domingo, 27 de setembro de 2009

Engenharia Alienigena 4

video

A Mente

A mente do homem é muito mais forte do que se possa imaginar.Bastou um pensamento do homem para se criar máquinas,aparelhos avançados e até robôs.
A mente humana é capaz de restaurar um órgão com uma perfeição divina.Querer é poder.Se você quer,você pode.

sábado, 26 de setembro de 2009

Revolução cubana

enviado a mim por attamahn e redirecionado ao blob

Historias da Revolução cubana: Adios, vice-presidente Jorge Risquet
"Fazia um calor sufocante no solar onde viviam Jorge, os pais e quatro irmãos - outros três já tinham morrido de doenças infantis hoje já desaparecidas em Cuba e perfeitamente curáveis - em Havana. A grande casa tinha 24 quartos e em cada um deles, sem banheiro, vivia uma família. Era gente demais, todos muito pobres, a maioria trabalhadores de diversos ofícios, alguns informais. O pai de Jorge trabalhava numa "tabaquera", empresa de fabricação do charuto cubano. Mas foi essa babel que possibilitou ao menino de 11 anos começar a vida de professor, ganhando, inclusive, o suficiente para pagar o quarto onde morava a família toda. "Nós estávamos sempre nos mudando porque meus pais não conseguiam pagar os aluguéis". Então, para ajudar nas despesas Jorge e a irmã improvisaram uma lousa no pequeno quarto onde viviam e ensinavam os demais garotos do solar que não podiam ir à escola, porque era longe e eles não tinham sequer um sapato para usar. Cobravam alguns trocados, mas com isso garantiam o aluguel. O menino era Jorge Risquet Valdés, que mais tarde veio a ser um dos organizadores da educação na guerrilha cubana e um dos comandantes da campanha de Cuba na África, nos anos 60. Naqueles dias, ele, que era um dos melhores alunos da escola fundamental, já estava apto para passar ao ensino médio. Mas, para estudar na Cuba pré-revolucionária, era preciso ter dinheiro. Sem chance, ele, então com 13 anos, foi buscar os cursos oferecidos gratuitamente pela Juventude Revolucionária Cubana. Apesar da pouca idade Jorge não era um analfabeto político. Os pais, trabalhadores do tabaco, tinham profunda consciência de classe. É que em Cuba, na produção de charuto era assim: as pessoas ficavam ali, enrolando as folhas, no mais completo silêncio. Por conta disso, os trabalhadores inventaram um bom jeito de se instruir e ficar por dentro da literatura revolucionária. Faziam uma "vaquinha" e contratavam um leitor, alguém que ficava ali, lendo, enquanto todos trabalhavam. "O leitor trazia uma lista de títulos e os trabalhadores escolhiam. Liam Gorki, Vitor Hugo, Cervantes Martí, Tolstoi e muitos outros". Pois foi por conta destas leituras que a família Risquet sempre esteve em dia com os temas do mundo. O irmão mais velho de Jorge, inclusive, alistou-se para ir à Espanha lutar contra a ditadura de Franco. Cerca de mil cubanos foram. Então, durante a segunda guerra e o horror nazista, Jorge já estava envolvido até os dentes na organização da juventude revolucionária. Quando em 1944 funda-se em Cuba a Juventude Socialista, Jorge está lá e toma para si a tarefa de organizar os jovens num grande bairro de Havana. No ano seguinte, durante o Congresso Nacional Constituinte da Juventude, ele, com 15 anos, é eleito membro do Comitê Central. Aos 16 anos de idade Jorge comanda o jornal quinzenal "Mella", que levava o nome de um grande comunista cubano, e ali ficou até os 20 anos. "Os trabalhadores cubanos sempre foram muito politizados. Para se ter uma idéia, quando Lênin morreu, as tabaqueiras pararam em sua homenagem, e nas guerras de independência do século XIX entregavam dinheiro - um dia de salário por semana - para comprar armas, tarefa que o partido Revolucionário Cubano, fundado por José Martí, realizava para preparar a terceira e última guerra de independência de Cuba. Em 1951, quando acontece o golpe de estado que eleva Batista ao poder, Jorge é um dos que se manifesta contra pelo rádio, na região de Matanzas onde encabeçava a Juventude Socialista e a polícia o persegue. Meses mais tarde vai para o exterior como representante da Juventude Socialista cubana na Federação Mundial da Juventude Democrática. Nesta função ele circula pela América Latina, Europa central e Leste europeu. É em 1952, em Viena, na Conferência Mundial pelos Direitos da Juventude que Jorge conhece o jovem Raul Castro, então com 21 anos e representando a delegação cubana no evento. Dali eles atravessam a cortina de ferro e seguem para Bucareste, onde iriam organizar o Comitê Preparatório do Festival Mundial da Juventude. Lá ficam de dezembro de 52 a abril de 53. Raul segue para Paris de onde embarca para Cuba com dois guatemaltecos. Mas, o fato de os dois companheiros terem desembarcado cheios de livros "subversivos" fez com todos acabassem presos. Os guatemaltecos logo saíram por intervenção da embaixada do seu país, ainda sob o comando de Jacob Arbenz. Mas Raul ficou. Foi um brilhante jovem advogado quem entrou com um habeas corpus que tirou Raul da cadeia pouco menos de um mês do ataque ao quartel Moncada, que desataria a revolução cubana. O advogado bom de conversa era Fidel Castro. "Por pouco Raul não perde a ação de Moncada". Quando acontece Moncada Risquet está Bucareste, justamente nos dias do IV Festival Mundial e já começa a articular uma campanha internacional pela libertação dos prisioneiros, afinal Raul era um membro da juventude e organizador do festival. Foi por aqueles dias de organização de campanhas e festivais que Jorge conhece, em Bucareste, o jovem estudante de medicina Agostinho Neto que mais tarde viria a ser uma das mais importantes lideranças de libertação da África negra. Junto com ele, freqüentando os alojamentos latino-americanos - embora representassem Portugal - iam também a Marcelino dos Santos. Em 1954 Jorge embarca para Guatemala, onde ia organizar um festival regional de apoio ao processo revolucionário, mas o golpe e a queda de Jacob Arbenz, impede que o mesmo aconteça. É naqueles dias que Risquet conhece Che Guevara, então vivendo no país. "A ditadura na Guatemala foi uma das mais ferozes. Foram 30 anos matando gente, mais de duzentos mil mortos". Risquet logo sai da Guatemala em setembro de volta para Europa e Che segue para o México, onde encontraria Fidel. Nos primeiros meses de 1955, Jorge veio para o Brasil, onde tentou organizar um encontro de estudantes no Rio de Janeiro, mas foi espinafrado por Carlos Lacerda. Foi Jânio Quadro, então governador de São Paulo, quem permitiu o festival, que acabou sendo bem pequeno, mas cumprindo com os objetivos. A guerrilha em Cuba Todo este trabalho organizativo na juventude comunista desde os 13 anos de idade acabou sendo a porta de entrada de Jorge Risquet para a atuação na luta que se forjava em Cuba. No ano de 1955 ele volta para a ilha clandestinamente e passa a comandar a Juventude de Havana. Por conta de sua atuação acaba preso em dezembro de 56 e chega a ser dado como desaparecido. Nestes dias é brutalmente torturado, tendo as unhas arrancadas, mas não lhe arrancam qualquer informação. Quando consegue sair, volta a atuar clandestinamente organizando a juventude. Depois sai de Cuba, disfarçado, para organizar reuniões com os partidos comunistas no México, Caribe e Venezuela. "A idéia era dar a conhecer sobre Fidel, quem ele era, o que pretendia, e buscar apoio para a luta em Cuba". Quando a guerrilha é instalada na Sierra Maestra, logo começa a expandir-se para outras regiões do país. Raul funda então a "segunda frente" e manda buscar Risquet para coordenar a criação de uma Escola de formação. A proposta era tornar os rebeldes sujeitos conscientes sobre contra o quê estavam lutando. "A gente trabalhava no sentido de fazer compreender que o combate era contra o imperialismo. E, naqueles dias, sob o comando da "segunda frente" tínhamos mais de 11 mil quilômetros quadrados de território liberado. As escolas proliferaram".. Jorge Risquet fez-se então o primeiro formador político do exército rebelde no Oriente e quando a revolução triunfou ocupou o cargo de chefe do Departamento de Cultura do Exército do Oriente publicando revistas e preparando quadros para o governo revolucionário. E assim foi até 1965, organizando, na região oriental, o novo Partido Unido da Revolução, hoje chamado Partido Comunista. Mas, no mês de junho, ele recebe um chamado de Fidel. Diz o comandante que Che Guevara está no Congo, ajudando na luta por libertação, e que precisa de mais uma coluna de combatentes por lá. É quando começa a se formar o batalhão Patrício Lumumba, que seria comandado por Risquet. A gesta africana Enquanto Cuba encerrava a luta heróica contra a ditadura de Batista, lá do outro lado do mundo outro povo vivia a tarefa de se libertar das colônias européias. Em 1960, o Congo belga logrou sua independência sob o comando de um jovem negro, Patrice Lumumba. Mas, pouco depois de ser eleito primeiro-ministro e iniciar uma mudança radical no país em busca de melhorias para o povo, Lumumba foi preso, torturado e assassinado depois de um golpe de estado promovido com a ajuda da CIA, dos Estados Unidos. Também em 60 a França concede a independência ao outro lado do Congo, chamado de Congo francês. Mas quem fica na presidência é um vassalo, Folbert Youlou, que governa com mão de ferro até 1963, quando com revolta popular, o governo cai e acontecem eleições. Massemba Debat é eleito presidente. No lado belga, os partidários de Lumumba seguiam lutando contra a ditadura e os acontecimentos na parte francesa acendem esperanças de verdadeira libertação, até então não acontecida. Em 1964, a região era um caldeirão explosivo. Mercenários brancos chegavam ao Congo belga com o apoio dos Estados Unidos e regressa ao poder Moises Tshombe, um conhecido anticomunista que ajudara na captura e no assassinato de Patrice Lumumba. É quando o governo do Congo francês pede ajuda a Cuba para que mande alguém capaz de treinar o exército local, uma vez que se aproximava a possibilidade de uma guerra entre os dois Congos. Quem vai à África, em janeiro de 1965 é o próprio Che Guevara, que se encontra com Debat e com o então presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola, Agostinho Neto, para ouvir dos dois comandantes como estava a situação. Assim, em abril do mesmo ano, Che retorna com um pelotão de 14 soldados cubanos - que semanas depois seriam 120 - chamado de Coluna Um, e entra na África pela Tanzânia. A proposta é treinar os lumumbistas e também os combatentes da Frente de Libertação de Moçambique. Meses depois, era a vez de embarcar para África a Coluna Dois, esta dirigida por Jorge Risquet, com mais 250 homens. "Nós fomos ajudar militarmente na integridade territorial, na luta contra o colonialismo, contra o racismo, contra o apartheid. Era uma obrigação histórica visto que daquele continente saíram mais de um milhão e 300 mil homens e mulheres, levados para Cuba como escravos. Em Cuba, estávamos começando a organizar nossa própria casa, mas não podíamos deixar de ajudar". Poucos anos depois da vitória cubana, o internacionalismo já aparecia como uma marca do novo governo. E foi muito em função desta participação de Cuba nas lutas de libertação africana que o processo revolucionário naquele continente cresceu.. Desde aqueles dias dos anos 60, 380 mil soldados cubanos passaram pela África, além de 100 mil outros colaboradores nas áreas da saúde e educação e outras. Dois mil e setenta e sete cubanos caíram em combate no solo africano e são considerados heróis nacionais. "Nós, em Cuba, não damos o que nos sobra. Compartilhamos o que temos, e assim foi com a África." Também neste período, mais de 35 mil jovens africanos foram a Cuba estudar, sem qualquer custo. "Nossa contribuição também se dá na formação e assim vamos caminhando junto com a África que está a 10 mil quilômetros de Cuba, mas também está no nosso sangue". Jorge Risquet lembra que o internacionalismo é algo que faz parte da consciência do cubano, e não é coisa que ocorre só depois da revolução dos anos 50. Martí já ensinara que "pátria es humanidad". Por conta disso vão-se encontrar cubanos lutando com Lincoln, pela libertação dos Estados Unidos, com Benito Juarez, pela libertação do México, com Simón Bolívar. "Na guerra do Vietnã mais de 400 mil cubanos se inscreveram, por livre vontade, para lutar junto ao povo daquele país. Só não foram porque os vietnamitas não quiseram. O internacionalismo é uma razão ética e política. Se nós em Cuba logramos ter assistência médica perfeita e educação de altíssima qualidade, por exemplo, é nosso dever levar isso aos irmãos que ainda não têm". A participação cubana na África se estendeu do Congo para Angola, onde também foram treinar jovens soldados e ajudar Agostinho Neto na luta contra o domínio português e os mercenários. Depois, nos anos 70, lá estavam outra vez os cubanos, sob o comando de Risquet, com instrutores militares, médicos e professores. "Passado meio século, a gente vê que Cuba esteve esse tempo todo na solidariedade com a África, desde o golpe contra Argélia em 1963, quando mandamos para lá todas as armas apreendida dos estadunidenses durante a fracassada invasão de Playa Girón, e retornamos com 100 crianças órfãs de guerra. Estivemos peleando com o fuzil na mão, mas também com a presença civil de médicos, professores e engenheiros". A Cuba de hoje O povo cubano segue fielmente a lição de Martí, e considera toda humanidade como pátria. Por isso se desdobra em levar seus avanços na ciência e na educação para aqueles que ainda não lograram as vitórias que Cuba já conquistou. Atualmente existem 27 mil cubanos na Venezuela, e outros milhares espalhados por vários países, principalmente no campo da saúde. Seguem três mil em Angola, sendo que 900 são médicos, fazendo a diferença. Não foi à toa que Jorge Risquet recebeu a grata surpresa de ouvir, no auditório da Universidade Federal em Santa Catarina, o depoimento de dois angolanos sobre como haviam sido operados por médicos cubanos e alfabetizados por professores, também de Cuba. Desde a revolução de 59, mais de 100 mil estudantes de vários países de África, América Latina e Ásia fizeram sua graduação em Cuba, todos com bolsa integral. "Quando tivemos um tempo bem ruim (a partir de 1991 com o desaparecimento da União Soviética e do campo socialista da Europa) nós perguntamos a eles se queriam ficar e dividir a pobreza conosco. Nunca os abandonamos". Risquet conta que dos 55 países africanos, 54 têm relações com Cuba. Em Havana existem 20 embaixadas de países africanos e Cuba está em 30 deles. Todos estes países sempre votaram contra o bloqueio criminoso que os Estados Unidos têm contra Cuba e há comitês de apoio a Cuba em quase todos os países africanos. A Namíbia, recentemente, enviou dois milhões de dólares em ajuda a Cuba e até o Timor Leste ajudou, depois da passagem de um furacão. "A África sabe o tanto que Cuba lutou pela sua libertação e reconhece isso. Na Etiópia existe um monumento ao soldado cubano e na África do Sul, num outro monumento que recorda os mortos das lutas libertadoras, estão gravados os nomes dos 2.077 cubanos que deram seu sangue pela pátria africana. Outro dia, na Namíbia, o presidente Raul Castro foi recebido pelo povo, que cantava Guantamera (em espanhol). Isso mostra o quanto África ama Cuba". Jorge Risquet, que foi o homem de Cuba em toda a campanha militar africana tem agora 79 anos de idade. Desde aqueles dias em que dava aula para os meninos pobres do solar, onde vivia em um quarto apertado, já se vão 68 anos. É tempo demais. Mas, o garoto que correu o mundo a organizar a juventude comunista, que comandou batalhões na grande África, que fundou escolas e jornais, que foi Ministro do Trabalho, Deputado e Membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, (desde sua criação há 44 anos) segue tão animado quanto naqueles dias gloriosos dos anos 60. Diariamente ele sai cedinho de casa e vai para o trabalho, no gabinete do presidente Raul Castro. É que há tantas coisas ainda para conquistar. Ele olha para a América Latina e vê tantas mudanças, a Venezuela, o Equador, a Bolívia, os povos em luta. E se emociona. "Cuba esteve um tempo sozinha por aqui, mas resistiu. Cuba resistiu a Bush. E vamos seguir acreditando na capacidade do povo de se organizar e conquistar sua liberdade. Veja a América Latina agora, nunca se viu um movimento como este. Mas, sabemos que o inimigo atua, o imperialismo tem planos e pode haver retrocesso. Aí está Honduras, a IV Frota, as sete bases militares ianques na Colômbia. Há que ver o perigo, mas há também que ser otimistas. Cada país, com seu povo, há de encontrar o rumo seguro para uma vida soberana".

Frei Bento

enviado a mim por attmahn e redirecionado ao blog


Entrevista a Frei Betto: ‘É essencial apostar em novos paradigmas de civilização


Adital -

Tradução: ADITAL

Por Sergio Ferrari e Beat Tuto Wehrle

"A loteria biológica é tremendamente injusta"
"Necessitamos novos referentes de sociedade e de planeta"
"a cooperação Norte-Sul exige mais modéstia"
"As vítimas do planeta nos vão obrigar a mudar"
"O golpe de Honduras empena a nova democracia latinoamericana"

Em meio à crise econômica e financeira generalizada, o planeta deve buscar novos paradigmas de civilização, incluindo a esfera da cooperação internacional. Esses novos referentes de relações planetárias devem estar embebidos de uma ética diferente, baseada no partilhar e no respeito mútuo entre povos e nações. Tese defendida pelo teólogo brasileiro da libertação Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como Frei Betto. Ele acaba de visitar a Suíça, onde participou na celebração dos 50 anos de E-CHANGER (Intercambiar), organização suíça de cooperação solidária, da qual é assessor e contraparte há muitos anos. A situação atual da nova democracia popular latinoamericana -empanada somente pelo golpe de Estado em Honduras-; o papel motor dos movimentos sociais; a importância da luta contra a fome e seus obstáculos reais são alguns dos temas centrais dessa entrevista exclusiva. Frei Betto, 65 anos, religioso dominicano, é escritor e jornalista; assessor dos movimentos populares de seu país e ativo militante social. Foi, durante dois anos, conselheiro pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, abandonando seu governo quando o Programa "Fome Zero", que coordenava, "deixou de ser um programa de emancipação para converter-se em um meio compensatório com cálculo eleitoral".

Confira a entrevista:

P: A crise mundial preocupa a comunidade internacional em seu conjunto. As respostas até agora têm sido efetivas?

FB: Tenho muitas dúvidas de que os dirigentes das principais potências mundiais tenham uma real preocupação de alcançar soluções de fundo. A Cúpula do G-8 (das oito nações mais industrializadas e a Rússia), realizada recentemente em L’Áquila, Itália, não contribuiu significativamente.

P: No entanto, o G-8 acordou 15 bilhões de dólares para enfrentar a pobreza. Entre setembro de 2008 e mediados de 2009, os mesmos dirigentes destinaram mil vezes mais para salvar o sistema financeiro. Com um olhar crítico, podemos concluir que estão mais preocupados em salvar o sistema do que a humanidade em seu conjunto. Isso é de um cinismo terrível...
Dois em cada três habitantes do mundo vivem na pobreza e isso é um fato objetivo ao qual não se dá resposta. Não se pode aceitar que 950 mil homens e mulheres tenham fome; que 23 mil pessoas morram por dia devido a fome, a maioria dos quais são crianças.

A CRISE TAMBÉM É ÉTICA

P: Como explica essa realidade?

FB: A atual situação desnuda uma profunda crise ética de fundo que toca todas as esferas das relações entre nações e que obriga a pensar novos paradigmas. Insisto: os poderosos querem salvar o sistema e não a humanidade.
A loteria biológica pela qual um nasce na Suíça ou nos Estados Unidos e não nasce em uma favela de são Paulo (Brasil) ou na Eritrea, é absolutamente injusta. E em vez de sentir-nos privilegiados por essa casualidade biológica, deveríamos sentir em grande dívida social em relação aos que sofrem fome e atuar em correspondência.

P: Uma realidade mundial que, então, não consegue sensibilizar realmente o planeta?

FB: Os países industrializados, os mais enriquecidos estão particularmente preocupados porque a crise ameaça seu nível de consumo, que é absurdo. Se quiséssemos generalizar o consumo do Norte para todo o Globo, necessitaríamos 3 ou 4 planetas Terra para ter suficientes recursos. Cometemos um erro ao pensar que o melhoramento das condições de vida das pessoas será conseguido graças ao crescimento econômico. Quase nuca esse crescimento se reflete nas maiorias que continuam vivendo pobres e exploradas. O crescimento real deveria ser medido com parâmetros e indicadores de desenvolvimento humano...

P: Por que a luta contra a fome não desata uma real mobilização planetária?

FB: Existem quatro causas principais de morte precoce. As doenças (Aids, câncer, malária etc.) Os acidentes, em suas distintas manifestações. O terceiro é a violência em suas distintas formas, incluindo o terrorismo. A quarta causa é a fome. As vítimas produto dos três primeiros fatores são muito menos que as do quarto fator. No entanto, não existe uma mobilização consistente contra a fome...
A fome ameaça somente aos miseráveis da terra e nós não o somos. Fui privilegiado na loteria biológica e então nosso comportamento é insensível ante o grande drama planetário. A tendência egoísta que marca o ser humano...

P: Existe possibilidade de que esse marco, quase fatalista, se modifique?

FB: Com uma mudança de paradigmas. Não será um processo fácil, nem simples; porém, as vítimas da injustiça nos obrigarão a modificar atitudes. Dois exemplos ilustrativos. Um, a devastação ambiental. Atinge a todos igualmente, ricos e pobres, Norte e Sul. E isso pressiona a tomada de decisões por parte de alguns governos e responsáveis políticos mundiais, além de seus próprios desejos ou vontades. O outro, as migrações das populações empobrecidas para os países ricos. Responde à necessidade de sobrevivência dos que nada têm. E não existe nem polícia, nem exército, nem legislação que possa impedir essa tendência migratória que já golpeia as nações enriquecidas. Esse fluxo não poderá ser detido. E os responsáveis políticos terão que tomar decisões consequentes para permitir que os países empobrecidos transitem a um processo de desenvolvimento autônomo soberano que permita que suas populações possam continuar vivendo ali.

P: Esses novos referentes devem ser buscados dentro ou fora do sistema?

FB: Tenho uma formação e uma experiência revolucionária desde muito jovem. Meu paradigma é a sociedade pós-capitalista. E essa sociedade pós-capitalista chama-se socialismo. Sou um socialista ontológico. O que não significa que considere como modelo qualquer referente histórico socialista, especialmente o que a Europa do Leste viveu.

COOPERAÇÃO REALMENTE SOLIDÁRIA

P: Que papel a cooperação Norte-Sul joga nessa dinâmica complexa?

FB: Penso que nesse contexto o conceito de cooperação realmente solidária adquire um grande valor. Para isso, é essencial uma atitude de modéstia. As ONGs do Norte que trabalham no Sul devem dotar-se de uma pedagogia e da educação de Paulo Freire. O que implica colocar-se a serviço do outro, sem nenhuma arrogância ou colonialismo, compreendendo as diferenças, assumindo que ninguém é melhor do que o outro; mas que cada um tem uma cultura diferente.

P: Como se expressaria concretamente essa atitude no cotidiano das relações Norte-Sul?

FB: Uma regra de outro da cooperação solidária consiste em promover a autoestima dos atores sociais do sul. Tem que fortalecer os movimentos sociais; consolidar a formação de seus dirigentes. A instrução, a formação, deveria constituir uma contribuição essencial, reforçando, ao mesmo tempo, a consciência da necessidade de desenvolver relações igualitárias. Não com uma ótica assistencialista ou colonialista do Norte ao Sul, mas com uma perspectiva emancipadora da população do Sul. Nesse sentido, quero dizer que uma ONG como E-CHANGER são excepcionais. De grande coerência. Vão trabalhar no Sul, na América Latina, e especialmente no Brasil, que é o que melhor conheço, colocando-se a serviço dos atores sociais, sem impor verdades, escutando, abertas à aprendizagem constante, conscientes de que todos têm muito a aprender nesse intercâmbio com rosto humano.

A ESPERANÇA LATINOAMERICANA

P: O essencial de sua reflexão global se nutre da realidade do Brasil e da América Latina. Que momento político vive atualmente o continente?

FB: Nas últimas décadas, passou por três etapas muito diferenciadas. A primeira, entre 1960 e 1980, as ditaduras militares. Com repressão generalizada, desaparecimentos forçados de pessoas, cárcere e exílio. Em seguida, vem um período de neoliberalismo messiânico que fez explodir as contradições populares. Como nunca antes, os movimentos sociais hoje sentem-se escutados e considerados. Muitos de seus dirigentes, inclusive, participam nos governos.

P: Qual é o traço mais característico deste?

FB: A existência de uma série de iniciativas regionais e continentais que promovem propostas de integração com autonomia. E isso é muito importante tendo em vista a longa história de dependência colonial que padecemos durante séculos.
Com uma nota amarga nesse marco positivo: o golpe de Estado em Honduras, que aconteceu no dia 28 de junho deste ano. Havíamos pensado que nunca mais haveria ditaduras e este golpe abre um compasso de preocupação. A mobilização latinoamericana contra o golpe causa preocupação. A mobilização latinoamericana contra o golpe é excepcionalmente significativa.

Liberdade e justiça social

enviado a mim por attmahn e redirecionado ao blog


Liberdade e justiça social

Na década de 1980 visitei, com frequência, países socialistas: União Soviética, China, Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia e Cuba. Estive também na Nicarágua sandinista. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja.

Do que observei, concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso aos bens materiais básicos e aos direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara, contudo, um sistema mais justo à maioria da população que o capitalismo.

Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, uma liberdade - de expressão, reunião, locomoção, crença etc. - que não se via em todos os países socialistas governados por um partido único (o comunista), cujos filiados estavam sujeitos ao "centralismo democrático".

Residiria o ideal num sistema capaz de reunir a justiça social, predominante no socialismo, com a liberdade individual vigente no capitalismo? Essa questão me foi colocada por amigos durante anos. Opinei que a dicotomia é inerente ao capitalismo. A prática de liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Basta lembrar que seus pressupostos paradigmáticos - competitividade, apropriação privada da riqueza e soberania do mercado - são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os bens materiais.

No capitalismo, a apropriação individual e ilimitada da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética e o bom-senso ensinam que quando um se apropria muitos são desapropriados. A opulência de uns poucos decorre da carência de muitos.

A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, opressão colonialista, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc. Basta verificar o que sucedeu na América Latina, na África e na Ásia entre os séculos XVI e a primeira metade do século XX.

Hoje, a riqueza da maioria das nações desenvolvidas decorre da pobreza dos países ditos emergentes. Ainda agora os parâmetros que regem a OMC são claramente favoráveis às nações metropolitanas e desfavoráveis aos países exportadores de matérias-primas e mão de obra barata.

Um país capitalista que agisse segundo os princípios da justiça cometeria um suicídio sistêmico; deixaria de ser capitalista. Nos anos 80, ao integrar a Comissão Sueca de Direitos Humanos, fui questionado, em Uppsala, por que o Brasil, com tanta fartura, não conseguia erradicar a miséria, como fizera a pequena Suécia. Perguntei-lhes: "Quantas empresas brasileiras estão instaladas na Suécia?" Fez-se prolongado silêncio.

Naquela época, nenhuma empresa brasileira operava na Suécia. Em seguida, indaguei: "Quantas empresas suecas estão presentes no Brasil?" Todos sabiam que havia marcas suecas em quase toda a América Latina, como Volvo, Scania, Ericsson e a SKF, mas não precisamente quantas no Brasil. "Vinte e seis", esclareci. (Hoje são 180). Como falar em justiça quando um dos pratos da balança comercial é obviamente favorável ao país exportador em detrimento do importador?

Sim, a injustiça social é inerente ao capitalismo, poderia alguém admitir. E logo objetar: mas não é verdade que, no capitalismo, o que falta em justiça sobra em liberdade? Nos países capitalistas não predominam o pluripartidarismo, a democracia, o sufrágio universal, e cidadãos e cidadãs não manifestam com liberdade suas críticas, crenças e opiniões? Não podem viajar livremente e até mesmo escolher viver em outro país, sem precisar imitar os "balseros" cubanos?

De fato, nos países capitalistas a liberdade existe apenas para uma minoria, a casta dos que têm riqueza e poder. Para os demais, vigora o regime de liberdade consentida e virtual. Como falar de liberdade de expressão da faxineira, do pequeno agricultor, do operário? É uma liberdade virtual, pois não dispõem de meios para exercitá-la. E se criticam o governo, isso soa como um pingo de água submergido pela onda avassaladora dos meios de comunicação - TV, rádio, internet, jornais, revistas - em mãos da elite, que trata de infundir na opinião pública sua visão de mundo e seu critério de valores. Inclusive a ideia de que miseráveis e pobres são livres...

Por que os votos dessa gente jamais produzem mudanças estruturais? No capitalismo, devido à abundância de ofertas no mercado e à indução publicitária ao consumo supérfluo, qualquer pessoa que disponha de um mínimo de renda é livre para escolher, nas gôndolas dos supermercados, entre diferentes marcas de sabonetes ou cervejas. Tente-se, porém, escolher um governo voltado aos direitos dos mais pobres! Tente-se alterar o sacrossanto "direito" de propriedade (baseado na sonegação desse direito à maioria). E por que Europa e EUA fecham suas fronteiras aos imigrantes dos países pobres? Onde a liberdade de locomoção?

Sem os pressupostos da justiça social, não se pode assegurar liberdade para todos.

frei betto, escritor e pacifista

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A HISTÓRIA DA MAGIA

A HISTÓRIA DA MAGIA





Escrito no Templo da Ordem

em

Anno IV: xv
Sol in Gemini, Luna in Gemini
Dies Veneris
15/06/2007 e.v.





Um Mago é capaz de realizar prodígios. No mundo da magia é possível realizar coisas impossíveis pelas leis naturais, que limitam o resto das pessoas. No Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago afirma que poderia se transportar de um lugar para outro. Crowley podia apontar sua varinha mágica e pronunciar algumas palavras mágicas para atear fogo numa lareira. Segundo testemunhos podia usar magia para se transformar em um cão, ou outro animal.

Por mais que nos encante ler a respeito das proezas desses magos, a maioria das pessoas no mundo moderno, não acredita em magia. Apreciamos as apresentações de mágicos nos teatros ou circos, que nos dão a experiência da magia, mas na verdade não esperamos que eles façam o impossível acontecer. Sabemos que tudo se trata de ilusão. E também não são muitos os que no mundo moderno acreditam como no passado, na idéia de que o mundo é controlado por seres sobrenaturais, cujo poder pode ser subjugado e usado por humanos a fim de alcançar seus objetivos.

Porém, ao longo de quase toda a história ocidental, as pessoas acreditaram de fato na magia e confiavam em forças invisíveis e sobrenaturais para exercer poder sobre os outros ou para controlar o mundo natural. As pessoas praticavam a magia para adquirir conhecimento, amor e riqueza, para curar doenças e prevenir-se contra perigos, para prejudicar ou enganar os inimigos, para ganhar guerras, para garantir o sucesso ou a produtividade e para conhecer o futuro. Os métodos mágicos compreendiam muitas das técnicas ensinadas em Ordens Mágickas Ancestrais, como feitiços, poções, encantamentos e divinacão, bem como rituais e cerimônias minuciosas, destinadas a invocar deuses, demônios e espíritos. A prática da magia ajuda as pessoas a aliviar suas tensões e aflições, pois nada melhor do que controlar o curso de suas vidas.






A ORIGEM DA MAGIA


A palavra magia deriva do nome dos altos sacerdotes da antiga Pérsia (o atual Irã), chamados magi. No século VI a.C., os magi eram conhecidos por sua profunda sabedoria e por seus dons de profecia. Adeptos do líder religioso Zoroastro, eles interpretavam sonhos, praticavam a astrologia e davam conselhos aos soberanos a respeito de questões importantes. Quando os magi se tornaram conhecidos nos mundos grego e romano, eram vistos como figuras extremamente misteriosas, senhores de segredos profundos e de poderes sobrenaturais. Ninguém sabia na verdade, exatamente que poderes eram esses (afinal, eram secretos!), mas durante um longo tempo qualquer coisa considerada sobrenatural era tida como criação dos magi e chamada de magia. De fato, o próprio Zoroastro foi muitas vezes chamado de: O inventor da magia.



Zaratustra ou Zoroastro



É claro que, na verdade, nenhum indivíduo e nenhuma cultura ¡solada inventaram a magia. Os procedimentos mágicos transmitidos de geração em geração ao longo dos séculos, tiveram origem em muitas civilizações, inclusive nas dos antigos persas, babilônios, egípcios, hebreus, gregos e romanos. A tradição mágica evidentes, como hoje a conhecemos, deve muito à troca de idéias entre membros de diferentes culturas.

Esse contato ocorreu com freqüência cada vez maior após o século 111 a.C., quando o general grego Alexandre o Grande conquistou a Síria, a Babilônia, o Egito e a Pérsia e fundou a cidade de Alexandria, no Egito, destinada a ser o centro intelectual do mundo antigo.




MAGIA E RELIGIÃO



Em todas as sociedades antigas, a magia e a religião estavam interligadas. Acreditava-se que havia muitos deuses e espíritos secundários, bons ou maus, que controlavam a maioria das coisas da vida, eram responsáveis pelo sol e pela chuva, pela prosperidade e pela pobreza, pela doença e pela saúde. 0 propósito da magia era agradar ou controlar esses espíritos. Assim como a religião, a magia compreendia rituais e cerimônias que apelavam aos deuses. As pessoas acreditavam que os mágicos, assim como os sacerdotes, tinham um acesso privilegiado aos deuses. Só que, em vez de adorar essas divindades, os mágicos lhes pediam, ou até exigiam, favores.





Às vezes os magos apelavam aos deuses simplesmente para obter ajuda quando queriam lançar um feitiço ou proferir uma maldição. Mas muitas vezes também tentavam fazer essas divindades materializarem "em pessoa". Depois de cumprir uma cerimônia especial a fim de convocar ou invocar um espírito, um mágico da antiga Babilônia ou do Egito podia ordenar ao espírito que levasse embora a doença abatesse um inimigo ou garantisse alguma vitória política. Era costume ameaçar uma divindade menor com um castigo a ser aplicado por espíritos mais poderosos, caso as exigências do mágico não fossem satisfeitas. Em seguida, o mago dispensaria a divindade, enviando-a de volta para o mundo dos espíritos. Centenas de documentos da antiguidade confirmam que tentar recrutar espíritos era uma atividade comum, ainda que muitas vezes frustrante, na Grécia e na Roma antigas.

Quase todas as formas de magia antiga dependiam do conhecimento prévio dos nomes secretos dos deuses. Pensava-se que muitas divindades tinham dois conjuntos de nomes, os nomes comuns, que todos sabiam, e os nomes secretos, conhecidos apenas pelas pessoas que estudaram as artes mágicas. De certo modo, esses nomes secretos foram as primeiras palavras mágicas. Faladas ou escritas, julgava-se que elas tinham um grande poder, pois se acreditava que saber o nome verdadeiro de um deus tornava o mágico capaz de invocar todos os poderes que o deus representava. Os sacerdotes egípcios davam a suas divindades nomes compridos, complicados e muitas vezes impronunciáveis, para que forasteiros não pudessem aprendê-los com facilidade. Dizia-se que Moisés havia dividido as águas do mar Vermelho ao pronunciar o nome secreto de Deus, com setenta e duas sílabas, que só ele conhecia. E, segundo o escritor grego Plutarco, o nome da divindade guardiã de Roma foi mantido em segredo após a fundação da cidade e era proibido perguntar qualquer coisa a respeito dessa divindade - nem mesmo se era macho ou fêmea -, para que os inimigos de Roma não descobrissem esse nome e invocassem o deus para seus próprios fins.



Cronos



À medida que as civilizações antigas foram entrando em contato umas com as outras, tornou-se cada vez mais comum que os mágicos de uma cultura "experimentassem" os nomes dos deuses de outras regiões. Alguns dos manuscritos mais antigos com registros de práticas mágicas, redigidos nos séculos III e IV, contêm listas compridas com os nomes dos deuses de muitas religiões, que poderiam ser inscritos em talismãs e amuletos, ou incorporados a feitiços e encantamentos. Um dos encantamentos mais famosos entre os magos gregos e egípcios do século III, supostamente tão poderoso que "o sol e a terra se curvam, humildes, quando o escutam; rios, mares, pântanos e fontes se congelam quando o escutam; pedras explodem quando o escutam", era composto com os nomes de cem divindades reunidos.





ALTA MAGIA E BAIXA MAGIA



A magia antiga é muitas vezes dividida em duas categorias - "Alta Magia" e "Baixa Magia" - que podem ser diferenciadas, fundamentalmente, pelos objetivos de seus praticantes.

A Alta Magia, que tem muito em comum com a religião, é motivada pelo desejo de adquirir um tipo de sabedoria inacessível por meio da experiência comum. Quando os Altos Magos (entre os quais figuras notáveis como o filósofo e matemático grego Pitágoras) apelam a deuses e espíritos, têm os objetivos mais elevados. Esperam receber visões proféticas, tornar-se capazes de curar doenças, alcançar o conhecimento de si mesmos ou até se tornarem semelhantes aos deuses.

Muitos sistemas de Alta Magia também ensinam que todo ser humano é uma versão do universo em miniatura (Microcosmo) e continha dentro de si todos os elementos do mundo externo. Ao desenvolver seus poderes interiores de imaginação e de intuição, o Mago tornar-se capaz de provocar mudanças reais (e aparentemente sobrenaturais) no mundo, simplesmente concentrando suas emoções, sua vontade e seu desejo. Mas é importante que se saiba que adquirir os poderes prometidos pela "Alta Magia" é tarefa para uma vida inteira, e até mesmo outras vidas.





Muitas outras pessoas se dedicam à magia com objetivos mais imediatos e mais práticos. Querem trazer sorte, riqueza, fama, sucesso político, saúde e beleza. Desejam prejudicar inimigos e conseguir o amor, vencer no esporte, conhecer o futuro e resolver problemas práticos cotidianos. A busca desses objetivos é, em geral, conhecida como "Baixa Magia" - categoria que, popularmente, inclui também ler a sorte, preparar poções, lançar feitiços e usar encantamentos e amuletos. A partir do século IV a.C., centenas ou milhares de homens e mulheres tornaram-se feiticeiros e adivinhos profissionais, oferecendo magia em troca de um pagamento. Embora muitos deles tivessem reputação de fraudulentos, os registros históricos mostram que pessoas de todas as classes sociais consultavam e ainda consultam esses magos profissionais com regularidade, alguns publicamente, outros às escondidas.









A REPUTAÇÃO DA MAGIA



Em geral, a magia era mais temida do que admirada desde o mundo antigo até hoje. Mesmo quem nada sabe a respeito acredita que pode ser prejudicado ou influenciado pela magia de outra pessoa. Se um político se perde no meio de um discurso ou se alguém ficava doente sem mais nem menos, não é raro supor que a culpa é da maldição de um inimigo. A reputação sinistra da magia tomou impulso por causa de suas ligações com a bruxaria, na imaginação popular. A literatura grega e romana era repleta de descrições muito imaginativas, e muitas vezes apavorantes, de bruxas e de seus métodos desleais. Ericto, uma bruxa criada pelo escritor grego Luciano, do século II, usa partes do corpo humano em suas poções, enterra os seus inimigos ainda vivos e traz cadáveres putrefatos de volta à vida. Embora obviamente se trate de um personagem de ficção (aliás, um personagem inesquecível), Ericto, e outras bruxas como ela, exercem um impacto muito forte na imagem popular da magia e da bruxaria.





Embora a magia fosse popular entre o público que queria consultar adivinhos e comprar encantamentos e amuletos protetores, as pessoas em posições de poder desconfiavam de astrólogos que prediziam sua morte e de feiticeiros que podiam ser contratados por seus inimigos para prejudicá-los por meio de maldições. Em 81 a.C., o ditador romano Cornélio Sula decretou a pena de morte para "videntes, encantadores e aqueles que usassem a feitiçaria com propósitos malévolos, que invocassem demônios, desencadeassem as forças da natureza (ou) empregassem bonecos de cera com fins destrutivos". Uma série de leis do mesmo tipo foi instituída nos séculos seguintes, de tal forma que, no século IV d.C., todas as formas de magia e adivinhação foram decretadas ilegais no Império Romano. Ao mesmo tempo, a Igreja Cristã, que vinha ganhando poder rapidamente, fez um esforço concentrado para suprimir a magia, tida como concorrente da fé cristã. Decretou-se que todas as formas de magia eram ligadas aos demônios (e, portanto, ao Diabo) e foram proibidas pela lei da Igreja.





A Igreja e o Governo continuaram a trabalhar juntos contra a magia, ao longo da Idade Média. No entanto as crenças e os métodos mágicos, sobretudo quando ligados à medicina popular (curas mágicas), continuaram a ser transmitidos secretamente e tornaram-se parte do repertório dos "rezadores" ou magos de aldeia dos séculos posteriores (herbologia).



MAGIA NA LITERATURA MEDIEVAL

A partir de meados do século XII, a magia começou a ser apresentada de forma muito mais favorável, pelo menos por escritores de ficção. Primeiro na França e depois na Alemanha e Inglaterra, poetas criaram aventuras maravilhosas, passadas em épocas remotas e repletas de magia, com façanhas de cavaleiros valentes, lindas donzelas e reis heróicos. Esses relatos, hoje conhecidos como "romances medievais", diminuíam as associações negativas existentes entre a magia, os demônios e a bruxaria. A palavra "magia" era muitas vezes evitada e os autores, em seu lugar, usavam "maravilha", "assombro" e "encantamento". Os heróis possuíam espadas que lhes davam força sobre-humana, pratos que se enchiam de comida sozinhos, barcos e carruagens que não precisavam de cocheiro e anéis que tornavam seu usuário invulnerável ao fogo, ao afogamento e a outras catástrofes. Fadas e monstros da mitologia também apareciam com muita regularidade e muitas vezes era uma fada que dava ao herói exatamente aquilo de que ele precisava para concluir a sua missão. Poções, adivinhação astrológica, feitiços e ervas que curavam tinham também um papel de destaque nessas obras épicas. Embora a noção de "magia negra" ainda persistisse, com feiticeiros e bruxas malignos que surgiam de vez em quando, a maior parte desses relatos apresentava a magia de forma positiva e o público gostava tanto de sua leitura quanto nós, hoje em dia.






Magia NATURAL



A magia se tornou novamente respeitável nos séculos XV e XVI, devido à ascensão da "magia natural", que não supõe a ajuda de demônios nem de seres sobrenaturais. A magia natural, uma espécie de ciência na época, se baseava na crença de que tudo na natureza - gente, plantas, bichos, pedras e minerais - estava repleto de forças ocultas, chamadas de "virtudes ocultas". Os Magus Naturalis, hoje mais conhecidos como, Terapeutas Holísticos, acreditam, por exemplo, que as pedras preciosas contém o poder de curar doenças, afetar o estado de ânimo e até trazer sorte. As ervas tenham virtudes ocultas, capazes de promover a cura, e às vezes bastava suspendê-las acima do leito de um paciente. Até cores e números tem poderes ocultos. Além disso, todos os elementos da natureza estavam ligados entre si, por meios fascinantes, porém ocultos. Os magos naturais têm o desafio de descobrir essas forças e essas ligações e utilizá-las de forma positiva.





Mas não é nada simples ser um mago natural sério. É preciso pesquisar, estudar e observar cuidadosamente a natureza. Às vezes a "virtude oculta" de uma substância era revelada por sua aparência. Por exemplo, a erva scorpius (cujo nome deriva da sua semelhança com o escorpião) é tida como um remédio eficaz contra picadas de aranha. Acredita-se que plantas e animais com formatos semelhantes tinham propriedades similares. Porém o mais importante para dominar a magia natural é o estudo da astrologia, pois muitas relações e propriedades ocultas na natureza emanam diretamente dos planetas e das estrelas. A pedra preciosa esmeralda, o metal cobre e a cor verde, por exemplo, possui propriedades oriundas do planeta Vênus. Ciente disso, o Mago natural está apto a usar esses elementos em diversas combinações, na tentativa de afetar áreas da vida "regidas" por Vênus, como a saúde, a beleza e o amor. Usar o metal chumbo, a pedra ônix e a cor negra é um meio provável de produzir o efeito exatamente contrário, pois os três eram regidos por Saturno e ligados à morte e ao abatimento.

Além disso, o praticante precisa ter vastos conhecimentos de anatomia e herbologia, pois curar doenças é um objetivo importante na magia natural, e uma doença provocada por uma influência planetária pode ser curada por uma erva regida pelo mesmo planeta ou, em certos casos, pelo planeta oposto. 0 mago natural é um tipo de mago do mundo natural e um mestre das combinações - um Alquimista que mistura, combina e explora as propriedades ocultas da natureza de modo a alcançar resultados milagrosos e benéficos.





Enquanto nos séculos IX ou X uma pessoa respeitável na certa evitaria qualquer ligação com a magia, no Renascimento a magia natural era aceita como uma área de estudo adequada a intelectuais, médicos, sacerdotes e todos que tivessem um sentimento de curiosidade científica. Na E.I.E Caminhos da Tradição muitas matérias da magia natural - herbologia, astrologia, quiromancia, aritmancia e a preparação de horóscopos fazem parte do nosso currículo de estudos.



MAGIA RITUAL


A possibilidade de invocar espíritos nunca ficou inteiramente esquecida. Entre os séculos XV e XVIII surgiu em toda a Europa, e em vários idiomas, uma série sensacional de livros,, chamados "Grimoires" (inúmeros traduzidos por nós para a língua portuguesa). Em sua maioria, eram escritos de forma anônima ou atribuídos a fontes antigas, inclusive Moisés, Aristóteles, Noé, Alexandre o Grande e o famosíssimo Rei Mago bíblico Salomão. As vendas e a circulação eram secretas, no início, pois possuir e usar um livro desses era um crime grave. Essas obras ensinavam métodos que supostamente permitiam invocar espíritos e demônios de épocas antigas.





Os grimoires prometem magia para todos os fins imagináveis: conseguir amor, riqueza, beleza, saúde, felicidade e fama. Derrotar, amaldiçoar ou matar inimigos. Ou ainda começar guerras, curar doentes, adoecer pessoas sãs, ficar invisível, encontrar tesouros, voar, predizer o futuro e abrir portas sem ter a chave. Não admira que essas promessas tenham tornado esses livros muito populares, sobretudo durante o século XVII, quando edições baratas de certos grimoires se tornaram amplamente acessíveis. Estudantes e sacerdotes, crentes devotados e gente apenas curiosa, todos seguiam as instruções para ver o que acontecia.

Como exigiam cerimônias e rituais complicados, os métodos ensinados pelos grimoires eram conhecidos como "magia ritual" ou "magia cerimonial". Em essência, a magia ritual seguia os mesmos passos utilizados, milhares de anos antes, para invocar deuses e espíritos. Primeiro, o mago traçava um grande círculo no chão, no qual inscrevia palavras mágicas, nomes sagrados e símbolos. Em seguida, se colocava dentro do círculo (que o protegia dos espíritos que ia invocar), pronunciava os encantamentos que fariam surgir o demônio e que garantiriam que seus desejos fossem atendidos. Depois, apresentava suas exigências e mandava o demônio embora. Pelo menos, era isso que se esperava.

Mas, antes que tudo isso pudesse ser posto à prova, haveria semanas, e até meses, de preparação. Segundo muitos Grimoires, todo o aparato usado na cerimônia - velas, perfumes, incenso, a espada usada para traçar o círculo mágico, a varinha mágica - têm de ser "virgens" ou sem uso, além de devidamente consagrados e exorcizados novo em folha. Também não se pode simplesmente comprar as coisas necessárias. Muitos objetos cerimoniais têm de ser moldadas pessoalmente pelo mago. A baqueta mágica tem de ser recém -entalhada, de um galho de aveleira cortado de uma árvore com um golpe de uma espada recém -fabricada. As tintas coloridas usadas para traçar desenhos nos talismãs mágicos têm de ser preparadas na hora e guardadas num tinteiro novo. Além disso, segundo A Chave de Salomão, a pluma usada para desenhar os talismãs tem de ser feita com a terceira pena da asa direita de um ganso. Cada etapa tem de ser cumprida segundo os princípios da astrologia, sob a influência dos planetas adequados, conforme as várias épocas do ano. O Mago também têm de se preparar espiritualmente para a cerimônia mediante uma dieta especial, jejum, banho ritual e outros procedimentos de purificação.

Sem a observância de detalhes, é claro, nada garante que algo irá acontecer durante a cerimônia. Na verdade, as instruções são tão minuciosas, quanto específicas e, em geral, bizarras, com o fito de tornar ao profano quase impossível executar tudo conforme vinha determinado. Não admira, portanto, que, apesar de repetidas súplicas, encantamentos e de toda a sinceridade, os espíritos costumassem não aparecer, exceto, na imaginação de certos praticantes e dos autores de grimoires. Mas fácil explicar os fracassos: com tantos detalhes complicados, em algum ponto, de alguma forma, tinha de se cometer um engano. Outras vezes mesmo que de forma invisível o magista despreparado, cria vórtices, abre portais inconscientemente, que podem lhe prejudicar muito seriamente.



A MAGIA NOS DIAS ATUAIS

A crença na magia entrou em declínio em meados do século XVII, quando as pessoas começaram a descobrir maneiras mais práticas e eficientes de enfrentar seus problemas. A química moderna permitiu a criação de novos medicamentos que substituíram os tratamentos criados segundo os princípios da herbologia, da astrologia e da magia natural. Com a ascensão do pensamento científico, as idéias sobre como o mundo funcionava passaram a ser testadas em experiências e o poder das palavras mágicas, feitiços e talismãs foi cada vez mais questionado.





Hoje, a idéia de conseguir poderes extraordinários por meio da invocação de espíritos desapareceu na maior parte do mundo moderno. Mas também é verdade que o mundo é hoje mais mágico do que nunca. Coisas julgadas impossíveis, como voar ou conversar com uma pessoa que está do outro lado do mundo, são fatos cotidianos. As aspirações da magia natural - descobrir e controlar as forças ocultas da natureza foram realizadas pela ciência moderna. E, embora os princípios da astrologia tenham sido invalidados, revelou-se, ironicamente, que todas as virtudes ocultas na natureza vieram, de fato, das estrelas, pois agora sabemos que todos os elementos do mundo natural, inclusive nós mesmos, tiveram origem na matéria oriunda da explosão de sóis. Assim como era para os antigos, o universo continua um lugar surpreendente, repleto de maravilhas, cheio de possibilidades impossíveis e de magia.

A magia teatral e literária é mais popular do que em qualquer outra época. Seja na forma literária, seja na forma teatral, a magia confirma a nossa intuição de que há uma "outra realidade". Embora a magia possa não fazer sentido para muitas mentes lógicas, faz muito sentido para as mentes criativas e intuitivas, que funcionam segundo um conjunto de regras distinto da mentalidade profana. O apelo da magia parece aparentemente não ter nada a ver com o fato de ela ser ou não "real". Mas ela é real! A magia pode advir da imaginação e ser originalmente alimentada por ela. Mas em determinado momento ela se torna real, palpável e assustadora para aqueles que estão despreparados para ela. Ela só na aparência é para todos, mas singularmente é para poucos. Acreditamos que será sempre assim!

MOVIMENTO COMUNISTA

ENVIADO A MIM POR ATTMAHN E REDIRECIONADO PARA O BLOG

O movimento comunista no século XX



Doménico Losurdo* - 27.02.09



Como resumir o balanço histórico do movimento comunista no século que passou? Hoje em dia, o

discurso acerca da sua “falência” é tão pouco discutido que não chega a suscitar objecções, nem

mesmo na esquerda. A ideologia e a historiografia actualmente dominantes parecem querer

compendiar o balanço de um século dramático numa historieta edificante, que pode resumir-se

deste modo: no princípio do século XX, uma rapariga fascinante e virtuosa, a menina Democracia,

foi agredida, primeiro por um bruto, o senhor Comunismo, a seguir por outro, o senhor Nazi-

Fascismo; aproveitando as contradições entre eles e através de peripécias complexas, a jovem

consegue por fim libertar-se da terrível ameaça; tornando-se entretanto mais madura mas sem

nada perder do seu fascínio, a menina Democracia consegue coroar o seu sonho de amor pelo

casamento com o senhor Capitalismo; rodeado pelo respeito e a admiração gerais, o feliz e

inseparável cas al gosta de levar a vida principalmente entre Washington e Nova Iorque, entre a

Casa Branca e Wall Street. Assim sendo, não há mais lugar a dúvidas: é evidente e inglória a

falência do comunismo.

Os comunistas e a luta contra a discriminação racial.

Acontece porém que esta historieta edificante nada tem a ver com a história real. A democracia

contemporânea baseia-se no princípio segundo o qual cada indivíduo deve ser considerado titular

de direitos inalienáveis, independentemente da raça, do nível de rendimentos e do género, e

pressupõe portanto a superação das três grandes discriminações (racial, censitária e sexual) que

subsistiam ainda nas vésperas de Outubro de 1917.

Atentemos na primeira grande discriminação. Apresenta-se numa dupla forma. Por um lado, a

nível planetário, vemos a “servidão de centenas de milhões de trabalhadores da Ásia, das colónias

em geral e dos pequenos países” p or obra de “poucas nações eleitas”, as quais – prossegue

Lenin – se atribuem “o privilégio exclusivo de formação do Estado”, negando-o aos bárbaros das

colónias ou semi-colónias [1].

Por outro lado, a discriminação racial faz-se sentir também no interior dos Estados Unidos,

negando aos negros os direitos políticos e submetendo-os a um regime terrorista de white

supremacy, de supremacia branca. Os negros considerados rebeldes ou delinquentes eram postos

a cozer em fogo lento, no quadro de um espectáculo de massa que durava muitas horas, com a

participação até de mulheres e crianças e se concluía com o momento feliz da distribuição ou

venda de lembranças aos espectadores: dentes e ossos da cabeça e de outras partes do corpo da

vítima.

Estas práticas continuavam a subsistir ainda nos anos da presidência de Franklin Dellano

Roosevelt. O terror atingia não só os negros condenados ao linchamento mas ai nda as suas

família, cuja casa era por vezes entregue às chamas. As crónicas da imprensa da época

testemunham o valor escasso ou nulo que tinha a vida dos afro-americanos. Veja-se por exemplo

um jornal onde se refere que tinha sido linchado o “negro errado”. Tencionavam assassinar um

outro, mas acabara torturado e enforcado ou queimado vivo um pobre homem apressadamente

confundido com o “culpado”.

É altura de colocar uma primeira pergunta: quais foram as forças políticas que lutaram contra o

regime da white supremacy ? Em 1924, um jovem indochinês (Nguyen Sinh Cung), chegado à

república norte-americana em busca de trabalho, assistia horrorizado a um linchamento.

Passemos sobre os detalhes que já conhecemos ou podemos imaginar e vejamos a conclusão:

“Por terra, envolta em fumo e cheiro de gordura, uma cabeça negra, mutilada, torrada, deformada,

com um esgar de horror, parece perguntar ao sol que se põe: “É esta a civilização?ı€ O jovem

indochinês denunciava a infâmia do regime de supremacia branca e do Ku Klux Klan na

«Correspondance Internationale» (a versão francesa do órgão da Internacional Comunista). Dez

anos mais tarde regressava à pátria e assumia o nome pelo qual mais tarde se tornará conhecido

em todo o mundo, o nome Ho Chi Minh.

Não se trata de uma personalidade isolada. Empenhados como se achavam em combater o

racismo branco, os comunistas eram qualificados pela ideologia dominante como “estrangeiros” e

“amantes dos negros” (nigger lovers). E naqueles anos – para citar um historiador norte-americano

– ser comunistas e desafiar o regime da white supremacy significava “defrontar a eventualidade do

cárcere, da sova violenta, do sequestro e até da morte.” É por isto que os afro-americanos mais

combativos olhavam com admiração e reconhecimento para o movimento comunista e a União

Soviética: olhavam Stalin como o “novo Lincolnâ ı , aquele que os ajudaria a pôr fim, desta vez de

modo concreto e definitivo, à escravidão dos negros, à opressão, à degradação, à humilhação, à

violência e aos linchamentos que continuavam a sofrer.

Demos agora um salto de cerca de duas décadas. Em Dezembro de 1952, o Secretário da Justiça

dos EUA escrevia ao Supremo Tribunal, empenhado em discutir a questão da integração nas

escolas públicas: “A discriminação racial leva água ao moinho da propaganda comunista e levanta

dúvidas, inclusivamente entre as nações amigas, acerca da intensidade da nossa devoção à fé

democrática.” Washigton corria o risco – observa o historiador americano que relata estas

declarações – de se alienar as “raças de cor”, não só no Oriente e no Terceiro Mundo mas no

próprio coração dos Estados Unidos: também aqui a propaganda comunista obtinha um

considerável sucesso na sua tentativa de ganhar os negros para a “causa revolucionária” , fazendo

soçobrar neles a “fé nas instituições americanas”.

Impõe-se uma conclusão. O desafio objectivamente representado pelo movimento comunista

internacional contribuiu de modo decisivo para fazer cair nos EUA o regime da supremacia branca.

O capítulo da história iniciado com a revolução de Outubro promoveu a luta contra a discriminação

racial, não apenas promovendo à escala mundial a emancipação dos povos coloniais, mas dando

impulso à causa da igualdade racial no próprio coração do Ocidente.

O Estado racial do Sul dos Estados Unidos e o Terceiro Reich.

O regime que suscitava o horror de Ho Chi Minh e dos comunistas gozava porém na Europa do

favor de importantes forças políticas. Em 1937, Alfred Rosenberg, o principal teórico do Terceiro

Reich, celebrava os Estados Unidos como um “esplêndido país do futuro”: ao limitar a cidadania

política exclusivamente aos brancos e sancionar a todos os níveis e por todos os meios a

supremacia branca, os EUA tinham o mérito de formular a feliz “nova ideia de um Estado racial”,

ideia que se tratava agora de pôr em prática “com força juvenil”, mediante a expulsão e a

deportação de “negros e amarelos” [2]. Basta uma vista de olhos à legislação adoptada por Hitler

logo após a tomada do poder, para nos darmos conta das analogias com a situação vigente nos

EUA e em particular no Sul: da cidadania política, reservada aos arianos, são excluídos os judeus,

os ciganos e os poucos mulatos que viviam na Alemanha (no final da I Guerra mundial soldados

de cor ao serviço do Exército francês haviam participado na ocupação do país). E, tal como nos

Estados Unidos, também no Terceiro Reich a miscegenenation, ou seja, a contaminação do

sangue derivada das relações sexuais e matrimonais entre membros da raça superior e membros

das raças inferiores, é proibida pela norma legal. “A questã o negra” – continua a escrever

Rosenberg – encontra-se nos Estados Unidos no vértice de todas as questões decisivas”; e, uma

vez anulado para os negros o princípio absurdo da igualdade, não se vê por que não se hão de

tirar “as consequências necessárias também para os judeus e os amarelos.” [3]

É evidente o peso exercido pelo modelo americano na construção do Estado racial na Alemanha.

Interroguemo-nos sobre qual a palavra-chave susceptível de exprimir de modo claro e concentrado

a carga de desumanização e de violência genocida ínsita na ideologia nazi. Neste caso não são

necessárias pesquisas particularmente tormentosas: é Untermensch, sub-homem, o termo-chave,

que antecipadamente priva de toda a dignidade humana todos quantos se destinam a ser

escravizados ao serviço da raça dos senhores ou aniquilados como agentes patogénicos,

culpados de fomentarem a revolta contra a raça dos senhores e contra a civilização como tal. Pois

bem, o termo Untermensch, que desempenhou um papel tão central e tão nefasto na teoria e na

prática do Terceiro Reich, não é mais do que a tradução do americano Under Man ! O próprio

Rosenberg o reconhece, ao exprimir a sua admiração pelo autor norte-americano Lothrop

Stoddard: cabe-lhe o mérito de ter sido o primeiro a cunhar o termo em questão, que figura como

subtítulo (The Menace of the Under Man) de um livro publicado em Nova Iorque em 1922 e da sua

versão alemã (Die Drohung des Untermenschen), surgida três anos mais tarde. No que concerne

ao seu significado, Stoddard esclarece que indica a massa de “selvagens e bárbaros”,

“essencialmente incapazes de civilização e seus inimigos incorrigíveis”, com os quais há que

proceder a um radical ajuste de contas, se se quer evitar o risco de colapso da civilização [4].

Elogiado, ainda antes de o ter sido por Alfred Rosenberg, já por dois Pre sidentes dos EUA

(Harding e Hoover), Stoddard foi seguidamente recebido com todas as honras em Berlim, onde se

encontra com os mais altos hierarcas do regime nazi, incluindo Adolf Hitler [5], então lançado na

sua campanha de dizimação e escravização dos “indígenas”, ou seja, dos Untermenschen da

Europa de leste, e empenhado nos preparativos para a aniquilação dos Untermenschen judeus,

considerados como os loucos inspiradores da revolução bolchevista e da revolta dos escravos e

dos povos das colónias.

Não faz sentido querer colocar o comunismo no mesmo plano do nazismo, quer dizer, da força que

com mais consequência e brutalidade se opôs à superação da discriminação racial e portanto ao

advento da democracia. Se por um lado o Terceiro Reich se apresenta como a tentativa, levada a

cabo em condições de guerra total, de realizar um regime de white supremacy à escala planetária

e sob hegemonia alemã, por outro l ado o movimento comunista forneceu uma contribuição

decisiva para a superação da discriminação racial e do colonialismo, cuja herança o nazismo

procura assumir e radicalizar.

O movimento comunista, a superação das três grandes discriminações e o advento do

Estado social.

Deixemos agora para trás as colónias e a sorte das “raças inferiores”, para concentrar a análise

sobre a metrópole capitalista, e mesmo exclusivamente sobre a sua população “civilizada”.

Também a este nível, na véspera da revolução de Outubro continuavam a ser operantes

significativas cláusulas de exclusão da cidadania e da democracia.

Em Inglaterra – observa Lenin – o direito eleitoral “é ainda bastante limitado para excluir o estrato

inferior propriamente proletário” [6]; além do mais, podemos acrescentar, alguns privilegiados

continuavam a gozar do “voto plural”, que só será completamente supri mido em 1948.

Particularmente tortuoso foi, no país clássico da tradição liberal, o processo que conduziu à

realização do princípio “uma cabeça, um voto”, e tal processo não pode ser pensado sem o desafio

constituído pela revolução na Rússia e o desenvolvimento do movimento comunista.

Mesmo nos países onde o sufrágio masculino se tornara universal ou quase universal, ele era

neutralizado pela presença de uma Câmara Alta que era apanágio da nobreza e das classes

privilegiadas. No Senado italiano sentavam-se, na qualidade de membros de direito, os príncipes

da Casa Sabóia: todos os outros eram nomeados vitaliciamente pelo rei, sob proposta do

Presidente do Conselho. Considerações análogas valem para as outras Câmaras Altas europeias

que, à excepção da francesa, não eram electivas mas sim caracterizadas por uma combinação de

hereditariedade e nomeação régia. Mesmo nos Estados Unidos continuavam a subsistir resíduos

de discrimina ção censitária, a qual porém se manifestava sobretudo, como vimos, sob a forma de

discriminação racial, que atinge nos negros, simultaneamente, os estratos mais pobres da

população.

Se tomarmos o Ocidente no seu conjunto, a cláusula de exclusão mais macroscópica era a que

feria as mulheres. Em Inglaterra, as senhoras Pankhurst (mãe e filha), que dirigem o movimento

das sufragistas, viam-se forçadas a visitar periodicamente as prisões do país. Na Rússia, a

“exclusão das mulheres” dos direitos políticos, denunciada por Lenin e pelo partido bolchevique, foi

anulada logo depois da revolução de Fevereiro, saudada como “revolução proletária” (dado o peso

exercido pelos sovietes e as massas populares) por Antonio Gramsci, o qual sublinhava

calorosamente o facto de que a revolução “destruiu o autoritarismo e substituiu-o pelo sufrágio

universal, alargando-o também às mulheres.”

Este mesmo caminho foi depois o tomado pela república de Weimar (nascida da revolução que

eclodiu na Alemanha a um ano de distância da revolução de Outubro), e só em seguida pelos EUA

[7].

Em síntese. A superação das três grandes discriminações foi tornada possível por um duplo

movimento: com as numerosas e grandes revoluções a partir de baixo, que se desenvolveram

quer nas metrópoles capitalistas quer nas colónias e muitas vezes inspiradas pela revolução de

Outubro e pelo movimento comunista, combinaram-se revoluções pela cúpula, promovidas com o

fim de impedir novas revoluções a partir de baixo e de defrontar o desafio do movimento

comunista.

Fazem parte da democracia, como hoje é geralmente entendida, também os direitos económicos e

sociais (direitos ao trabalho, à saúde, à instrução, etc.) E é justamente o grande patriarca do neoliberalismo,

Hayek, quem denuncia o facto de a sua teorização e a sua presença no Ocidente

remeterem para a influência, conside rada por ele funesta, da “revolução marxista russa”. Por

conseguinte, o Estado social que se realizou no Ocidente, quer dizer, a tentativa de pôr limites ao

pleno desdobramento do poder económico-social da riqueza, não pode ser pensado sem o

impulso e o desafio provenientes da revolução de Outubro.

Restauração e revolução nos nossos dias.

É inegável, por outro lado, a derrota estratégica sofrida pelo “campo socialista” entre 1989 e 1991

e está perante os olhos de todos a restauração do capitalismo na Europa de leste! Teremos de

fazer valer para o movimento comunista no seu conjunto a observação que Marx faz em relação

ao jacobinismo? “Todo o terrorismo francês [jacobino] não foi senão um modo plebeu de

desembaraçar-se dos inimigos da burguesia, o absolutismo, o feudalismo e o carácter filisteu”; “o

proletariado e as fracções burguesas não pertencentes à burguesia”, ao mesmo tempo que se

opus eram à burguesia, como por exemplo na França de 1793 a 1794, lutaram apenas pela

realização dos interesses da burguesia, ainda que não à maneira da burguesia.” (MEW, VI, 107).

Isto é, segundo a interpretação de Marx, apesar do seu radicalismo, os jacobinos teriam acabado

apenas por aplanar o caminho à sociedade burguesa. Ter-se-ia também passado algo semelhante

com o comunismo do século XX ? Teria o comunismo liquidado as três grandes discriminações

somente para aplanar o caminho a uma democracia burguesa mais completa?

Esta tese não convence. Desde logo deve notar-se que ao colapso do socialismo na Europa de

leste corresponde no Ocidente o desmantelamento do Estado social e mesmo a exclusão dos

direitos económicos e sociais do catálogo dos direitos. É a operação explicitamente posta em

prática por Hayek, o qual não por acaso conseguiu a seu tempo o prémio Nobel da economia e se

tornou um ponto de referência essencial da ideologia hoje dominante.

Não se trata apenas do Estado social. Nos Estados Unidos – sublinha entre outros um autorizado

historiador liberal [no sentido americano da palavra, NdT] como Schlesinger Jr. –, o peso do

dinheiro nas competições eleitorais é tão forte que os organismos representativos correm o risco

de se tornar monopólio das classes proprietárias (como nos anos de ouro da restrição censitária

do sufrágio). Há tempos, podia ler-se no «International Herald Tribune» uma análise que dá que

pensar:

«Os Estados Unidos tornaram-se uma plutocracia […] Quem tenha dinheiro pode exercer um peso

para influenciar o governo. Deixado de fora fica o restante povo, e agora parecem existir escassas

esperanças de poder alterar o modo como o país é governado.» (Pfaff, 2000).

Mas é sobretudo a nível internacional que a tendência para a restauração se torna particularmente

evidente, ao repropor-se em novas formas a grande discr iminação que tradicionalmente atingiu os

povos coloniais e semi-coloniais. É explícita a reabilitação do colonialismo no ideólogo mais ou

menos oficial da “sociedade aberta” e do Ocidente. Popper exprime-se deste modo a propósito das

ex-colónias: “Libertámos estes Estados de forma demasiado apressada e demasiado simplista; é

como abandonar a si próprio um asilo de crianças”. E o historiador inglês Paul Johnson, de grande

sucesso mediático, fala de um “revival” do colonialismo, numa intervenção com tanto mais

autoridade quanto foi publicada no «New York Times», com destaque e com um título que soa

como o enunciado de um programa: “Finalmente regressa o colonialismo, era tempo”. Não existem

alternativas ao “revival altruísta do colonialismo” em “muitíssimos países do Terceiro Mundo”: “é

uma questão moral; o mundo civilizado tem a missão de ir governar estes lugares desesperados.”

Não se trata apenas de i ntervir em países incapazes de se governarem sozinhos, mas também

naqueles que, ao governar-se, revelam uma tendência “extremista” [8].

Até mesmo a categoria de imperialismo conhece uma nova juventude ou reapresenta-se com uma

nova cosmética.

Naturalmente, o processo de recolonização do Terceiro Mundo, e das zonas periféricas em relação

ao Ocidente, avança com palavras de ordem universalistas, que proclamam a absoluta

transcendência das normas éticas relativamente aos limites estatais e nacionais. Mas isto, longe

de constituir uma novidade, é uma constante da tradição colonial. Por outro lado, é evidente que,

arrogando-se o direito de declarar superada a soberania de outros Estados, as grandes potências

atribuem-se uma soberania dilatada, a exercer muito para além do próprio território nacional.

Reproduz-se de uma forma pouco modificada a dicotomia que ritmou a expansão colonial, no

decurso da qual os protagonistas constanteme nte recusaram reconhecer como Estados

soberanos os países que subjugavam ou transformavam em protectorado.

Quer dizer, ao enfraquecimento do movimento comunista corresponde o desfazer-se das

conquistas democráticas realizadas no século XX, a partir da revolução de Outubro. Dito por

outras palavras, a eliminação das grandes discriminações que durante séculos caracterizaram o

mundo liberal-burguês nunca será definitivamente consolidada sem profundas transformações, a

nível nacional e internacional, das relações económicas e sociais capitalistas. Disso mesmo se dão

conta, por exemplo, os países e os povos que na América latina lutam para sacudir das costas o

peso do domínio do saque imperialista. A partir desta exigência elementar de conquista ou

reconquista da independência e da dignidade nacional, eles percebem a necessidade de avançar

na direcção do “socialismo do século XXI”. E ao fazê-lo redescobrem a grande herança do

comunismo do século XX: olham com admiração, com simpatia e com respeito Cuba, a China, o

Vietnam.

O processo verificado entre 1989 e 1991 não significou a liquidação dos países que se reclamam

do socialismo. A partir de Outubro de 1917 desenvolveu-se uma dialéctica complexa e

contraditória. O sistema capitalista, reforçado pela absorpção de elementos derivados da bagagem

ideal e política do movimento comunista e da própria realidade do socialismo real, soube depois

exercitar por sua vez uma atracção irresistível sobre a população dos países caracterizados por

um socialismo que, desde o início, traz impressos na face os sinais da guerra desencadeada e

imposta pelo Ocidente, e que depois se torna cada vez mais ossificado e esclerótico até se tornar

a caricatura de si próprio. Quer dizer, os regimes nascidos na onda da revolução bolchevique não

souberam confrontar-se concretamente com o Ocidente que eles próprios tinham contribuído para

modificar em profundidade. Em última análise venceu o sistema político-social que melhor soube

responder ao desafio lançado ou objectivamente constituído pelo sistema oposto e concorrente. E

foi assim que, também neste caso, a inicial vitória parcial conseguida pelo movimento operário e

comunista, com a capacidade demonstrada de desenvolver a sua eficácia histórica concreta

também no campo adversário, se transformou numa derrota de alcance estratégico.

Porém, a própria gravidade de tal derrota, repondo em discussão as conquistas democráticas

conseguidas no século XX, dá novo fôlego, sobretudo no Terceiro Mundo, ao projecto de

transformação socialista. Este, no entanto, perdeu a clareza e a evidência que parecia ter no

século XX. Convém reflectir sobre uma celebérrima tese de Lenin: “sem teoria revolucionária não

há revolução”. O partido bolchevique possuía sem dúvida uma teoria para a conquista do poder;

mas se por revolução se entend e, para lá do derrube da velha ordem, a construção da nova, os

bolcheviques e o movimento comunista encontravam-se substancialmente privados de uma teoria

revolucionária.

Não pode certamente considerar-se como teoria da sociedade post-capitalista a construir a

expectativa escatológica de uma sociedade perfeitamente conciliada e sem contradições e

conflitos de algum tipo. A resistência e a vitalidade dos países de inspiração socialista que

conseguiram superar a crise de 1989/1991 derivam da capacidade demonstrada de levar avante

concretamente, no meio de limitações, erros e experiências mais ou menos felizes, o necessário

processo de aprendizagem, depurando o projecto socialista das suas componentes

abstractamente utópicas e redescobrindo o mercado socialista, o governo da lei em versão

socialista, a persistência das diferenças e identidades nacionais, etc. Abre-se uma fase nova e rica

de incógnitas: o processo de aprendizagem não está e nã o pode ter um sucesso garantido, não é

imune nem ao surgimento de contradições e conflitos nem ao perigo da derrota. É um processo

que se acha bem longe de ter chegado ao seu termo.

Notas:

[1] Lenin, 1955 c, p. 403 e Lenin, 1955 a, p. 417.

[2] Rosenberg 1937, p. 673.

[3] Rosenberg 1937, pp. 668-9.

[4] Cfr. Losurdo 2002, cap. 27, § 7.

[5] Sobre o eugenismo nos EUA e na Alemanha, cfr. Kühl 1994, p. 61; o juízo lisongeiro do

presidente Harding é referido na abertura do livro de Stoddard 1925.

[6] Lenin, 1955 b, p. 282.

[7] Sobre isto, cfr. Losurdo, 1998, cap. II, 3.

[8] Johnson, 1993, pp. 22 e 43-44.

* Domenico Losurdo, filósofo e historiador, é Professor da Universidade de Urbino, Itália

Tradução de J.A. Nunes

CUBA SISTEMA SOCIALISTA

ENVIADO A MIM POR ATTMAHN E REDIRECIONADO PARA O BLOG

ESSES SÃO OS VINTE E SEIS FATOS QUE DIFERENCIAM CUBA

DE OUTRAS NAÇÕES DO MUNDO

"É isso que eles não podem nos perdoar, que estejamos aqui, sob seus narizes, e que tenhamos feito uma

revolução socialista debaixo dos narizes dos Estados Unidos (...) Esta é a revolução socialista e

democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes", 16 abril 1961, do discurso de Fidel

Castro, durante o funeral das vítimas do bombardeio que foi o prelúdio da invasão à Baía dos Porcos.



Em Cuba a cada primeiro de janeiro se comemora mais um ano da revolução vitoriosa. Até a chegada desse dia

comemorativo da revolução socialista, transcorreram mais de um século de lutas e combates que forjaram a

constituição de uma nação livre, independente e soberana. A revolução cubana é uma revolução concebida como

um processo de construção nacional do povo, feita por homens e mulheres e para os homens e mulheres desse país.

Nesses 50 anos de Revolução, Cuba teve que suportar toda uma série de agressões (militares, terroristas,

bacteriológicas, mediáticas...) por parte do império ianque, devido unicamente ter se rebelado e conquistado assim

sua segunda independência (a primeira foi contra os espanhóis) e a manter, apesar do enorme sacrifício solicitado à

sua população e, sobretudo, porque é um mal exemplo para outros povos neo-colonizados e dependentes do

império, que poderiam, por sua vez, proclamar sua própria independência.

Contra Cuba há uma enorme campanha mediática de desinformação lançada através da grande mídia que está a

serviço do Império e assim nos chega apenas alguns acontecimentos que ocorrem na ilha, precisamente aqueles que

estão fora do contexto cubano ou distorcidos e manipulados dando a impressão que em Cuba existe uma ditadura

criminosa e sanguinária, que oprime seus habitantes e que não defende os direitos humanos. Essa é a visão que hoje

predomina em nossas sociedades, pois é isso que nos mostra os serviços de comunicação do império.

Vamos a seguir listar uma série de fatos, desconhecidos por muitos e que mostram outra visão, mais real do que

ocorre em Cuba e com sua revolução.

1) Sabiam vocês que o povo cubano vem suportando um bloqueio econômico, comercial e financeiro por parte dos

Estados Unidos desde o ano de 1961, como medida de guerra que castiga toda empresa que negocia com Cuba e

que tal embargo/bloqueio não está legitimado pelas Nações Unidas? Em outubro do ano passado 185 países dos

192 que integram as Nações Unidas votaram a favor para que seja cessado o embargo/bloqueio. Os danos causados

á economia cubana por tal atitude foi estimado em 53 bilhões de euros entre 1961 a 2008. Quem exerce então uma

política genocida contra o povo cubano? Com certeza são os Estados Unidos e seus aliados!

2) Sabiam vocês que o povo cubano celebra eleições a cada cinco anos, nos âmbitos municipal, estadual e federal e

que na mesma não concorrem os partidos políticos, nem tampouco o Partido Comunista? Existe então livre

concorrência de candidatos nas eleições, que são propostos por assembléias populares de cada âmbito, ao estilo da

democracia assembleísta da Revolução Francesa nos seus primeiros anos. A Cuba lhe criticam por não permitir

pluripartidarismo político, mas hoje sabemos que o pluripartidarismo político, sob uma sociedade capitalista, que

tudo compra não garante que haja em seu bojo a democracia, ou seja, um governo do povo e para o povo –

fomentado assim uma plutocracia a serviço dos mais ricos, com o surgimento de um forte bipartidarismo, onde as

elites se alternam no poder segundo suas tendências ideológicas (mais liberal ou mais conservadora).

3) Sabiam vocês que o povo cubano aprovou uma Constituição democrática de caráter socialista, no ano de 1976

com voto favorável de 97% do eleitorado, que reconhece e garante os direitos fundamentais amparados da

Declaração Universal dos Direitos Humanos e que é uma das mais avançadas do mundo? A Cuba se critica por sua

falta de democracia – mas igual a outros paises – foi dotada de uma Constituição que regula seu sistema políticoinstitucional,

sempre referendado por seu povo e por isso não podemos qualificá-la de ditatorial, apenas devido sua

opção socialista.

4) Sabiam você que Cuba ocupa o posto número 50 em Desenvolvimento Humano (Alto Desenvolvimento

Humano), entre um total de 177 países estudados, levando em conta que está incluída naquelas sociedades que

melhoram as condições de vida de seus habitantes através do aumento dos bens para cobrir as necessidades básicas

e complementares e na criação de um entorno em que se respeitem os direitos humanos – segundo o informe de

2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento?

2

5) Sabiam vocês que Cuba é o único país do mundo que cumpre com os critérios mínimos para a sustentabilidade

ecológica segundo informe de 2006 apresentado pela Associação Suíça ADENA – Fundo Mundial para a

Natureza?

6) Sabiam vocês que Cuba é, segundo a UNICEF, o único país da América Latina que erradicou a desnutrição

infantil, inclusive durante o duro período especial dos anos 90 e exibe a Esperança de Vida mais alta do chamado

Terceiro Mundo (78 anos) e a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América Latina e Caribe? (4,7 por cada

mil nascidos vivos, inclusive mais baixa daquela apresentada pelos Estados Unidos).

7) Sabiam vocês que Cuba com seus escassos recursos é um dos países que mais compromissos tem em cooperação

com os países do terceiro mundo, desenvolvendo programas como “Barrio Adentro” na Venezuela em que cada

bairro/favela foi dotado de um Centro de Saúde e também a “Operación Milagro” que durante seus últimos quatro

anos de funcionamento devolveu a visão para um milhão de meio de pessoas de mais de vinte nacionalidades

diferentes de forma gratuita e com o apoio do governo da Venezuela?

8) Sabiam vocês que Cuba erradicou o analfabetismo em 1961, somente dois anos depois da revolução e que

atualmente através do programa de alfabetização de adultos “Yo, si puedo” permitiu que em escassos dois anos,

países como a Venezuela, Nicarágua e Bolívia ficassem livres do analfabetismo? E que através do programa de

bolsas, permitiu a graduação de 47.000 jovens procedentes de 126 países em mais de 33 especialidades técnicas? E

que desde 1961, Cuba cooperou com 154 países do mundo com um aporte de 270 mil voluntários e que na

atualidade cooperam no exterior mais de 41 mil profissionais cubanos em 97 países, das quais 31 mil são do setor

saúde? E que Cuba é o país do mundo que aloca mais médicos na Campanha das Nações Unidas contra a AIDS

com mais de três mil médicos, quando os Estados Unidos e a União Européia juntos aportam apenas um mil? Isso

indica que as Nações Unidas, sem o apoio dos médicos cubanos não poderia realizar tal campanha? O mesmo

acontece com os 2.500 médicos cubanos enviados para cobrir o terremoto do Paquistão em 2005, onde foram

salvas mais de 1.500 pessoas e curadas centenas de milhares mais. Sabiam vocês que Cuba tem o melhor handicap

médico por habitante do mundo e quem afirma isso é a OMS?

9) Sabiam vocês que Cuba condenou o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 e que cinco cubanos

permanecem presos em cárceres dos Estados Unidos desde 1997 por terem se infiltrado em organizações terroristas

de Miami e por haverem alertado ao governo dos Estados Unidos dos planos para a realização de 170 atentados na

ilha, sendo equivocadamente acusados de espionagem em processo judicial armado previamente e na qual foram

condenados as altas penas de prisão, entre elas duas condenações perpétuas a uma mesma pessoa? E que tais

prisioneiros são torturados em masmorras conhecidas com “el Hueco”? Sabiam vocês que ocorre nesse momento

uma campanha mundial para que os prisioneiros cubanos nos Estados Unidos sejam libertados?

10) Sabiam vocês que o povo cubano tem enviado centenas de milhares de voluntários para combater o

colonialismo em vários países do mundo, apoiando todos os movimentos de libertação nacional desses países,

principalmente na África, como na Argélia, Congo e Angola e na América Latina como Bolívia e Nicarágua?

11) Sabiam vocês que na batalha de “Cuito Cuanavale” em Angola em 1987, graças as tropas cubanas, foi

derrotado o exército da África do Sul apoiado pelos Estados Unidos e Israel e com isso se obteve a independência

total de Angola, Namíbia e Zimbawe e ao mesmo tempo dado um golpe mortal no regime racista da África do Sul –

o que permitiu o desmoronamento poucos anos depois desse regime e a libertação de Nelson Mandela?

12) Sabiam vocês que em 1984 Cuba e Estados Unidos firmaram um acordo em que os Estados Unidos se

comprometiam a conceder vinte mil vistos de entrada ao ano para os cubanos que quiserem viajar e se fixar a esse

país e que na realidade nunca deram mais de mil ao ano, forçando desse modo a que se produza uma emigração

clandestina e que muitos que arriscam sua vida em alto mar em barcos precários, emigração essa premiada nos

Estados Unidos com a Lei de Ajuste, que concede a nacionalidade estadunidense a quem viaja ilegalmente, sempre

que declare ser vitima de perseguição política por parte do governo cubano?

13) Sabiam vocês que os Estados Unidos proíbem seus cidadãos viajar para Cuba e quem o fizer se sujeitarão a

penas de 10 anos de prisão?

14) Sabiam vocês que enquanto em Cuba são mantidos abertos escritórios de vários meios de comunicação

estrangeiros, tanto europeus como estadunidenses (entre eles a CNN) os Estados Unidos não autorizam jornalistas

cubanos a trabalharem nesse país?

3

15) Sabiam vocês que Cuba foi o primeiro país a solicitar que se suprima a dívida externa dos chamados países do

terceiro mundo?

16) Sabiam vocês que Cuba tem um dos melhores sistemas sanitários e educativos do mundo de caráter público,

gratuito, universal, reconhecido pelas Nações Unidas – da qual beneficiam inclusive cidadãos estadunidenses de

baixa renda, e que chegam a Cuba tanto para estudar como para serem medicados e que correm riscos no retorno ao

seu país de sofrerem represálias de autoridades governamentais? Nos Estados Unidos tais serviços são precários

para essa faixa populacional, geralmente explorado por empresas privadas.

17) Sabiam vocês que Cuba é uma potência em biotecnologia e que muita patentes farmacológicas são empregadas

para curar numerosas enfermidades no mundo a preços baratos, entre elas o fármaco que cura úlceras em pés e

pernas de diabéticos.

18) Sabiam vocês que enquanto Cuba é tachada pelo império de violar os direitos humanos por ter condenado no

ano de 2003, 75 cubanos que conspiravam juntamente com o governo dos Estados Unidos para derrubar o regime

socialista existente na ilha; em 50 anos de revolução, delitos graves como assassinatos políticos, tortura,

desaparecimentos de pessoas, seqüestro, tráfico de seres humanos e cárceres-limbo como o que existe em

Guantânamo, vôos secretos de aviões, execuções extra-judiciais nunca foram constatados na ilha? A ocorrência de

tais fatos é comum nos Estados Unidos, países europeus aliados e em suas respectivas colônias de domínio e não

em Cuba e isso consta em relatórios da entidade Anistia Internacional. Sabiam vocês que pelo quinto ano

consecutivo Cuba faz parte do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, com o apoio principal dos

países do chamado Terceiro Mundo, enquanto isso os Estados Unidos estão alijados desse fórum.

19) Sabiam vocês que em Cuba os adultos maiores de idade realizam voluntariamente tarefas sociais de interesse

comunitário e devido a isso em Cuba não existem anciões que vivem sós? Tais tarefas são estimuladas e apoiadas

pelas empresas/entidades onde tais pessoas trabalham.

20) Sabiam vocês que a cada ano toda sua população recebe um programa de simulação para defesa contra

furacões, chamado Meteoro – o quem tem possibilitado que existam poucas vítimas no momento em que fenômeno

natural atinge a ilha (cerca de uma dezena de pessoas em 10 anos), enquanto em outros países da zona do Caribe,

inclusive nos Estados Unidos, morrem milhares de pessoas, como foi no caso do furacão Katrina?

21) Sabiam vocês que em Cuba existe 65 escolas de arte, se editam 80 milhões de livros ao ano e são rodadas 5 ou

6 filmes anualmente e que existem 11 mil instalações esportivas gratuitas, sendo uma potência mundial no esporte,

com 24 medalhas em Pequim e 27 em Atenas?

22) Sabiam vocês que Cuba é juntamente com a Venezuela, a pioneira em estabelecer um sistema de integração

socioeconômica latino-americana de caráter solidário, chamado ALBA, no qual vão se somando outros países (são

nove até o momento) que conseguiu bloquear os tratados de livre comércio promovido pelos Estados Unidos, que

tanto tem arruinado o desenvolvimento dos povos latino-americanos?

23) Sabiam vocês que Cuba é o único país da América que dá às mulheres grávidas um ano de licença, com

recebimento de salário integral e no retorno ao trabalho há garantias de que essa pessoa não perderá o emprego? E

se a criança necessitar cuidados especiais, a mãe pode tirar outra licença e o salário dela irá para o pai se assim o

casal concordar?

24) Sabiam vocês que cada cidadão cubano tem o direito de ser atendido sem despesas para si em operações

cirúrgicas de alto custo como doenças do coração, homodiálise, AIDS, transplantes de órgãos e outros.

25) Sabiam vocês que em Cuba atualmente há mais mulheres relacionadas às pesquisas científicas do que homens?

Que na área profissional técnica também há também mais mulheres trabalhando do que homens? Que nas

universidades as matriculas de mulheres são maiores do que aquelas realizadas por homens?

26) Sabiam vocês que todos os serviços básicos oferecidos a população como água, luz, gás telefone, cesta básica,

transporte público, pagamento de aluguéis para moradia e outros são subsidiados pelo governo, portanto as famílias

pagarão preços reduzidos pelo uso dos mesmos e que tal fato pode ser considerado como sendo salário indireto aos

trabalhadores.

4

Tradução de Jacob David Blinder fundamentada nos textos enviados por Pedro Gellert, José Iván Dávalos e

Mayra Godoy