consegue ser feliz porque sabe o que é ser feliz, ou seja, estabeleceu um padrão do que é ser feliz. Mas, este padrão é apenas criação da mente e não realidade. Sendo assim, quando você imagina que alcançou a felicidade, não fez nada, pois apenas seguiu mais um padrão da mente...
Quando alguma coisa se torna difícil na sua vida, você se torna infeliz. Por que? Porque a dificuldade não está dentro do padrão criado pela mente para ser feliz.
Na verdade, esta infelicidade não é ocasionada pelo que acontece, mas como uma criação da mente. Ela cria o padrão do que é ser feliz, você o aceita; ela cria a ideia da dificuldade em alguma coisa e diz que isso não está dentro dos padrões de ser feliz, você aceita, então o sofrimento.. .
Na verdade você é infeliz porque o seu senhor lhe disse que é. Como você acha que é a mente, só faz o que ela manda.
Sabe, vocês não são escravos da mente, não... O escravo é sempre revoltado contra o senhor dele, mas vocês não se revoltam contra a mente. Pelo contrário: adoram ser ela...
Na verdade, vocês são como cavalos que usam antolhos e que vão todos felizes andando para frente sem olhar para o lado. Como esses cavalos, também acham que são vocês que estão querendo ir para aquele lugar...
Vocês são como os bois que vão para o matadouro. A mente vai lhes levando para o matadouro e vocês vão felizes por aquele caminho sem imaginar o que os espera no final...
Não, vocês não são escravos, pois para ser isso precisariam tentar se libertar do jugo do seu senhor. Mas, vocês não querem se libertar da mente... Na verdade querem ser a mente...
Sabe, a mente cria um padrão do que é ser live e, como adoram ela, vocês querem essa liberdade para vocês. Mas, essa liberdade é a prisão...
Sabe o que é ser livre? É ser livre... Mesmo estando preso...
A liberdade não pode ser explicada, pois se criarmos um padrão do que é ser livre estaremos presos a estes padrões. Ou seja, só vamos nos sentir livres quando cumprirmos o padrão...
Não, ser livre é ser livre... Mas, vocês só se dizem livres quando se veem enjaulados pela norma que a mente cria dizendo o que é ser livre...
Na verdade quando vocês se sentem livres, estão presos. Pior: escolheram ser presos...
O 'eu' mental
Postado por Kamadon
Retirado do estudo 'Em busca da felicidade'
Participante: Esse é o problema... Estou tentando me libertar, talvez da forma errada. Estou sendo enganado achando que fiz e não fiz. Eu percebi isso. Fico confuso por isso, mas não fico confuso por isso... Enfim, não estou fugindo da realidade: estou vivendo essa confusão toda, essa ilusão toda...
Aí é que está o problema: você está vivendo ela enquanto estou dizendo para você não compactuar com o que a mente cria.
O problema é que você está vivendo o problema que a mente está criando. Está vivendo as certezas, as dúvidas, as angústias, as verdades e valores que a mente cria. Quando é que você vai viver você mesmo?
Este é que o grande detalhe que vocês até agora não perceberam. Vocês estão vivendo o que a mente diz para viverem. Estão sendo aquilo que a mente está dizendo para serem.
Como já me disseram muitas vezes: 'É muito difícil fazer o que você diz'... Porque as pessoas me dizem isso? Porque estão vivendo as dificuldades que a mente cria. A mente cria a dificuldade e o conceito de ser difícil e vocês vivem o que ela cria, sem nem sequer terem começado a tentar...
. Entendam isso... Toda luta pela liberdade da mente cria tem uma só finalidade: você não ser mais ela. Ou melhor, reconhecer que tudo aquilo que ela diz é ela que é e não você. É ela que fica nervosa, ansiosa ou confusa e não você.
Se querem fazer qualquer coisa neste caminho, precisam entender algo fundamental. ..
Quem é você, moço?
Participante: Eu sou o que eu penso...
Você não é o que pensa. O que você pensa é você...
Você não é o que pensa ser, porque você não tem pensamento para dizer quem é você... Na verdade, quem a mente pensa que você é, você é... Isso porque, quando a mente fala 'eu', está falando dela mesmo e não de você...
Entenda isso. Quando você me disse que estava com calor, esse estar é um pensamento. O calor que você está sentindo foi criado por um pensamento. Sendo assim, o 'eu' que está com calor não é você, mas a mente... A mente está com calor, não você...
Quando a mente lhe disse para você ficar chateado com o outro, não foi você que ficou chateado, mas ela própria. O 'eu' das frases mentais (pensamentos) é a própria mente e não você...
Você acabou de me dizer que está confuso, mas isso não real: quem está confusa é a mente e não você. Outra pessoa me disse que acha difícil colocar em prática o que falo, mas não é ele que acha e sim a mente.
O você real, não pode ficar nem deixar de ficar confuso nem achar que é difícil ou não... Para que você ficasse confuso, teria pelo menos que saber quem é você, como vive e como acontece. Mas, você não sabe nada disso...
Neste estudo já disse diversas vezes: o observador não é conhecido... Então você não é o 'eu' que está no pensamento. Todo 'eu' utilizado pela mente é ela mesmo...
Quando lhe acontece um pensamento qualquer que comece com a palavra 'eu', esse 'eu' é a mente e não você. O José é a mente e não você... É isso que vocês precisam entender...
Portanto, lhe respondendo, digo que não dá para você saber se está ou não fazendo algumas coisa, pois este 'eu' do pensamento que diz que está fazendo ou não é a mente. Além disso, a própria ideia de estar fazendo ou não é apenas uma ideia e não uma realidade.
A vida daquele que alcança a felicidade é impessoal... Nela não há sujeito. Se houver, é só a mente. Para quem busca a felicidade, ela é o único sujeito que existe numa oração. Isso porque tudo que é sujeito da oração, ou seja, agente da ação, é mente. Você não faz ou deixar de fazer, de compreender ou não, de sentir ou não coisa alguma. É a mente que cria tudo isso...
Portanto, comecem a pensar nisso: não existe 'eu'. Se há um, ele chama-se mente, não eu, o observador. .
Retirado do estudo 'Em busca da felicidade'
Participante: Esse é o problema... Estou tentando me libertar, talvez da forma errada. Estou sendo enganado achando que fiz e não fiz. Eu percebi isso. Fico confuso por isso, mas não fico confuso por isso... Enfim, não estou fugindo da realidade: estou vivendo essa confusão toda, essa ilusão toda...
Aí é que está o problema: você está vivendo ela enquanto estou dizendo para você não compactuar com o que a mente cria.
O problema é que você está vivendo o problema que a mente está criando. Está vivendo as certezas, as dúvidas, as angústias, as verdades e valores que a mente cria. Quando é que você vai viver você mesmo?
Este é que o grande detalhe que vocês até agora não perceberam. Vocês estão vivendo o que a mente diz para viverem. Estão sendo aquilo que a mente está dizendo para serem.
Como já me disseram muitas vezes: 'É muito difícil fazer o que você diz'... Porque as pessoas me dizem isso? Porque estão vivendo as dificuldades que a mente cria. A mente cria a dificuldade e o conceito de ser difícil e vocês vivem o que ela cria, sem nem sequer terem começado a tentar...
. Entendam isso... Toda luta pela liberdade da mente cria tem uma só finalidade: você não ser mais ela. Ou melhor, reconhecer que tudo aquilo que ela diz é ela que é e não você. É ela que fica nervosa, ansiosa ou confusa e não você.
Se querem fazer qualquer coisa neste caminho, precisam entender algo fundamental. ..
Quem é você, moço?
Participante: Eu sou o que eu penso...
Você não é o que pensa. O que você pensa é você...
Você não é o que pensa ser, porque você não tem pensamento para dizer quem é você... Na verdade, quem a mente pensa que você é, você é... Isso porque, quando a mente fala 'eu', está falando dela mesmo e não de você...
Entenda isso. Quando você me disse que estava com calor, esse estar é um pensamento. O calor que você está sentindo foi criado por um pensamento. Sendo assim, o 'eu' que está com calor não é você, mas a mente... A mente está com calor, não você...
Quando a mente lhe disse para você ficar chateado com o outro, não foi você que ficou chateado, mas ela própria. O 'eu' das frases mentais (pensamentos) é a própria mente e não você...
Você acabou de me dizer que está confuso, mas isso não real: quem está confusa é a mente e não você. Outra pessoa me disse que acha difícil colocar em prática o que falo, mas não é ele que acha e sim a mente.
O você real, não pode ficar nem deixar de ficar confuso nem achar que é difícil ou não... Para que você ficasse confuso, teria pelo menos que saber quem é você, como vive e como acontece. Mas, você não sabe nada disso...
Neste estudo já disse diversas vezes: o observador não é conhecido... Então você não é o 'eu' que está no pensamento. Todo 'eu' utilizado pela mente é ela mesmo...
Quando lhe acontece um pensamento qualquer que comece com a palavra 'eu', esse 'eu' é a mente e não você. O José é a mente e não você... É isso que vocês precisam entender...
Portanto, lhe respondendo, digo que não dá para você saber se está ou não fazendo algumas coisa, pois este 'eu' do pensamento que diz que está fazendo ou não é a mente. Além disso, a própria ideia de estar fazendo ou não é apenas uma ideia e não uma realidade.
A vida daquele que alcança a felicidade é impessoal... Nela não há sujeito. Se houver, é só a mente. Para quem busca a felicidade, ela é o único sujeito que existe numa oração. Isso porque tudo que é sujeito da oração, ou seja, agente da ação, é mente. Você não faz ou deixar de fazer, de compreender ou não, de sentir ou não coisa alguma. É a mente que cria tudo isso...
Portanto, comecem a pensar nisso: não existe 'eu'. Se há um, ele chama-se mente, não eu, o observador. .
domingo, 2 de maio de 2010
A ayahuasca deve ser proibida?
Postado por Kamadon
Com o recente caso da morte do cartunista Glauco, muita discussão vem sendo feita e inclusive uma campanha promovida por deputados evangélicos para proibir o uso da ayahuasca, a “erva do demônio”, segundo eles.
Nas últimas semanas recebi vários e-mails perguntado se eu era a favor ou contra o uso da ayahuasca e se ela deveria ser realmente proibida. Eu respondi que não era a favor e nem contra, apenas não tinha interesse ou vontade de usar essa bebida. Eu prefiro o caminho da meditação para se alcançar estados ampliados de consciência. Mas defendo que ela não deve ser proibida.
Como ensina Paulo de Tarso, tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém. Ou seja, se eu quero usar determinado produto, eu tenho o direito de usar, mas preciso também assumir as conseqüências de meus atos.
Em 2005, após tomar o chá, escrevi um artigo. Vira e mexe o artigo é republicado em listas na Internet. Por causa disso, resolvi o reescrever, acrescentando informações que na época eu não dei valor. Uma delas, por exemplo, foi quando pedi permissão para me levantar e o focalizador do ritual me disse o seguinte: “não faça mais esse gesto! Sem entender, perguntei qual era o gesto. Ele me explicou que eu fiz um movimento involuntário com as mãos e, aquele movimento, era o cumprimento dos Exus. Hoje eu interpreto que foi algo positivo. Na certa, eu tinha algum Exu do lado me protegendo e o mesmo se manifestou através daquele gesto com as mãos para transmitir alguma coisa para o focalizador. Por exemplo, algo como “este está sob nossa proteção”.
Tenho um amigo, ex-aluno da escola onde leciono, que sempre vê um Exu ao meu lado. Ele diz que ele me protege dos constantes ataques que recebo. Segundo ele, sem tal proteção eu estaria perdido, pois, em suas palavras, meu trabalho é muito combatido do “lado de lá”. Se for verdade, pois não vejo, não ouço e não sinto nada, agradeço a Deus pela oportunidade de fazer este trabalho espiritualista e também pela proteção a mim garantida.
Mas reforço que eu, particularmente, apesar de não sentir vontade ou desejo de tomar ayahuasca, sou favorável que o seu uso continue liberado e cada um faça o melhor uso possível, garantindo o seu livre-arbítrio. Ontem, por exemplo, eu estava em um supermercado e, perto dos caixas, havia uma superexposição de sorvetes e chocolates. Uma mulher, na fila, falou assim: “deveria ser proibido colocar essas tentações tão perto do caixa”. E eu respondi: “é para você provar a si mesma se é capaz ou não de resistir à tentação. você pode escolher sofrer ou não por causa dessa imagem.” O mesmo vale para tudo que nos causa prazer ou desprazer. Por isso a causa do sofrimento humano são os apegos e as aversões, já ensinava Buda.
Texto escrito por Adilson Marques
Com o recente caso da morte do cartunista Glauco, muita discussão vem sendo feita e inclusive uma campanha promovida por deputados evangélicos para proibir o uso da ayahuasca, a “erva do demônio”, segundo eles.
Nas últimas semanas recebi vários e-mails perguntado se eu era a favor ou contra o uso da ayahuasca e se ela deveria ser realmente proibida. Eu respondi que não era a favor e nem contra, apenas não tinha interesse ou vontade de usar essa bebida. Eu prefiro o caminho da meditação para se alcançar estados ampliados de consciência. Mas defendo que ela não deve ser proibida.
Como ensina Paulo de Tarso, tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém. Ou seja, se eu quero usar determinado produto, eu tenho o direito de usar, mas preciso também assumir as conseqüências de meus atos.
Em 2005, após tomar o chá, escrevi um artigo. Vira e mexe o artigo é republicado em listas na Internet. Por causa disso, resolvi o reescrever, acrescentando informações que na época eu não dei valor. Uma delas, por exemplo, foi quando pedi permissão para me levantar e o focalizador do ritual me disse o seguinte: “não faça mais esse gesto! Sem entender, perguntei qual era o gesto. Ele me explicou que eu fiz um movimento involuntário com as mãos e, aquele movimento, era o cumprimento dos Exus. Hoje eu interpreto que foi algo positivo. Na certa, eu tinha algum Exu do lado me protegendo e o mesmo se manifestou através daquele gesto com as mãos para transmitir alguma coisa para o focalizador. Por exemplo, algo como “este está sob nossa proteção”.
Tenho um amigo, ex-aluno da escola onde leciono, que sempre vê um Exu ao meu lado. Ele diz que ele me protege dos constantes ataques que recebo. Segundo ele, sem tal proteção eu estaria perdido, pois, em suas palavras, meu trabalho é muito combatido do “lado de lá”. Se for verdade, pois não vejo, não ouço e não sinto nada, agradeço a Deus pela oportunidade de fazer este trabalho espiritualista e também pela proteção a mim garantida.
Mas reforço que eu, particularmente, apesar de não sentir vontade ou desejo de tomar ayahuasca, sou favorável que o seu uso continue liberado e cada um faça o melhor uso possível, garantindo o seu livre-arbítrio. Ontem, por exemplo, eu estava em um supermercado e, perto dos caixas, havia uma superexposição de sorvetes e chocolates. Uma mulher, na fila, falou assim: “deveria ser proibido colocar essas tentações tão perto do caixa”. E eu respondi: “é para você provar a si mesma se é capaz ou não de resistir à tentação. você pode escolher sofrer ou não por causa dessa imagem.” O mesmo vale para tudo que nos causa prazer ou desprazer. Por isso a causa do sofrimento humano são os apegos e as aversões, já ensinava Buda.
Texto escrito por Adilson Marques
sábado, 24 de abril de 2010
Gerald Cohen: Em busca de uma alternativa socialista
Postado por Attman e Kamadon
“O Socialismo”, disse Albert Einstein, é a tentativa da humanidade “superar e sobrepujar a fase predatória da evolução humana”; e, para Gerald. A. Cohen, “todo mercado (...) é um sistema predatório”. Essa é a essência do último livro de Cohen, considerado pelo The Guardian como o maior filósofo político marxista dos nossos dias. O propósito do autor, que morreu em agosto de 2009, é assentar o que chama de as bases “preliminares” - uma tentativa que, afinal, bem poderia chegar a ser derrotada por realidades inexoráveis – de uma alternativa socialista.
Ellen Wood - Sin Permiso
“O Socialismo”, disse Albert Einstein, é a tentativa da humanidade “superar e sobrepujar a fase predatória da evolução humana”; e, para Gerald. A. Cohen, “todo mercado (...) é um sistema predatório”. Tal é a essência de seu último livro, breve porém incisivo e elegantemente escrito (Cohen morreu em agosto passado). Seu propósito é assentar o que chama de as bases “preliminares” - uma tentativa que, afinal, bem poderia chegar a ser derrotada por realidades inexoráveis – de uma alternativa socialista. É desejável, pergunta-se, e se desejável, factível, construir uma sociedade movida por algo que não seja a predação, que não responda às motivações “mesquinhas”, “baixas”, “repugnantes” do mercado, mas que esteja antes dirigida por um compromisso moral com a comunidade e com a igualdade?
Em seu estilo caracteristicamente lúcido, comprometido e delicadamente humorístico, Cohen começa imaginando um grupo de pessoas numa excursão para um camping. Nessas circunstâncias, sugere que a maioria das pessoas seriam “vigorosamente a favor de uma forma socialista de vida, preferindo-a outras alternativas factíveis”, comportando-se assim, pois, conforme aos princípios de igualdade e de comunidade, muito distintos dos que governam o comportamento normal no mercado. A questão é se esses princípios do acampamento poderiam ou deveriam ser postos em prática por obra do conjunto da sociedade. Na sua opinião, isso seria desejável para evitar os resultados necessariamente injustos dos mecanismos de mercado e as desigualdades que os acompanha. Mas é factivel?
Sobre isso, o veredito está por se pronunciar. É importante, insiste Cohen, distinguir entre dois tipos muito diferentes de obstáculos, os que emanam das limitações da natureza humana e os procedentes das limitações da tecnologia social; e conclui que nosso principal problema não é o egoísmo humano, mas a “carência do que chamamos de tecnologia organizativa adequada”. Trata-se, em outras palavras, de um problema de design. Mas, o fato de que não saibamos como desenhar a maquinaria social que teria de funcionar no socialismo não significa que nunca o poderemos ou que nunca o quereremos.
Cohen foca na idéia do “socialismo de mercado”, um sistema que estaria ainda fundado no mecanismo de preços, mas que evitaria a concentração de capital que gera o grosso das desigualdades do mercado capitalista. Isso, para ele, seria melhor que nada. É “o gênio do mercado que recruta motivações de baixa qualidade para fins desejáveis”; mas, o que os socialistas de mercado esquecem é que também há efeitos indesejáveis e que também esse seu tipo de mercado se orienta conforme esses motivos “mesquinhos”. Assim, pois, ele preferiria seguir buscando um meio de obter efeitos econômicos produtivos fundado em outras motivações.
As preocupações morais da filosofia de Cohen e – na sua análise dos mercados – e sua ênfase na moralidade das motivações poderiam parecer, à primeira vista, muito distantes; até diametralmente opostos à obra com que começou a se tornar conhecido: Karl Marx's Theory of History: A Defense (1978). O necrológio de Cohen publicado no The Guardian, em que ele é descrito como “comprovadamente o principal filósofo político da esquerda”, falou desse livro como de uma “reinterpretação revolucionária da teoria marxista”. Na realidade, o que Cohen produziu foi algo ainda mais audacioso. Era menos uma reinterpretação de Marx que uma defesa cerrada da interpretação mais ortodoxa.
É verdade, como se disse no Guardian, que aquilo que Cohen e seus colegas “marxistas analíticos” gostavam de chamar de o “no-bullshit Marxism” ou o “marxismo não charlatão”(1) arrastaram a teoria marxista para o vão da “ciência social burguesa da corrente principal”, aplicando-lhe as técnicas linguísticas e lógidas da filosofia analítica; só isso já era uma façanha. A teoria que ele defendia, cuja substância era um determinismo tecnológico, devia menos a Marx que a intérpretes posteriores, como Georgi Plejánov; mas terminou sendo tomada como a essência do materialismo histórico, no modo como o entendiam tanto os ideólogos dos partidos comunistas quanto os antimarxistas mais furibundos. O que tornou o projeto de Cohen ainda mais notório foi que, na época em que publicou sua defesa, essa ortodoxia tinha sido vigorosamente desafiada por historiadores que trabalhavam na tradição marxista, desde E.P.Thompson a Robert Brenner; e o velho determinismo tecnológico já tinha cedido espaço a interpretações muito diferentes de Marx.
É verdade que, uma vez descoberto, não é provável que todo progresso chegue a desaparecer por completo. Mas a compulsão primordial de melhorar constantemente as forças técnicas de produção não é uma lei geral da história. É, para bem ou para o mal, uma característica específica de uma forma social, o capitalismo. Seu modo particular de exploração, à diferença de quaisquer outro gera, como condição mesma de sua sobrevivência, uma compulsão implacável de melhorar a produtividade e, assim, de rebaixar os custos do trabalho, a fim de satisfazer e maximizar o lucro.
Embora as inevitabilidades históricas do determinismo tecnológico de Cohen tenham sido traduzidas por outros marxistas analíticos na linguagem da “eleição racional”, parecia haver nesse determinismo pouca margem para a eleição moral ou para as motivações morais, como forças históricas dinâmicas. Sem embargo, sua carreira intelectual subsequente se consagrou na questão da justiça e da igualdade socialistas, que estão no núcleo de seu último livro. Pareceria um caminho distante desde sua peculiar variedade de marxismo; e, visto que terminou descrevendo a si mesmo como um “ex-marxista”, poderíamos nos ver tentados a deixar as coisas assim, limitando-nos a concluir que, tendo repudiado o marxismo, e com ele quaisquer ilusões sobre o curso necessário da história, restou livre para pensar sobre o socialismo, não em termos de algo historicamente inevitável, mas como uma opção moral.
As coisas, porém, não são simples assim. Se contrastarmos o marxismo de Cohen com outras versões disponíveis, o que salta aos olhos é a congruência entre seu precoce determinismo tecnológico e sua filosofia moral dos últimos anos de vida. Não só porque seguiu apaixonadamente compromissado, como ex-marxista não menos que como marxista ortodoxo, com os valores socialistas e em especial com a igualdade. O certo é que sua teoria da história também está conectada com sua filosofia moral, no sentido de que ambas, afinal, são a-históricas. Isso é óbvio o suficiente quando referido nas abstrações da filosofia analítica, mas parece algo estranho se atribuído a uma teoria da história. O fato é que resulta extremamente difícil sustentar esse tipo de determinismo transhistórico [em termos kantianos, transcendental], sem se desinteressar dos processos históricos: não só das particularidades e das contingências do tempo e lugar, mas dos princípios diferencialmente operantes em cada modo específico de organizar a vida social.
(1) Bullshit é expressão da língua inglesa falada nos EUA e muito popular, que o filósofo Harry Frankfurt tomou de empréstimo para se referir a trabalhos intelectuais que não são exatamente nem falsários nem mentirosos, mas algo ainda pior, porque o falsário ou mentiroso são capazes de distinguir o verdadeiro do falso, ao passo que o bullshiter perdeu até essa capacidade.
(*) Ellen Meiksins Wood foi durante muitos anos professora de ciência política e filosofia na York University de Toronto, Canadá e também fez parte do comitê editorial da New Left Review. Entre 1997 e 2000 co-editou, junto com Paul Sweezy e Harry Magdoff, a revista estadunidense Monthlly Review. De orientação marxista, Wood publicou recentemente: “Citizens to Lords: A Social History of Western Political Thought from Antiguity to Middle Ages (Verso, London, 2008), The Origin of Capitalism: A Longer View (Verso, London, 2002). No Brasil, a Boitempo Editorial publicou Democracia contra Capitalismo: A Renovação do Materialismo Histórico, em 2003.
Tradução: Katarina Peixoto
“O Socialismo”, disse Albert Einstein, é a tentativa da humanidade “superar e sobrepujar a fase predatória da evolução humana”; e, para Gerald. A. Cohen, “todo mercado (...) é um sistema predatório”. Essa é a essência do último livro de Cohen, considerado pelo The Guardian como o maior filósofo político marxista dos nossos dias. O propósito do autor, que morreu em agosto de 2009, é assentar o que chama de as bases “preliminares” - uma tentativa que, afinal, bem poderia chegar a ser derrotada por realidades inexoráveis – de uma alternativa socialista.
Ellen Wood - Sin Permiso
“O Socialismo”, disse Albert Einstein, é a tentativa da humanidade “superar e sobrepujar a fase predatória da evolução humana”; e, para Gerald. A. Cohen, “todo mercado (...) é um sistema predatório”. Tal é a essência de seu último livro, breve porém incisivo e elegantemente escrito (Cohen morreu em agosto passado). Seu propósito é assentar o que chama de as bases “preliminares” - uma tentativa que, afinal, bem poderia chegar a ser derrotada por realidades inexoráveis – de uma alternativa socialista. É desejável, pergunta-se, e se desejável, factível, construir uma sociedade movida por algo que não seja a predação, que não responda às motivações “mesquinhas”, “baixas”, “repugnantes” do mercado, mas que esteja antes dirigida por um compromisso moral com a comunidade e com a igualdade?
Em seu estilo caracteristicamente lúcido, comprometido e delicadamente humorístico, Cohen começa imaginando um grupo de pessoas numa excursão para um camping. Nessas circunstâncias, sugere que a maioria das pessoas seriam “vigorosamente a favor de uma forma socialista de vida, preferindo-a outras alternativas factíveis”, comportando-se assim, pois, conforme aos princípios de igualdade e de comunidade, muito distintos dos que governam o comportamento normal no mercado. A questão é se esses princípios do acampamento poderiam ou deveriam ser postos em prática por obra do conjunto da sociedade. Na sua opinião, isso seria desejável para evitar os resultados necessariamente injustos dos mecanismos de mercado e as desigualdades que os acompanha. Mas é factivel?
Sobre isso, o veredito está por se pronunciar. É importante, insiste Cohen, distinguir entre dois tipos muito diferentes de obstáculos, os que emanam das limitações da natureza humana e os procedentes das limitações da tecnologia social; e conclui que nosso principal problema não é o egoísmo humano, mas a “carência do que chamamos de tecnologia organizativa adequada”. Trata-se, em outras palavras, de um problema de design. Mas, o fato de que não saibamos como desenhar a maquinaria social que teria de funcionar no socialismo não significa que nunca o poderemos ou que nunca o quereremos.
Cohen foca na idéia do “socialismo de mercado”, um sistema que estaria ainda fundado no mecanismo de preços, mas que evitaria a concentração de capital que gera o grosso das desigualdades do mercado capitalista. Isso, para ele, seria melhor que nada. É “o gênio do mercado que recruta motivações de baixa qualidade para fins desejáveis”; mas, o que os socialistas de mercado esquecem é que também há efeitos indesejáveis e que também esse seu tipo de mercado se orienta conforme esses motivos “mesquinhos”. Assim, pois, ele preferiria seguir buscando um meio de obter efeitos econômicos produtivos fundado em outras motivações.
As preocupações morais da filosofia de Cohen e – na sua análise dos mercados – e sua ênfase na moralidade das motivações poderiam parecer, à primeira vista, muito distantes; até diametralmente opostos à obra com que começou a se tornar conhecido: Karl Marx's Theory of History: A Defense (1978). O necrológio de Cohen publicado no The Guardian, em que ele é descrito como “comprovadamente o principal filósofo político da esquerda”, falou desse livro como de uma “reinterpretação revolucionária da teoria marxista”. Na realidade, o que Cohen produziu foi algo ainda mais audacioso. Era menos uma reinterpretação de Marx que uma defesa cerrada da interpretação mais ortodoxa.
É verdade, como se disse no Guardian, que aquilo que Cohen e seus colegas “marxistas analíticos” gostavam de chamar de o “no-bullshit Marxism” ou o “marxismo não charlatão”(1) arrastaram a teoria marxista para o vão da “ciência social burguesa da corrente principal”, aplicando-lhe as técnicas linguísticas e lógidas da filosofia analítica; só isso já era uma façanha. A teoria que ele defendia, cuja substância era um determinismo tecnológico, devia menos a Marx que a intérpretes posteriores, como Georgi Plejánov; mas terminou sendo tomada como a essência do materialismo histórico, no modo como o entendiam tanto os ideólogos dos partidos comunistas quanto os antimarxistas mais furibundos. O que tornou o projeto de Cohen ainda mais notório foi que, na época em que publicou sua defesa, essa ortodoxia tinha sido vigorosamente desafiada por historiadores que trabalhavam na tradição marxista, desde E.P.Thompson a Robert Brenner; e o velho determinismo tecnológico já tinha cedido espaço a interpretações muito diferentes de Marx.
É verdade que, uma vez descoberto, não é provável que todo progresso chegue a desaparecer por completo. Mas a compulsão primordial de melhorar constantemente as forças técnicas de produção não é uma lei geral da história. É, para bem ou para o mal, uma característica específica de uma forma social, o capitalismo. Seu modo particular de exploração, à diferença de quaisquer outro gera, como condição mesma de sua sobrevivência, uma compulsão implacável de melhorar a produtividade e, assim, de rebaixar os custos do trabalho, a fim de satisfazer e maximizar o lucro.
Embora as inevitabilidades históricas do determinismo tecnológico de Cohen tenham sido traduzidas por outros marxistas analíticos na linguagem da “eleição racional”, parecia haver nesse determinismo pouca margem para a eleição moral ou para as motivações morais, como forças históricas dinâmicas. Sem embargo, sua carreira intelectual subsequente se consagrou na questão da justiça e da igualdade socialistas, que estão no núcleo de seu último livro. Pareceria um caminho distante desde sua peculiar variedade de marxismo; e, visto que terminou descrevendo a si mesmo como um “ex-marxista”, poderíamos nos ver tentados a deixar as coisas assim, limitando-nos a concluir que, tendo repudiado o marxismo, e com ele quaisquer ilusões sobre o curso necessário da história, restou livre para pensar sobre o socialismo, não em termos de algo historicamente inevitável, mas como uma opção moral.
As coisas, porém, não são simples assim. Se contrastarmos o marxismo de Cohen com outras versões disponíveis, o que salta aos olhos é a congruência entre seu precoce determinismo tecnológico e sua filosofia moral dos últimos anos de vida. Não só porque seguiu apaixonadamente compromissado, como ex-marxista não menos que como marxista ortodoxo, com os valores socialistas e em especial com a igualdade. O certo é que sua teoria da história também está conectada com sua filosofia moral, no sentido de que ambas, afinal, são a-históricas. Isso é óbvio o suficiente quando referido nas abstrações da filosofia analítica, mas parece algo estranho se atribuído a uma teoria da história. O fato é que resulta extremamente difícil sustentar esse tipo de determinismo transhistórico [em termos kantianos, transcendental], sem se desinteressar dos processos históricos: não só das particularidades e das contingências do tempo e lugar, mas dos princípios diferencialmente operantes em cada modo específico de organizar a vida social.
(1) Bullshit é expressão da língua inglesa falada nos EUA e muito popular, que o filósofo Harry Frankfurt tomou de empréstimo para se referir a trabalhos intelectuais que não são exatamente nem falsários nem mentirosos, mas algo ainda pior, porque o falsário ou mentiroso são capazes de distinguir o verdadeiro do falso, ao passo que o bullshiter perdeu até essa capacidade.
(*) Ellen Meiksins Wood foi durante muitos anos professora de ciência política e filosofia na York University de Toronto, Canadá e também fez parte do comitê editorial da New Left Review. Entre 1997 e 2000 co-editou, junto com Paul Sweezy e Harry Magdoff, a revista estadunidense Monthlly Review. De orientação marxista, Wood publicou recentemente: “Citizens to Lords: A Social History of Western Political Thought from Antiguity to Middle Ages (Verso, London, 2008), The Origin of Capitalism: A Longer View (Verso, London, 2002). No Brasil, a Boitempo Editorial publicou Democracia contra Capitalismo: A Renovação do Materialismo Histórico, em 2003.
Tradução: Katarina Peixoto
‘Nós estamos emergindo e vamos continuar a emergir’
Postado por Attman e Kamadon
"O Brasil deixou de ser o eterno país do futuro, acho que o futuro chegou, um pouco. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque éramos um país rico e profundamente desigual. E essa desigualdade não era simplesmente de renda. Era uma desigualdade de gênero, étnica, que se dava em termos regionais, em termos educacionais, assimetrias culturais etc. Nós começamos a resolver a desigualdade social em termos de renda. E demos alguns passos importantes para resolver os temas das desigualdades regionais". A avaliação é de Marco Aurélio Garcia, Assessor da Presidência República para Assuntos Internacionais, em entrevista para a revista Desafios do Desenvolvimento, do IPEA
Desafios do Desenvolvimento (IPEA)
“Nós estamos emergindo e vamos continuar a emergir. Há outros países que já são desenvolvidos que estão imergindo, estão afundando. O grande problema que nós temos aqui é o seguinte: nós começamos, a meu juízo, a enfrentar a questão chave que o País tinha que, de uma certa forma, abriu espaço para resolver as demais, que era questão social. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque nós éramos um país rico e profundamente desigual”. A opinião é de Marco Aurélio Garcia, assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais em entrevista à Andréa Vieira e publicada revista Desafios do Desenvolvimento, janeiro-fevereiro/2010, do Ipea.
Eis a entrevista.
Em palestra no Ipea, o senhor afirmou que instituições internacionais estão caducas. Gostaria que o senhor explicasse essa posição.
Acho que tem três tipos de caducidade. Primeiro do ponto de vista dos pressupostos com os quais FMI e o Banco Mundial, mais particularmente o Fundo, trabalharam durante esses últimos anos. Eles foram muito lenientes no que diz respeito à desordem econômica internacional que estava se armando, estimulavam as ideias de desregulamentação, foram extremamente ortodoxos na cobrança de políticas austeras por parte dos países, sobretudo os pobres e emergentes, o que significou em grande medida que esses países se viram inviabilizados. E parece que algumas dessas questões persistem hoje. Se nós verificarmos os conselhos que foram dados, segundo o noticiário, pelo FMI para a Europa, agora nós vamos ver que uma das principais recomendações parece ser o corte de salários. Ora, a tendência em momentos de crise é impulsionar políticas heterodoxas, políticas anticíclicas! Então eu acho que esse problema que parecia superado depois da eleição do Dominique Strauss-Kahn para o FMI, ainda não está perfeitamente equacionado.
O segundo aspecto está ligado à operacionalidade dessas entidades muito burocratizadas. O atraso na rodada de Doha é um caso típico, em circunstâncias que num determinado momento as coisas estavam praticamente para ser resolvidas. Na última hora, no final da gestão Bush nos EUA e no limiar de uma eleição na Índia, as negociações fracassaram. O terceiro aspecto, também mais ligado à direção, porém mais tangível, é a questão da representatividade. Salvo a OMC, onde cada país tem um voto, nas outras entidades nós temos uma distribuição muito perversa das organizações de poder que não corresponde mais à correlação de forças internacionais, que ainda é acompanhada de uma prática habitual, uma espécie de um condomínio Europa-EUA.
É possível estruturar uma instituição multilateral realmente eficiente e representativa de todas as nações ou reorganizar as já existentes? Como seria?
Eu acho que isso deve ser tentado. Se nós praticarmos de forma mais intensa uma concepção multilateral das organizações internacionais, isso é factível. Agora, se nós acharmos que o mundo tem que ser regido por um grupo restrito de potências, não vai ser possível. A grande verdade é que essa alternativa da hegemonia de um grupo pequeno de potências também conduz a um impasse. Acho que o exemplo mais claro disso foi a reunião de Copenhague, onde tudo ficou bloqueado em grande medida por causa da decisão dos Estados Unidos no que diz respeito às metas de controle de emissão (de gases). Isso fez com que a Europa retrocedesse naquilo que ela havia proposto e deixou os outros países olhando o céu. O grande problema, se não houver essa democratização das organizações internacionais, é uma paralisação das relações internacionais. Isso não é bom.
A crise internacional expôs uma série de falhas do sistema financeiro mundial. Falou-se em regulação e fiscalização dos mercados, mas até agora nada foi feito. Por que isso é tão difícil?
É difícil porque fere interesses nacionais importantes e porque nós hoje enfrentamos uma crise de liderança mundial muito grande. Lembramos que o antecedente que nós tivemos foi a crise de 1929. No que diz respeito aos Estados Unidos, ela começou a ser enfrentada num primeiro momento com medidas extremamente corajosas, muito mais radicais, mas a grande
resolução da crise de 1929 foi a guerra. Então esse é um risco real.
Quando os países se reuniram em 1944, em Bretton Woods, para tentar definir uma nova arquitetura financeira internacional, eles estavam fazendo uma autocrítica da sua inação no que diz respeito a evitar os desdobramentos da crise. Quer dizer, antes que a guerra tivesse ocorrido e, como causa dessa guerra, inclusive, nós tivemos a ascensão do fascismo na Itália, a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, de uma certa forma a guerra civil espanhola, o êxito e depois o fracasso da experiência da frente popular na França, enfim, uma série de fenômenos que, sem dúvida nenhuma, qualquer historiador vai localizar nas origens da Segunda Guerra Mundial.
Caso nada seja feito nesse momento para estabelecer uma ordem econômica mais organizada e sustentável, o que pode acontecer?
O mundo pode se transformar num grande paiol de pólvora. E quando há um paiol de pólvora, qualquer fósforo produz uma explosão.
O senhor fala em guerra mesmo?
Por que não? Não quero ser catastrofista, mas eu acho que essa é uma das razões pelas quais, talvez, todos os esforços de neutralização dos pontos de tensão internacional são de fundamental importância.
Isso justifica a preocupação em aumentar a defesa do Brasil?
Eu não diria aumentar, mas adequá-la. Nós estávamos com um sistema de defesa que não correspondia mais às necessidades do País, entende? Nós precisamos ter adequação. Nós não precisamos ter forças armadas para desfile militar. Nós precisamos ter forças armadas para proteger o País. Acho que esse tema, grosso modo, está sendo colocado em quase todos os países da América Latina. Então, por essa razão, eu não vejo que a América Latina, em particular a América do Sul, seja uma região que possa ser capitulada como uma região de tensão internacional. Mas há outras regiões com focos de tensão que todos os dias estão se manifestando. O crescimento da economia chinesa será acompanhado ou não de uma estratégia de consolidação da China como potência militar? Não sei. É bem possível. As tensões que estão se produzindo agora entre China e Estados Unidos em função do refortalecimento dos armamentos de Taiwan? Há regiões de enorme tensão no mundo hoje como Paquistão, Afeganistão, Palestina...
Voltando a falar da economia mundial, ao que tudo indica, o Brasil adotou as medidas corretas para mitigar os efeitos da crise, tanto que foi um dos primeiros países a sair dela. No cenário financeiro internacional pós-crise, a imagem do Brasil mudou?
Eu acho que já vinha mudando anteriormente. Quando a crise eclodiu, o Brasil foi consultado imediatamente sobre que tipo de instância deveria ser criado. Eu lembro que eu estava com o presidente Lula quando o presidente Bush telefonou para ele e disse: "eu preciso fazer uma reunião aqui em Washington para organizar uma resposta à crise. Quem você acha que nós devemos convidar?" Ele nos consultou. Foi quando o presidente (Lula) disse: "eu acho que deveria ser o G 20 financeiro". Portanto, nesse momento, a imagem do Brasil já era fortalecida.
Em que proporção a crise na Europa preocupa o Brasil?
Olha, isso preocupa o Brasil por várias razões. Primeiro lugar porque isso afeta o equilíbrio da economia internacional como um todo. Se há uma retração da economia europeia, isso, sem dúvida nenhuma, afetará o conjunto da economia mundial. Os chineses serão afetados porque a China tem no espaço europeu um de seus mercados importantes.
Falando em China, o que o Brasil pode fazer para melhorar o comércio com a China, tendo em vista que essa relação comercial acaba sendo desfavorável ao Brasil, que exporta apenas commodities para o gigantesco mercado chinês?
Primeiramente, eu acho que nós não devemos ter vergonha de exportar commodities. O ruim é quando a gente não exporta nada. O problema brasileiro é que nós estamos fazendo, nos últimos anos, uma certa reconversão da economia brasileira, fazendo com que o processo de industrialização seja um processo não só de crescimento quantitativo, mas de sofisticação qualitativa. Isso implica agregar mais valor. E é claro que no caso da China, salvo em alguns nichos muito particulares, nós vamos enfrentar dificuldades em aumentar nossas exportações por uma razão muito simples: a China realiza aquilo que nós também realizamos em escalas muitas vezes superiores: eles produzem automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos em escala muito maior do que a nossa. Nós temos algumas formas de entrada na China da indústria de alto valor agregado como é o caso da nossa indústria aeronáutica. Mas a produção agrícola, por exemplo, é um trunfo extraordinário que o Brasil tem. Não quero dizer com isso que não vamos melhorar nossa indústria, que não vamos adotar uma política industrial mais agressiva, que não vamos enfrentar a questão da inovação tecnológica, que é fundamental.
O Brasil, que já liderava a missão de paz no Haiti, está tendo uma atuação muito efetiva na ajuda ao país depois da tragédia causada pelo terremoto. Que efeitos essa atuação produzirá para o Brasil no cenário internacional?
Nós estamos fazendo isso, em primeiro lugar, porque nós incorporamos a solidariedade como valor a ser defendido na nossa política externa. Da mesma forma que nós buscamos a defesa da paz, defesa dos direitos humanos, relações internacionais menos assimétricas, menos desequilibradas, temos também como um dos valores a solidariedade. O Haiti é um país com o qual nós temos grande afinidade, é um país de população negra, como é o caso do Brasil.
Por que é tão importante para o Brasil ter um assento permanente no conselho?
Por uma razão muito simples: nesse conselho é que se resolvem as questões da segurança global. Nós não estávamos discutindo no começo que o mundo pode correr um risco de uma conflagração regional ou mais global, seja pela incapacidade dos governos se porem de acordo, seja pelo progresso abusivo de uma situação conflitiva? Quem coopera nessas circunstâncias? Só pode ser o Conselho de Segurança. Nós, inclusive, temos uma visão hoje crítica ao funcionamento das Nações Unidas. Nós achamos que as Nações Unidas deveriam assumir concretamente a condição de organismo regulador da paz mundial.
Por que isso não acontece?
Isso não está acontecendo porque as Nações Unidas foram enfraquecidas, porque durante um certo período predominou uma orientação estritamente unilateralista da política norte-americana. Então nós precisamos de organismos mais legitimados. Em muitas das crises mundiais recentes, o Conselho de Segurança ficou sobrepassado. O caso do Iraque é um caso claro. Ele não apoiou a invasão, mas saiu debilitado porque a invasão se deu sem a opinião dele. Nós precisamos de um conselho de segurança mais amplo, mais representativo. Vai ser rápido? Não, não vai. Até que caia a ficha de alguns países que o mundo não é mais propriedade exclusiva deles, vai levar algum tempo.
É fato que o Brasil está se aproximando cada vez mais e ganhando respeito das grandes economias. Por outro lado, há a sensação de que o Brasil está se distanciando da América Latina. Não está?
O Brasil não está alheio. Nós temos instâncias de participação. A primeira instância que é o Mercosul, que atravessa, a meu juízo, dificuldades hoje, não tantas quanto se diz. Acho que nós deveríamos pensar seriamente no fortalecimento institucional do Mercosul. Não há possibilidade de um processo de integração avançar se nós não temos instituições fortes. As instituições hoje de Montevidéu são muito frágeis, muito pequenas. Depois nós temos uma outra instância de intervenção sul-americana que é a Unasul. Eu diria que hoje, talvez, nós estejamos avançando com o ritmo que se impõe. O processo de integração energética, a constituição do Banco do Sul, que está decidida mas ainda tem uma certa tardança na implementação, os processos de integração física, tudo isso tem sido muito mais resultado de ações unilaterais, bilaterais, às vezes trilaterais, do que efetivamente uma política. Então há uma crise de governança tanto do Mercosul quanto da Unasul que é preciso resolver. Agora eu não acho que nós temos nos afastado da região. Pelo contrário. Nós temos uma relação muito solidária.
O bloco corre o risco de acabar?
Em primeiro lugar não vai acabar porque, entre outras coisas, do ponto de vista econômico, a integração da região produz resultados muito fortes. Do ponto de vista político, a presença, a intervenção de forças regionais em crises políticas internas, a meu juízo, só se justifica quando essas crises se transformam em crises agudas. Eu vou dar dois exemplos. Quando houve um forte processo de desestabilização na Venezuela em 2002/2003, foi criado aquele grupo de amigos da Venezuela, que ajudou muitíssimo e conduziu o processo de estabilização do país. Quando a Bolívia esteve à beira de uma guerra civil, a Unasul fez aquela reunião em Santiago do Chile e interveio no sentido de respaldar o governo.
A expansão de bases norte-americanas na América Latina foi criticada pelo governo brasileiro. As relações entre Brasil e EUA ficaram abaladas por essa razão?
Não. Acho negativa a existência de bases norte-americanas na região. É algo que cria tensões aqui. Isso nós dissemos de forma muito franca, muito clara ao presidente Uribe quando ele esteve aqui, depois em reunião na Argentina. Nós gostaríamos que os problemas da região fossem resolvidos no âmbito da região. No caso da Colômbia, um país que vive uma situação de crise interna pela existência das Farc e outras guerrilhas, nós não temos condições de participar de um esforço militar lá. Mas nós sim, temos condições de participar, já deixamos claro isso, num esforço de paz. Tudo que nós pudermos fazer para lograr a paz lá, nós faremos.
Como ficam outros países da região?
Eu tenho a impressão de que outros países se sintam incomodados. E nós mesmos, inclusive a partir da leitura de alguns documentos oficiais, ficamos preocupados. Há documentos oficiais dos Estados Unidos que falam das bases como tendo a possibilidade de uma projeção militar no resto do continente. Isso nos inquieta.
Mudando de região. Além de muitas críticas, que benefício o Brasil teve com a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
Você poderia me perguntar por que nós recebemos o Shimon Peres e outros...
Eu ia chegar lá.
Primeiro lugar porque nós temos relações muito amplas, com muitos países. O Brasil ampliou consideravelmente as suas embaixadas pelo mundo e o mundo ampliou consideravelmente as suas embaixadas aqui. Segundo lugar, tanto o Irã quanto Israel, quanto a Palestina, são regiões que eu incluiria nessas regiões problemáticas do mundo. Quando nós começamos o governo, com a ameaça do desencadeamento da guerra no Iraque, não se tinha a ideia do que poderia acontecer. Como o Saddam Hussein era muito falastrão e ameaçava mundos e fundos, uma hipótese de trabalho que nós operamos aqui foi de que uma guerra desse tipo pudesse implicar ameaças das mais variadas. Desencadeamento de terror mundial... Criou-se aqui um trabalho na Presidência que estudava todas essas hipóteses e, inclusive, as medidas que deveriam ser adotadas. Eu tenho absoluta certeza de que o agravamento do conflito na Palestina ou o eventual desencadeamento de uma situação mais grave com o Irã seria algo de consequências terríveis.
Realmente vale a pena o Brasil se aproximar de uma questão tão complexa e tumultuada como são as relações existentes no Oriente Médio? Não é um desgaste inútil?
Não. Pelo contrário. Eu acho que um desgaste seria não participar. Dizer que essa é uma situação que não nos interessa... Não nos interessa até o dia em que isso nos cair em cima. E se nós queremos ser, como se diz, um global player, se nós queremos abandonar o eterno complexo de vira-lata, de ficar preocupados só com o nosso mundinho, nós temos que ter uma atenção para isso. Eu acho engraçado o seguinte: esses mesmos setores que criticam que nós estamos discutindo com o Ahmadinejad ou que estamos recebendo o presidente Mahmoud Abbas (Palestina), ou o presidente Shimon Peres (Israel), este em geral menos criticado, são aqueles que dizem: "vocês ficaram indiferentes ao genocídio na África e em tal país". Nós não ficamos indiferentes. Nós votamos medidas nos fóruns internacionais. Eu estou convencido de que se não se chegar a uma solução da crise do Irã, nós corremos um grave risco para a paz mundial. Essa não é só a minha opinião. Essa é a opinião de grandes dirigentes mundiais com os quais eu tive a oportunidade de estar.
Como o senhor avalia a posição dos Estados Unidos?
Eu tenho certeza de uma coisa: ajudar não está ajudando porque essas coisas estão se alastrando há muito tempo. E o que é interessante observar é o seguinte: é justo, do ponto de vista de uma ordem internacional que nós queremos multilateral, que um país se ocupe de resolver todas crises do mundo? Que esteja presente em Honduras, no Paquistão, no Afeganistão, no Iêmen, na Palestina, no extremo oriente... É justo isso? Ou a melhor coisa é efetivamente criar um espaço de negociação mais plural? Nós não estamos pedindo isso para nós. A nossa presença tem esse sentido de incorporar outros, tem o sentido de fortalecer o multilateralismo.
O presidente Lula sempre defendeu mais ajuda e aproximação com a África, mas quem acabou assumindo esse papel foi a China, que está investindo de fato no continente. Como fica o Brasil agora?
Mas nós não estamos competindo com a China na África. A China está fazendo o que considera mais adequado. Eu sei que muitos países não gostam desse tipo de presença. Não gostam, por exemplo, que uma represa que está sendo construída pela China seja construída por cinco mil operários chineses que ficam em barcos ao largo e que vão sendo transportados todos os dias. Nós não fazemos isso. As obras que as empresas brasileiras estão construindo no continente africano são obras construídas mais de 95% por africanos. Nós estamos criando empregos na África. E também nós não temos necessidades que a China tem. A China vai buscar petróleo na África. Nós não precisamos buscar petróleo fora do Brasil. Mas até temos explorações em Angola, na Nigéria, e em outros lugares. A China vai buscar minérios. Nós não precisamos buscar minérios lá. Nós temos minérios.
Na reunião de cúpula de Copenhague, os países não chegaram a nenhum acordo sobre as questões climáticas. Qual a probabilidade de o próximo encontro ser bem sucedido?
Eu diria que obviamente os Estados Unidos terão uma responsabilidade muito grande nisso, porque, sendo o país responsável pelo maior número de emissões, cabe a ele chegar com metas concretas. As metas que os Estados Unidos estabeleceram até agora são ridículas. Elas tiveram reflexo também no próprio comportamento da União Europeia, como já mencionei. A União Europeia tinha metas mais ambiciosas, mas como viu que os Estados Unidos estavam na retranca, de certa maneira diminuiu as metas dela, encolheu a proposta. Eu acho que se todo mundo subir a sua missão no que diz respeito à redução, nós teremos efetivamente mais possibilidade de chegar a um acordo. Inclusive a própria China ficou evidente que tem flexibilidade nesse particular. Parece que o único país que não tem flexibilidade são os Estados Unidos.
Mas os Estados Unidos nunca tiveram essa flexibilidade. O que faz o mundo acreditar que possa vir a ter?
Bom, o problema é o seguinte: haverá, em um determinado momento, um constrangimento internacional muito forte sobre os Estados Unidos.
Esperar que isso ocorra para só então começar a pensar nas questões climáticas e ambientais não pode ficar tarde demais?
Pode ficar tarde para a humanidade, mas isso não exime os países de tomarem as suas iniciativas e com isso criar um constrangimento político e moral muito forte, que foi o que o Brasil fez. O Brasil fixou exigências, transformou-as em lei, e chegou lá com a agenda mais radical de todas. Nós vamos aplicar isso? Vamos. Se os outros não aplicarem, bom, paciência. Mau para a humanidade. A nossa parte nós estamos fazendo
O que falta para o Brasil deixar de ser a eterna potência emergente, o eterno país do futuro que nunca chega, para se tornar de fato uma potência mundial?
Em primeiro lugar eu não gosto muito da expressão potência mundial. Acho que o Brasil deixou de ser o eterno país do futuro, acho que o futuro chegou, um pouco. O futuro é uma construção. Nós estamos emergindo e vamos continuar a emergir. Há outros países que já são desenvolvidos que estão imergindo, estão afundando. O grande problema que nós temos aqui é o seguinte: nós começamos, a meu juízo, a enfrentar a questão chave que o País tinha que, de uma certa forma, abriu espaço para resolver as demais, que era questão social. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque nós éramos um país rico e profundamente desigual. E essa desigualdade não era simplesmente de renda. Era uma desigualdade de gênero, étnica, era uma desigualdade que se dava em termos regionais, em termos educacionais, assimetrias culturais e etc.
Nós começamos a resolver de forma importante a desigualdade social em termos de renda. E nós demos alguns passos importantes para resolver os temas das desigualdades regionais. Agora, isso é um processo que toma muito tempo e que dificilmente se cristaliza, porque esses 22 milhões que, segundo se diz, entraram para a classe média, eles não vão se contentar com os benefícios dessa suposta condição de classe média. Eles vão querer mais. É normal que assim seja. O País hoje tem mobilidade social. As pessoas não querem mais só entrar na universidade, elas querem entrar numa universidade de qualidade, elas querem uma escola secundária de qualidade, uma escola técnica de qualidade.
O próximo passo não seria o combate à corrupção?
Eu acho que o combate à corrupção aumentou e muito. Se a corrupção aparece mais hoje é porque mais tem sido combatida. Se você fizer um levantamento das iniciativas da Controladoria Geral da União e da Polícia Federal você vai ver o volume. Agora, eu quero sempre fazer uma diferença. Uma coisa é o combate à corrupção. Outra coisa é uma certa leitura que se faz desse combate hoje em dia, que eu acho que tem como função, não sei se explícita, em alguns casos sim, que é desacreditar a política. Há um esforço muito grande de desacreditar a política, que passa a ser uma área ardida, os políticos são as piores pessoas que existem no mundo...
De quem é esse esforço?
Você encontra na imprensa.
Mas veja o que acontece com o governo do Distrito Federal, por exemplo, e tantos outros casos espalhados pelo País. O senhor não acha que esse esforço vem dos próprios políticos?
O volume que esses temas ocupam no noticiário e a abordagem deles denotam concretamente uma incriminação da política como atividade humana. E ela é muitas vezes substituída por uma ideia de que ao invés da política nós devemos privilegiar a gestão. Uma gestão do tipo tecnocrática, apolítica e etc. Eu me preocupo muito com isso. Esse é um fenômeno mundial: uma tentativa de desacreditar a atividade política mundialmente. Claro que a corrupção tem que ser considerada como um problema grave, porque é antirrepublicana, tem que ser combatida. Mas que ela venha a ocupar um lugar que não ocupou nunca o tema da desigualdade social? Eu nunca vi nas manchetes dos jornais temas da desigualdade social, os temas da nossa dependência econômica, os temas da fragilidade da nossa soberania nacional, os temas da violência no campo, enfim, uma quantidade de outras questões que não têm a mesma incidência que os temas da corrupção têm.
Acho que muitas vezes o risco é de que você, ao jogar a água suja do banho, jogue a criança também. Eu tenho a impressão de que hoje em dia, se você tomar as pesquisas, você vai ver que uma das instituições mais desacreditadas do País é o Parlamento. Por quê? Com isso você obscurece totalmente a função de dezenas, centenas de parlamentares que estão lá trabalhando. Qual a avaliação que se faz do funcionamento do Parlamento? É se os deputados estão lá. Eu não sou parlamentar nem quero ser, mas acho que há uma enorme incompreensão. Ou então quando se fala dos salários dos funcionários. Os salários que nós ganhamos no serviço público brasileiro são absolutamente ridículos se comparados com os salários daqueles que escrevem sobre os nossos salários e que não são assalariados. Encontraram formas muito claras de ludibriar os impostos criando essas microempresas e coisas desse tipo. Eu acho que o jornalista tem que ganhar muito bem mesmo. Agora, não me venha falar dos nossos salários porque eles não são compatíveis com o tipo de trabalho que nós fazemos.
"O Brasil deixou de ser o eterno país do futuro, acho que o futuro chegou, um pouco. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque éramos um país rico e profundamente desigual. E essa desigualdade não era simplesmente de renda. Era uma desigualdade de gênero, étnica, que se dava em termos regionais, em termos educacionais, assimetrias culturais etc. Nós começamos a resolver a desigualdade social em termos de renda. E demos alguns passos importantes para resolver os temas das desigualdades regionais". A avaliação é de Marco Aurélio Garcia, Assessor da Presidência República para Assuntos Internacionais, em entrevista para a revista Desafios do Desenvolvimento, do IPEA
Desafios do Desenvolvimento (IPEA)
“Nós estamos emergindo e vamos continuar a emergir. Há outros países que já são desenvolvidos que estão imergindo, estão afundando. O grande problema que nós temos aqui é o seguinte: nós começamos, a meu juízo, a enfrentar a questão chave que o País tinha que, de uma certa forma, abriu espaço para resolver as demais, que era questão social. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque nós éramos um país rico e profundamente desigual”. A opinião é de Marco Aurélio Garcia, assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais em entrevista à Andréa Vieira e publicada revista Desafios do Desenvolvimento, janeiro-fevereiro/2010, do Ipea.
Eis a entrevista.
Em palestra no Ipea, o senhor afirmou que instituições internacionais estão caducas. Gostaria que o senhor explicasse essa posição.
Acho que tem três tipos de caducidade. Primeiro do ponto de vista dos pressupostos com os quais FMI e o Banco Mundial, mais particularmente o Fundo, trabalharam durante esses últimos anos. Eles foram muito lenientes no que diz respeito à desordem econômica internacional que estava se armando, estimulavam as ideias de desregulamentação, foram extremamente ortodoxos na cobrança de políticas austeras por parte dos países, sobretudo os pobres e emergentes, o que significou em grande medida que esses países se viram inviabilizados. E parece que algumas dessas questões persistem hoje. Se nós verificarmos os conselhos que foram dados, segundo o noticiário, pelo FMI para a Europa, agora nós vamos ver que uma das principais recomendações parece ser o corte de salários. Ora, a tendência em momentos de crise é impulsionar políticas heterodoxas, políticas anticíclicas! Então eu acho que esse problema que parecia superado depois da eleição do Dominique Strauss-Kahn para o FMI, ainda não está perfeitamente equacionado.
O segundo aspecto está ligado à operacionalidade dessas entidades muito burocratizadas. O atraso na rodada de Doha é um caso típico, em circunstâncias que num determinado momento as coisas estavam praticamente para ser resolvidas. Na última hora, no final da gestão Bush nos EUA e no limiar de uma eleição na Índia, as negociações fracassaram. O terceiro aspecto, também mais ligado à direção, porém mais tangível, é a questão da representatividade. Salvo a OMC, onde cada país tem um voto, nas outras entidades nós temos uma distribuição muito perversa das organizações de poder que não corresponde mais à correlação de forças internacionais, que ainda é acompanhada de uma prática habitual, uma espécie de um condomínio Europa-EUA.
É possível estruturar uma instituição multilateral realmente eficiente e representativa de todas as nações ou reorganizar as já existentes? Como seria?
Eu acho que isso deve ser tentado. Se nós praticarmos de forma mais intensa uma concepção multilateral das organizações internacionais, isso é factível. Agora, se nós acharmos que o mundo tem que ser regido por um grupo restrito de potências, não vai ser possível. A grande verdade é que essa alternativa da hegemonia de um grupo pequeno de potências também conduz a um impasse. Acho que o exemplo mais claro disso foi a reunião de Copenhague, onde tudo ficou bloqueado em grande medida por causa da decisão dos Estados Unidos no que diz respeito às metas de controle de emissão (de gases). Isso fez com que a Europa retrocedesse naquilo que ela havia proposto e deixou os outros países olhando o céu. O grande problema, se não houver essa democratização das organizações internacionais, é uma paralisação das relações internacionais. Isso não é bom.
A crise internacional expôs uma série de falhas do sistema financeiro mundial. Falou-se em regulação e fiscalização dos mercados, mas até agora nada foi feito. Por que isso é tão difícil?
É difícil porque fere interesses nacionais importantes e porque nós hoje enfrentamos uma crise de liderança mundial muito grande. Lembramos que o antecedente que nós tivemos foi a crise de 1929. No que diz respeito aos Estados Unidos, ela começou a ser enfrentada num primeiro momento com medidas extremamente corajosas, muito mais radicais, mas a grande
resolução da crise de 1929 foi a guerra. Então esse é um risco real.
Quando os países se reuniram em 1944, em Bretton Woods, para tentar definir uma nova arquitetura financeira internacional, eles estavam fazendo uma autocrítica da sua inação no que diz respeito a evitar os desdobramentos da crise. Quer dizer, antes que a guerra tivesse ocorrido e, como causa dessa guerra, inclusive, nós tivemos a ascensão do fascismo na Itália, a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, de uma certa forma a guerra civil espanhola, o êxito e depois o fracasso da experiência da frente popular na França, enfim, uma série de fenômenos que, sem dúvida nenhuma, qualquer historiador vai localizar nas origens da Segunda Guerra Mundial.
Caso nada seja feito nesse momento para estabelecer uma ordem econômica mais organizada e sustentável, o que pode acontecer?
O mundo pode se transformar num grande paiol de pólvora. E quando há um paiol de pólvora, qualquer fósforo produz uma explosão.
O senhor fala em guerra mesmo?
Por que não? Não quero ser catastrofista, mas eu acho que essa é uma das razões pelas quais, talvez, todos os esforços de neutralização dos pontos de tensão internacional são de fundamental importância.
Isso justifica a preocupação em aumentar a defesa do Brasil?
Eu não diria aumentar, mas adequá-la. Nós estávamos com um sistema de defesa que não correspondia mais às necessidades do País, entende? Nós precisamos ter adequação. Nós não precisamos ter forças armadas para desfile militar. Nós precisamos ter forças armadas para proteger o País. Acho que esse tema, grosso modo, está sendo colocado em quase todos os países da América Latina. Então, por essa razão, eu não vejo que a América Latina, em particular a América do Sul, seja uma região que possa ser capitulada como uma região de tensão internacional. Mas há outras regiões com focos de tensão que todos os dias estão se manifestando. O crescimento da economia chinesa será acompanhado ou não de uma estratégia de consolidação da China como potência militar? Não sei. É bem possível. As tensões que estão se produzindo agora entre China e Estados Unidos em função do refortalecimento dos armamentos de Taiwan? Há regiões de enorme tensão no mundo hoje como Paquistão, Afeganistão, Palestina...
Voltando a falar da economia mundial, ao que tudo indica, o Brasil adotou as medidas corretas para mitigar os efeitos da crise, tanto que foi um dos primeiros países a sair dela. No cenário financeiro internacional pós-crise, a imagem do Brasil mudou?
Eu acho que já vinha mudando anteriormente. Quando a crise eclodiu, o Brasil foi consultado imediatamente sobre que tipo de instância deveria ser criado. Eu lembro que eu estava com o presidente Lula quando o presidente Bush telefonou para ele e disse: "eu preciso fazer uma reunião aqui em Washington para organizar uma resposta à crise. Quem você acha que nós devemos convidar?" Ele nos consultou. Foi quando o presidente (Lula) disse: "eu acho que deveria ser o G 20 financeiro". Portanto, nesse momento, a imagem do Brasil já era fortalecida.
Em que proporção a crise na Europa preocupa o Brasil?
Olha, isso preocupa o Brasil por várias razões. Primeiro lugar porque isso afeta o equilíbrio da economia internacional como um todo. Se há uma retração da economia europeia, isso, sem dúvida nenhuma, afetará o conjunto da economia mundial. Os chineses serão afetados porque a China tem no espaço europeu um de seus mercados importantes.
Falando em China, o que o Brasil pode fazer para melhorar o comércio com a China, tendo em vista que essa relação comercial acaba sendo desfavorável ao Brasil, que exporta apenas commodities para o gigantesco mercado chinês?
Primeiramente, eu acho que nós não devemos ter vergonha de exportar commodities. O ruim é quando a gente não exporta nada. O problema brasileiro é que nós estamos fazendo, nos últimos anos, uma certa reconversão da economia brasileira, fazendo com que o processo de industrialização seja um processo não só de crescimento quantitativo, mas de sofisticação qualitativa. Isso implica agregar mais valor. E é claro que no caso da China, salvo em alguns nichos muito particulares, nós vamos enfrentar dificuldades em aumentar nossas exportações por uma razão muito simples: a China realiza aquilo que nós também realizamos em escalas muitas vezes superiores: eles produzem automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos em escala muito maior do que a nossa. Nós temos algumas formas de entrada na China da indústria de alto valor agregado como é o caso da nossa indústria aeronáutica. Mas a produção agrícola, por exemplo, é um trunfo extraordinário que o Brasil tem. Não quero dizer com isso que não vamos melhorar nossa indústria, que não vamos adotar uma política industrial mais agressiva, que não vamos enfrentar a questão da inovação tecnológica, que é fundamental.
O Brasil, que já liderava a missão de paz no Haiti, está tendo uma atuação muito efetiva na ajuda ao país depois da tragédia causada pelo terremoto. Que efeitos essa atuação produzirá para o Brasil no cenário internacional?
Nós estamos fazendo isso, em primeiro lugar, porque nós incorporamos a solidariedade como valor a ser defendido na nossa política externa. Da mesma forma que nós buscamos a defesa da paz, defesa dos direitos humanos, relações internacionais menos assimétricas, menos desequilibradas, temos também como um dos valores a solidariedade. O Haiti é um país com o qual nós temos grande afinidade, é um país de população negra, como é o caso do Brasil.
Por que é tão importante para o Brasil ter um assento permanente no conselho?
Por uma razão muito simples: nesse conselho é que se resolvem as questões da segurança global. Nós não estávamos discutindo no começo que o mundo pode correr um risco de uma conflagração regional ou mais global, seja pela incapacidade dos governos se porem de acordo, seja pelo progresso abusivo de uma situação conflitiva? Quem coopera nessas circunstâncias? Só pode ser o Conselho de Segurança. Nós, inclusive, temos uma visão hoje crítica ao funcionamento das Nações Unidas. Nós achamos que as Nações Unidas deveriam assumir concretamente a condição de organismo regulador da paz mundial.
Por que isso não acontece?
Isso não está acontecendo porque as Nações Unidas foram enfraquecidas, porque durante um certo período predominou uma orientação estritamente unilateralista da política norte-americana. Então nós precisamos de organismos mais legitimados. Em muitas das crises mundiais recentes, o Conselho de Segurança ficou sobrepassado. O caso do Iraque é um caso claro. Ele não apoiou a invasão, mas saiu debilitado porque a invasão se deu sem a opinião dele. Nós precisamos de um conselho de segurança mais amplo, mais representativo. Vai ser rápido? Não, não vai. Até que caia a ficha de alguns países que o mundo não é mais propriedade exclusiva deles, vai levar algum tempo.
É fato que o Brasil está se aproximando cada vez mais e ganhando respeito das grandes economias. Por outro lado, há a sensação de que o Brasil está se distanciando da América Latina. Não está?
O Brasil não está alheio. Nós temos instâncias de participação. A primeira instância que é o Mercosul, que atravessa, a meu juízo, dificuldades hoje, não tantas quanto se diz. Acho que nós deveríamos pensar seriamente no fortalecimento institucional do Mercosul. Não há possibilidade de um processo de integração avançar se nós não temos instituições fortes. As instituições hoje de Montevidéu são muito frágeis, muito pequenas. Depois nós temos uma outra instância de intervenção sul-americana que é a Unasul. Eu diria que hoje, talvez, nós estejamos avançando com o ritmo que se impõe. O processo de integração energética, a constituição do Banco do Sul, que está decidida mas ainda tem uma certa tardança na implementação, os processos de integração física, tudo isso tem sido muito mais resultado de ações unilaterais, bilaterais, às vezes trilaterais, do que efetivamente uma política. Então há uma crise de governança tanto do Mercosul quanto da Unasul que é preciso resolver. Agora eu não acho que nós temos nos afastado da região. Pelo contrário. Nós temos uma relação muito solidária.
O bloco corre o risco de acabar?
Em primeiro lugar não vai acabar porque, entre outras coisas, do ponto de vista econômico, a integração da região produz resultados muito fortes. Do ponto de vista político, a presença, a intervenção de forças regionais em crises políticas internas, a meu juízo, só se justifica quando essas crises se transformam em crises agudas. Eu vou dar dois exemplos. Quando houve um forte processo de desestabilização na Venezuela em 2002/2003, foi criado aquele grupo de amigos da Venezuela, que ajudou muitíssimo e conduziu o processo de estabilização do país. Quando a Bolívia esteve à beira de uma guerra civil, a Unasul fez aquela reunião em Santiago do Chile e interveio no sentido de respaldar o governo.
A expansão de bases norte-americanas na América Latina foi criticada pelo governo brasileiro. As relações entre Brasil e EUA ficaram abaladas por essa razão?
Não. Acho negativa a existência de bases norte-americanas na região. É algo que cria tensões aqui. Isso nós dissemos de forma muito franca, muito clara ao presidente Uribe quando ele esteve aqui, depois em reunião na Argentina. Nós gostaríamos que os problemas da região fossem resolvidos no âmbito da região. No caso da Colômbia, um país que vive uma situação de crise interna pela existência das Farc e outras guerrilhas, nós não temos condições de participar de um esforço militar lá. Mas nós sim, temos condições de participar, já deixamos claro isso, num esforço de paz. Tudo que nós pudermos fazer para lograr a paz lá, nós faremos.
Como ficam outros países da região?
Eu tenho a impressão de que outros países se sintam incomodados. E nós mesmos, inclusive a partir da leitura de alguns documentos oficiais, ficamos preocupados. Há documentos oficiais dos Estados Unidos que falam das bases como tendo a possibilidade de uma projeção militar no resto do continente. Isso nos inquieta.
Mudando de região. Além de muitas críticas, que benefício o Brasil teve com a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
Você poderia me perguntar por que nós recebemos o Shimon Peres e outros...
Eu ia chegar lá.
Primeiro lugar porque nós temos relações muito amplas, com muitos países. O Brasil ampliou consideravelmente as suas embaixadas pelo mundo e o mundo ampliou consideravelmente as suas embaixadas aqui. Segundo lugar, tanto o Irã quanto Israel, quanto a Palestina, são regiões que eu incluiria nessas regiões problemáticas do mundo. Quando nós começamos o governo, com a ameaça do desencadeamento da guerra no Iraque, não se tinha a ideia do que poderia acontecer. Como o Saddam Hussein era muito falastrão e ameaçava mundos e fundos, uma hipótese de trabalho que nós operamos aqui foi de que uma guerra desse tipo pudesse implicar ameaças das mais variadas. Desencadeamento de terror mundial... Criou-se aqui um trabalho na Presidência que estudava todas essas hipóteses e, inclusive, as medidas que deveriam ser adotadas. Eu tenho absoluta certeza de que o agravamento do conflito na Palestina ou o eventual desencadeamento de uma situação mais grave com o Irã seria algo de consequências terríveis.
Realmente vale a pena o Brasil se aproximar de uma questão tão complexa e tumultuada como são as relações existentes no Oriente Médio? Não é um desgaste inútil?
Não. Pelo contrário. Eu acho que um desgaste seria não participar. Dizer que essa é uma situação que não nos interessa... Não nos interessa até o dia em que isso nos cair em cima. E se nós queremos ser, como se diz, um global player, se nós queremos abandonar o eterno complexo de vira-lata, de ficar preocupados só com o nosso mundinho, nós temos que ter uma atenção para isso. Eu acho engraçado o seguinte: esses mesmos setores que criticam que nós estamos discutindo com o Ahmadinejad ou que estamos recebendo o presidente Mahmoud Abbas (Palestina), ou o presidente Shimon Peres (Israel), este em geral menos criticado, são aqueles que dizem: "vocês ficaram indiferentes ao genocídio na África e em tal país". Nós não ficamos indiferentes. Nós votamos medidas nos fóruns internacionais. Eu estou convencido de que se não se chegar a uma solução da crise do Irã, nós corremos um grave risco para a paz mundial. Essa não é só a minha opinião. Essa é a opinião de grandes dirigentes mundiais com os quais eu tive a oportunidade de estar.
Como o senhor avalia a posição dos Estados Unidos?
Eu tenho certeza de uma coisa: ajudar não está ajudando porque essas coisas estão se alastrando há muito tempo. E o que é interessante observar é o seguinte: é justo, do ponto de vista de uma ordem internacional que nós queremos multilateral, que um país se ocupe de resolver todas crises do mundo? Que esteja presente em Honduras, no Paquistão, no Afeganistão, no Iêmen, na Palestina, no extremo oriente... É justo isso? Ou a melhor coisa é efetivamente criar um espaço de negociação mais plural? Nós não estamos pedindo isso para nós. A nossa presença tem esse sentido de incorporar outros, tem o sentido de fortalecer o multilateralismo.
O presidente Lula sempre defendeu mais ajuda e aproximação com a África, mas quem acabou assumindo esse papel foi a China, que está investindo de fato no continente. Como fica o Brasil agora?
Mas nós não estamos competindo com a China na África. A China está fazendo o que considera mais adequado. Eu sei que muitos países não gostam desse tipo de presença. Não gostam, por exemplo, que uma represa que está sendo construída pela China seja construída por cinco mil operários chineses que ficam em barcos ao largo e que vão sendo transportados todos os dias. Nós não fazemos isso. As obras que as empresas brasileiras estão construindo no continente africano são obras construídas mais de 95% por africanos. Nós estamos criando empregos na África. E também nós não temos necessidades que a China tem. A China vai buscar petróleo na África. Nós não precisamos buscar petróleo fora do Brasil. Mas até temos explorações em Angola, na Nigéria, e em outros lugares. A China vai buscar minérios. Nós não precisamos buscar minérios lá. Nós temos minérios.
Na reunião de cúpula de Copenhague, os países não chegaram a nenhum acordo sobre as questões climáticas. Qual a probabilidade de o próximo encontro ser bem sucedido?
Eu diria que obviamente os Estados Unidos terão uma responsabilidade muito grande nisso, porque, sendo o país responsável pelo maior número de emissões, cabe a ele chegar com metas concretas. As metas que os Estados Unidos estabeleceram até agora são ridículas. Elas tiveram reflexo também no próprio comportamento da União Europeia, como já mencionei. A União Europeia tinha metas mais ambiciosas, mas como viu que os Estados Unidos estavam na retranca, de certa maneira diminuiu as metas dela, encolheu a proposta. Eu acho que se todo mundo subir a sua missão no que diz respeito à redução, nós teremos efetivamente mais possibilidade de chegar a um acordo. Inclusive a própria China ficou evidente que tem flexibilidade nesse particular. Parece que o único país que não tem flexibilidade são os Estados Unidos.
Mas os Estados Unidos nunca tiveram essa flexibilidade. O que faz o mundo acreditar que possa vir a ter?
Bom, o problema é o seguinte: haverá, em um determinado momento, um constrangimento internacional muito forte sobre os Estados Unidos.
Esperar que isso ocorra para só então começar a pensar nas questões climáticas e ambientais não pode ficar tarde demais?
Pode ficar tarde para a humanidade, mas isso não exime os países de tomarem as suas iniciativas e com isso criar um constrangimento político e moral muito forte, que foi o que o Brasil fez. O Brasil fixou exigências, transformou-as em lei, e chegou lá com a agenda mais radical de todas. Nós vamos aplicar isso? Vamos. Se os outros não aplicarem, bom, paciência. Mau para a humanidade. A nossa parte nós estamos fazendo
O que falta para o Brasil deixar de ser a eterna potência emergente, o eterno país do futuro que nunca chega, para se tornar de fato uma potência mundial?
Em primeiro lugar eu não gosto muito da expressão potência mundial. Acho que o Brasil deixou de ser o eterno país do futuro, acho que o futuro chegou, um pouco. O futuro é uma construção. Nós estamos emergindo e vamos continuar a emergir. Há outros países que já são desenvolvidos que estão imergindo, estão afundando. O grande problema que nós temos aqui é o seguinte: nós começamos, a meu juízo, a enfrentar a questão chave que o País tinha que, de uma certa forma, abriu espaço para resolver as demais, que era questão social. Por que nós éramos o eterno país do futuro? Porque nós éramos um país rico e profundamente desigual. E essa desigualdade não era simplesmente de renda. Era uma desigualdade de gênero, étnica, era uma desigualdade que se dava em termos regionais, em termos educacionais, assimetrias culturais e etc.
Nós começamos a resolver de forma importante a desigualdade social em termos de renda. E nós demos alguns passos importantes para resolver os temas das desigualdades regionais. Agora, isso é um processo que toma muito tempo e que dificilmente se cristaliza, porque esses 22 milhões que, segundo se diz, entraram para a classe média, eles não vão se contentar com os benefícios dessa suposta condição de classe média. Eles vão querer mais. É normal que assim seja. O País hoje tem mobilidade social. As pessoas não querem mais só entrar na universidade, elas querem entrar numa universidade de qualidade, elas querem uma escola secundária de qualidade, uma escola técnica de qualidade.
O próximo passo não seria o combate à corrupção?
Eu acho que o combate à corrupção aumentou e muito. Se a corrupção aparece mais hoje é porque mais tem sido combatida. Se você fizer um levantamento das iniciativas da Controladoria Geral da União e da Polícia Federal você vai ver o volume. Agora, eu quero sempre fazer uma diferença. Uma coisa é o combate à corrupção. Outra coisa é uma certa leitura que se faz desse combate hoje em dia, que eu acho que tem como função, não sei se explícita, em alguns casos sim, que é desacreditar a política. Há um esforço muito grande de desacreditar a política, que passa a ser uma área ardida, os políticos são as piores pessoas que existem no mundo...
De quem é esse esforço?
Você encontra na imprensa.
Mas veja o que acontece com o governo do Distrito Federal, por exemplo, e tantos outros casos espalhados pelo País. O senhor não acha que esse esforço vem dos próprios políticos?
O volume que esses temas ocupam no noticiário e a abordagem deles denotam concretamente uma incriminação da política como atividade humana. E ela é muitas vezes substituída por uma ideia de que ao invés da política nós devemos privilegiar a gestão. Uma gestão do tipo tecnocrática, apolítica e etc. Eu me preocupo muito com isso. Esse é um fenômeno mundial: uma tentativa de desacreditar a atividade política mundialmente. Claro que a corrupção tem que ser considerada como um problema grave, porque é antirrepublicana, tem que ser combatida. Mas que ela venha a ocupar um lugar que não ocupou nunca o tema da desigualdade social? Eu nunca vi nas manchetes dos jornais temas da desigualdade social, os temas da nossa dependência econômica, os temas da fragilidade da nossa soberania nacional, os temas da violência no campo, enfim, uma quantidade de outras questões que não têm a mesma incidência que os temas da corrupção têm.
Acho que muitas vezes o risco é de que você, ao jogar a água suja do banho, jogue a criança também. Eu tenho a impressão de que hoje em dia, se você tomar as pesquisas, você vai ver que uma das instituições mais desacreditadas do País é o Parlamento. Por quê? Com isso você obscurece totalmente a função de dezenas, centenas de parlamentares que estão lá trabalhando. Qual a avaliação que se faz do funcionamento do Parlamento? É se os deputados estão lá. Eu não sou parlamentar nem quero ser, mas acho que há uma enorme incompreensão. Ou então quando se fala dos salários dos funcionários. Os salários que nós ganhamos no serviço público brasileiro são absolutamente ridículos se comparados com os salários daqueles que escrevem sobre os nossos salários e que não são assalariados. Encontraram formas muito claras de ludibriar os impostos criando essas microempresas e coisas desse tipo. Eu acho que o jornalista tem que ganhar muito bem mesmo. Agora, não me venha falar dos nossos salários porque eles não são compatíveis com o tipo de trabalho que nós fazemos.
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