Postado por Attman e Kamadon
A ganância foi promovida a legítima aspiração de aquisitividade, a rivalidade ganhou ares respeitosos como competição pela eficiência e a ostentação foi assimilada como exibição da prosperidade.
A rivalidade entre os homens e a disputa pela riqueza seriam nosso destino. Uma humanidade dominada pela ferocidade, pela cobiça ou pelo medo precisaria de uma ordem política disciplinada, portanto, repressiva, que organizasse os limites de suas lutas internas. Resumindo e sendo brutal: o direito ao enriquecimento seria a recompensa dos mais empreendedores, ou mais corajosos, ou mais capazes e seus herdeiros.A revelação de uma ascendência comum com os símios colocou de pernas para o ar a perspectiva de uma humanidade predestinada a ser a coroação da vida. A vida é frágil. Não há um destino à nossa espera. O amanhã nos reserva muitos perigos. Sabemos que a centelha de consciência que nos define foi o produto de uma aventura grandiosa.
A causa mais elevada do nosso tempo é a defesa da humanidade. Nada é mais importante. Para os socialistas, a permanência do capitalismo é a principal ameaça à vida civilizada.A vida é delicada e a extinção não é excepcional. A extinção é o padrão mais regular.
A idéia de uma seleção sexual dos mais aptos – aqueles que superaram os obstáculos e foram capazes de deixar descendência – foi transportada para a economia para justificar o mercado como forma mais eficiente, e até natural, de regulação de recursos.
A ampliação desta riqueza da natureza humana foi a substância do progresso. Fizemo-nos mais rápidos que o guepardo e mais fortes que o elefante. Voamos mais alto que o condor e descemos a profundidades maiores que os peixes.
O gigantismo das forças produtivas atuais está aprisionado dentro de relações sociais capitalistas que ficaram estreitas demais. A potência contida nas forças produtivas é explosiva. Se não for libertado das amarras que as contêm ameaça destruir a civilização. O domínio da natureza sem uma solução socialista dos terríveis antagonismos que dividem os homens em classes colocou a natureza e a própria humanidade na beira do abismo.
O direito ao voto universal, o direito de liberdade de imprensa, o direito de organização sindical e popular foram conquistados em lutas heróicas encabeçadas pelos socialistas.
O socialismo não é o aumento dos salários, mas a gradual extinção do dinheiro e da remuneração salarial. A igualdade social não é a uniformização das mercadorias. O socialismo é a ampliação e diversificação do consumo, e o fim da forma mercantilizada dos produtos. Quando se trata de seres humanos, atribuímos à palavra liberdade o significado exclusivo de liberdade na sociedade. É óbvio que não compreendemos liberdade no sentido que hoje tantos atribuem à palavra. O que queremos dizer é antes que, através da liberdade econômica, o homem é libertado das condições naturais. Liberdade na sociedade significa que um homem depende tanto dos demais como estes dependem dele. A sociedade, quando regida pela economia de mercado, pelas condições da economia livre, apresenta uma situação em que todos prestam serviços aos seus concidadãos e são, em contrapartida, por eles servidos.
O fato é que, no sistema capitalista, os chefes, em última instância, são os consumidores. Não é o Estado, é o povo que é soberano. Prova disto é o fato de que lhe assiste o direito de ser tolo. Este é o privilégio do soberano.Liberdade significa realmente liberdade para errar. Isso precisa ser bem compreendido.O livre arbítrio do homem é axioma cristão.Nem a nossa liberdade nem a de Deus existe em absoluto. Quando Deus criou o universo, encheu de bilhões de seres responsáveis, tolerou sua queda em pecado e rebelião numa vasta escala, ainda empenhou os recursos divinos da Trindade na redenção, e entregou a empresa de evangelizar os pecadores aos esforços vagarosos e imperfeitos de outros pecadores, salvos pela graça, Ele inevitavelmente pôs pesados limites á liberdade divina.
Tudo quanto seja condicional, nas relações entre Deus e outras personalidades responsáveis e dotadas de livre arbítrio, constitui limite à liberdade divina. Outrossim, enquanto existe o estado atual da matéria, Deus se conforma com suas próprias “leis da natureza”, por Ele estabelecidas, as quais são apenas seus “hábitos de ação” providencial nessa esfera. Mas Ele não está preso numa gaiola de leis da sua confecção. Antes possui sempre os recursos infinitos da personalidade divina para introduzir, á sua vontade, fatores por nós desconhecidos que também podem agir no regime dessas leis, por exemplo, em responder ás orações do seu povo, em salvar, guardar e orientar o crente em Cristo Jesus, em toda aquela esfera da providência divinas que faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que são chamados segundo o seu propósito, e em manter o universo em sua quilha, seguro no seu rumo dos séculos, a despeito das maquinações de demônios e homens maus, em marcha rítmica ao dia do juízo final e à ordem eterna das coisas.Três doutrinas que nos falam da liberdade de deus são sua predestinação, sua eleição e sua chamada eficaz. Há pouco no Novo Testamento sobre a doutrina da predestinação, pois a palavra só se emprega em Atos 4.28; Romanos 8.29, 30; 1 Coríntios 2.7; e Efésios 1.5,11. O estudante da Bíblia, porém, se ler estas Escrituras e lhe der seu valor evidente, há de sentir quão profunda é esta verdade e quão extenso o seu alcance. O leitor é convidado a ler, meditar estudar e assimilar estas verdades, sem rodeios, sem buscar anular seu sentido e valor pela lógica de sofismas incrédulos. Verá na sua pujança e pureza a doutrina da liberdade de Deus, não precisa gastar tempo procurando harmonizar isto coma liberdade humana, pois não há conflito entre as múltiplas liberdade de personalidade. Nunca entenderemos isto, mas podemos crer, pois, ou Deus é livre, ou não há Deus.
O homem livre planeja diariamente, segundo suas necessidades.Na verdade, a escolha está entre o planejamento total feito por uma autoridade governamental central e a liberdade de cada indivíduo para traçar os próprios planos, fazer o próprio planejamento. 0 indivíduo planeja sua vida todos os dias, alterando seus planos diários sempre que queira.
O sistema socialista, contudo, proíbe essa liberdade fundamental que é a escolha da própria carreira. Mas condições socialistas há uma única autoridade econômica, e esta detém o poder de determinar todas as questões atinentes à produção.
O problema de que estou tratando é a questão fundamental do cálculo econômico capitalista em contraposição ao que se passa no socialismo.É um problema muito difícil e complexo, e para analisá-lo em toda a sua amplitude seria necessário um pouco mais de tempo do que o que tenho aqui.Assim sendo,não é o altruísmo que os move; é seu desejo de ganhar dinheiro. E o efeito foi que o padrão de vida se elevou, nos Estados Unidos, a níveis quase miraculosos quando confrontados às condições reinantes há cinqüenta ou cem anos atrás. Mas na Rússia Soviética, onde esse sistema não vigora, não se verifica um desenvolvimento comparável. Assim, os que nos recomendam a adoção do sistema soviético estão inteiramente equivocados.
sábado, 24 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
"Alegrai-vos estudantes, estudem e lutem!"
Postado por Attman e Kamadon
Antônio Elcio Carvalho Cavalcante *
"Seja a mudança que queres ver no mundo".
(Mahatma Gandhi)
Diante da apatia, acomodação, conformismo e da inércia política dos meus jovens aluno(a)s perante a realidade da vida, diante do destino de suas vidas particulares e profissionais, resolvi escrever algumas considerações sobre este comportamento assaz estático, letárgico, alienante, conservador e às vezes reacionário desses jovens e velhos estudantes. Entretanto, alerto-os que a participação e as decisões políticas influenciam o cotidiano da coletividade em que vivemos, pois é evidente que há uma carência de agentes transformadores na sociedade.
Primeiramente devemos nos indagar "Onde estamos" e para "onde pretendemos chegar ou irmos", destarte, saberemos o que realmente queremos da nossa vida. O filósofo romano Sêneca nos legou: "Se você não sabe a direção a que porto ir, nenhum vento lhe será favorável".
Tracem objetivos de curto e longo prazo em seu cotidiano. Organização é vida. E tudo na vida é preciso planejamento, organização e disciplina. Depois do planejamento tudo será mais fácil, mesmo com os óbices, intempéries e tempestades que surgirão e que não são poucos em suas vidas, tenho certeza de que saberão se adaptar às dificuldades e tomarão novos rumos e rotas baseadas em seu planejamento. A vida é repleta de alegrias e dores que são inerentes à arte de viver. Carpe diem, caro(a)s estudantes!
Estudem e lutem, pois somente através dos estudos é que teremos a chance de mudarmos está adversa e hostil realidade, possibilitando a transformação da nossa rotina, todavia, só será possível em contato eterno com os livros e com a prática política: "Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma", assim nos ensinou o poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht.
Lembrem-se amiúde de que no Brasil, os vários pobres, que são milhões, são muito pobres e os poucos ricos são excessivamente muito ricos. Nunca se esqueçam que vivemos em uma sociedade capitalista que é profundamente injusta, cruel, inexorável e que vivemos em classes sociais antagônicas, onde a grande maioria dos trabalhadores vive na escassez, em plenas dificuldades, fome e miséria para 90% da população mundial, enquanto 10% das pessoas vivem no excesso do luxo, na opulência, no desperdício e no supérfluo. "Oh! Mundo tão desigual! Tudo é tão desigual! De um lado este carnaval! De outro a fome total!".
Pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revela que no Brasil mais de 14 milhões de brasileiros passam fome, é o país com o maior número de pessoas com fome no mundo, que paradoxalmente não se explica pela falta de alimentos. O problema alimentar reside no descompasso entre o poder aquisitivo de um amplo segmento da população e o custo de aquisição de uma quantidade de alimentos compatível com a necessidade de alimentação do trabalhador e de sua família que se defrontam diariamente com o problema da fome; a renda mensal desses trabalhadores lhes garante, na melhor das hipóteses, apenas a aquisição de uma cesta básica de alimentos.
Após a exposição deste quadro assustador, revoltem-se, indignem-se contra toda forma de injustiça, opressão e exploração contra qualquer indivíduo. Coloquem-se ao lado dos mais fracos e pobres. E, quando galgarem cargos, funções e estiverem "por cima", é imprescindível não perder o bom senso. Sejam honestos, éticos, generosos e gentis com as pessoas que cruzarem os seus caminhos. Respeitem os mais humildes, os menos capazes, os mais velhos, os animais, a natureza e todas as formas de vida possíveis e imagináveis, dê ouvidos aos que discordam do que pensamos. Tudo na natureza e na vida muda. "A única coisa permanente é a mudança". A grande sapiência é ter consciência de que nada na vida é eterno e perpétuo: nem as coisas boas e nem as coisas más, ruins. Não sejam egoístas e nada de ostentação. A simplicidade é o segredo e a chave do bem viver. Eu sempre digo que o meu egoísmo é altruísta. Lembrem-se e pratiquem a solidariedade. Como disse com muita propriedade o profeta Gentileza: "gentileza gera gentileza".
Pois bem caro(a)s estudantes, o poeta Chacal nos alertou: "a vida é curta, mas não deve ser pequena".
Desejo-lhes que encontrem alguma coisa útil para as suas vidas e façam à diferença em suas existências e na realidade que nos cerca. Animem-se: "agarre o livro".
* Professor de História
Antônio Elcio Carvalho Cavalcante *
"Seja a mudança que queres ver no mundo".
(Mahatma Gandhi)
Diante da apatia, acomodação, conformismo e da inércia política dos meus jovens aluno(a)s perante a realidade da vida, diante do destino de suas vidas particulares e profissionais, resolvi escrever algumas considerações sobre este comportamento assaz estático, letárgico, alienante, conservador e às vezes reacionário desses jovens e velhos estudantes. Entretanto, alerto-os que a participação e as decisões políticas influenciam o cotidiano da coletividade em que vivemos, pois é evidente que há uma carência de agentes transformadores na sociedade.
Primeiramente devemos nos indagar "Onde estamos" e para "onde pretendemos chegar ou irmos", destarte, saberemos o que realmente queremos da nossa vida. O filósofo romano Sêneca nos legou: "Se você não sabe a direção a que porto ir, nenhum vento lhe será favorável".
Tracem objetivos de curto e longo prazo em seu cotidiano. Organização é vida. E tudo na vida é preciso planejamento, organização e disciplina. Depois do planejamento tudo será mais fácil, mesmo com os óbices, intempéries e tempestades que surgirão e que não são poucos em suas vidas, tenho certeza de que saberão se adaptar às dificuldades e tomarão novos rumos e rotas baseadas em seu planejamento. A vida é repleta de alegrias e dores que são inerentes à arte de viver. Carpe diem, caro(a)s estudantes!
Estudem e lutem, pois somente através dos estudos é que teremos a chance de mudarmos está adversa e hostil realidade, possibilitando a transformação da nossa rotina, todavia, só será possível em contato eterno com os livros e com a prática política: "Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma", assim nos ensinou o poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht.
Lembrem-se amiúde de que no Brasil, os vários pobres, que são milhões, são muito pobres e os poucos ricos são excessivamente muito ricos. Nunca se esqueçam que vivemos em uma sociedade capitalista que é profundamente injusta, cruel, inexorável e que vivemos em classes sociais antagônicas, onde a grande maioria dos trabalhadores vive na escassez, em plenas dificuldades, fome e miséria para 90% da população mundial, enquanto 10% das pessoas vivem no excesso do luxo, na opulência, no desperdício e no supérfluo. "Oh! Mundo tão desigual! Tudo é tão desigual! De um lado este carnaval! De outro a fome total!".
Pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revela que no Brasil mais de 14 milhões de brasileiros passam fome, é o país com o maior número de pessoas com fome no mundo, que paradoxalmente não se explica pela falta de alimentos. O problema alimentar reside no descompasso entre o poder aquisitivo de um amplo segmento da população e o custo de aquisição de uma quantidade de alimentos compatível com a necessidade de alimentação do trabalhador e de sua família que se defrontam diariamente com o problema da fome; a renda mensal desses trabalhadores lhes garante, na melhor das hipóteses, apenas a aquisição de uma cesta básica de alimentos.
Após a exposição deste quadro assustador, revoltem-se, indignem-se contra toda forma de injustiça, opressão e exploração contra qualquer indivíduo. Coloquem-se ao lado dos mais fracos e pobres. E, quando galgarem cargos, funções e estiverem "por cima", é imprescindível não perder o bom senso. Sejam honestos, éticos, generosos e gentis com as pessoas que cruzarem os seus caminhos. Respeitem os mais humildes, os menos capazes, os mais velhos, os animais, a natureza e todas as formas de vida possíveis e imagináveis, dê ouvidos aos que discordam do que pensamos. Tudo na natureza e na vida muda. "A única coisa permanente é a mudança". A grande sapiência é ter consciência de que nada na vida é eterno e perpétuo: nem as coisas boas e nem as coisas más, ruins. Não sejam egoístas e nada de ostentação. A simplicidade é o segredo e a chave do bem viver. Eu sempre digo que o meu egoísmo é altruísta. Lembrem-se e pratiquem a solidariedade. Como disse com muita propriedade o profeta Gentileza: "gentileza gera gentileza".
Pois bem caro(a)s estudantes, o poeta Chacal nos alertou: "a vida é curta, mas não deve ser pequena".
Desejo-lhes que encontrem alguma coisa útil para as suas vidas e façam à diferença em suas existências e na realidade que nos cerca. Animem-se: "agarre o livro".
* Professor de História
"As duras batalhas que se aproximam"
Postado por Attman e Kamadon"
Brasil de Fato *
1. Estamos nos aproximando do período eleitoral que definirá os rumos do país no espaço institucional, pela eleição de um novo Congresso Nacional, governadores estaduais, assembleias legislativas e a Presidência da República.
No início deste mês, venceu o primeiro prazo de desincompatibilização de cargos públicos para quem vai disputar as eleições. Do governo Lula, saíram onze ministros. E, nos governos estaduais foi uma debandada geral.
De agora em diante, todos os pretendentes a cargos se jogarão de corpo e alma em suas campanhas.
2. No plano da disputa de projetos, parece não haver grandes novidades no front. A sociedade está anestesiada pelo controle absoluto da mídia e pela falta de debate sobre os verdadeiros problemas da sociedade brasileira. Eles são simplesmente ignorados. A pauta da mídia burguesa é a violência nas cidades, acidente de trânsito, grandes júris ou, no máximo, o confronto de declarações, ora entre Lula e FHC, ora entre Dilma e Serra. Os movimentos de massa continuam em refluxo e as organizações de esquerda ainda não saíram da crise ideológica dos últimos anos.
3. Mas, quando tudo parecia uma pasmaceira, eis que a burguesia brasileira, que não dorme de toca, entra em cena. E já está sinalizando sua disposição de ir para a batalha.
As elites dominantes jogam claro: o ideal seria eleger Serra e garantir um governo sem intermediários, totalmente a serviço de uma burguesia subalterna aos interesses do capitalismo internacional. Mas, caso isso não seja possível, querem, pelo menos, transformar a vitória de Dilma numa meia vitória, comprometendo-a a não avançar o sinal e, sobretudo, controlando as organizações sociais para que não cheguem ao reascenso do movimento de massas. E nem avancem em conquistas reais para a classe trabalhadora.
4. Para alcançar esses objetivos, seu principal campo de batalha será a luta ideológica, utilizando-se, basicamente, dos meios de comunicação, sobre os quais possuem controle total, e, subsidiariamente, de setores do poder judiciário, para lhes dar argumentos, cobertura ou pauta.
Assim sendo, realizaram, em março, um importante evento num hotel de luxo de São Paulo, sob os auspícios de um fantasmagórico Instituto Millenium, que reúne a tropa de choque, não só do Brasil, mas de toda a América Latina, encarregada de fazer a luta ideológica. Farão essa batalha em todos os campos e, com isso, tentarão barrar as pequenas mudanças institucionais. Mesmo quando perdem alguma eleição, tentam transformar os governos em reféns de sua política.
Nesse evento, estava a fina flor do pensamento reacionário e conservador, porém hegemônico na grande imprensa brasileira, como os Arnaldos Jabores, Rosenfields, Reinaldos Azevedos e outros aprendizes da escola de Goebels.
As conclusões foram claras: fazer uma luta ideológica para acuar candidaturas progressistas e atacar, sistematicamente, governos progressistas e populares do continente. Além disso, tentar desmoralizar qualquer luta social, seus movimentos, e justificar, perante o Judiciário, a polícia e a sociedade, a necessidade de sua criminalização. Ou seja, repressão.
5. É nesse contexto que se encontra a campanha permanente contra o governo venezuelano de Hugo Chávez, contra o governo de Cuba, contra a jornada de 40 horas e contra qualquer ocupação de terra ou de terrenos na cidade.
6. O governo Lula passou oito anos pregando a conciliação de classes, se iludindo com a possibilidade de apaziguar os ânimos das elites reacionárias. Ledo engano. Virão delas, as principais iniciativas de ataque.
Aos movimentos sociais e às forças populares não cabem ilusões. A luta de classes continuará mais dinâmica do que nunca e a burguesia optou por priorizar a luta no campo ideológico. Afinal, no campo econômico, ela continua ganhando muito dinheiro e, no campo político, continua dividindo parcelas importantes do poder, seja no Executivo, mas sobretudo no Judiciário e no Legislativo.
7. Assim, nos próximos meses, as batalhas ideológicas no campo das ideias e dos projetos e as disputas ao redor de qualquer tema ganharão relevância. E os meios de comunicação terão um papel importantíssimo.
Esperamos que as forças populares entendam esse momento para fortalecer ainda mais as lutas sociais e os veículos de comunicação autônomos da classe trabalhadora.
8. A CUT e a CTB já decidiram - e os movimentos da Via Campesina Brasil se somarão a elas - fazer uma grande jornada de paralisação nacional em todo país, no dia 18 de maio, como forma de pressão pela aprovação do projeto de lei que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Será um belo teste para os avanços da luta de classes e a disputa ideológica na sociedade brasileira. Afinal, a "maioria parlamentar", construída pelo governo a peso de ouro, não foi suficiente para avançar nas questões fundamentais para a classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho, o projeto que determina a expropriação das fazendas com trabalho escravo e a manutenção do código florestal para proteger nosso meio ambiente.
Serão boas lutas nos próximos meses. Preparem-se e participem!
[Editorial - Brasil de Fato - edição 371 - de 8 a 14 de abril de 2010].
* Agência Brasil de Fato. Uma visão popular do Brasil e do Mundo
Brasil de Fato *
1. Estamos nos aproximando do período eleitoral que definirá os rumos do país no espaço institucional, pela eleição de um novo Congresso Nacional, governadores estaduais, assembleias legislativas e a Presidência da República.
No início deste mês, venceu o primeiro prazo de desincompatibilização de cargos públicos para quem vai disputar as eleições. Do governo Lula, saíram onze ministros. E, nos governos estaduais foi uma debandada geral.
De agora em diante, todos os pretendentes a cargos se jogarão de corpo e alma em suas campanhas.
2. No plano da disputa de projetos, parece não haver grandes novidades no front. A sociedade está anestesiada pelo controle absoluto da mídia e pela falta de debate sobre os verdadeiros problemas da sociedade brasileira. Eles são simplesmente ignorados. A pauta da mídia burguesa é a violência nas cidades, acidente de trânsito, grandes júris ou, no máximo, o confronto de declarações, ora entre Lula e FHC, ora entre Dilma e Serra. Os movimentos de massa continuam em refluxo e as organizações de esquerda ainda não saíram da crise ideológica dos últimos anos.
3. Mas, quando tudo parecia uma pasmaceira, eis que a burguesia brasileira, que não dorme de toca, entra em cena. E já está sinalizando sua disposição de ir para a batalha.
As elites dominantes jogam claro: o ideal seria eleger Serra e garantir um governo sem intermediários, totalmente a serviço de uma burguesia subalterna aos interesses do capitalismo internacional. Mas, caso isso não seja possível, querem, pelo menos, transformar a vitória de Dilma numa meia vitória, comprometendo-a a não avançar o sinal e, sobretudo, controlando as organizações sociais para que não cheguem ao reascenso do movimento de massas. E nem avancem em conquistas reais para a classe trabalhadora.
4. Para alcançar esses objetivos, seu principal campo de batalha será a luta ideológica, utilizando-se, basicamente, dos meios de comunicação, sobre os quais possuem controle total, e, subsidiariamente, de setores do poder judiciário, para lhes dar argumentos, cobertura ou pauta.
Assim sendo, realizaram, em março, um importante evento num hotel de luxo de São Paulo, sob os auspícios de um fantasmagórico Instituto Millenium, que reúne a tropa de choque, não só do Brasil, mas de toda a América Latina, encarregada de fazer a luta ideológica. Farão essa batalha em todos os campos e, com isso, tentarão barrar as pequenas mudanças institucionais. Mesmo quando perdem alguma eleição, tentam transformar os governos em reféns de sua política.
Nesse evento, estava a fina flor do pensamento reacionário e conservador, porém hegemônico na grande imprensa brasileira, como os Arnaldos Jabores, Rosenfields, Reinaldos Azevedos e outros aprendizes da escola de Goebels.
As conclusões foram claras: fazer uma luta ideológica para acuar candidaturas progressistas e atacar, sistematicamente, governos progressistas e populares do continente. Além disso, tentar desmoralizar qualquer luta social, seus movimentos, e justificar, perante o Judiciário, a polícia e a sociedade, a necessidade de sua criminalização. Ou seja, repressão.
5. É nesse contexto que se encontra a campanha permanente contra o governo venezuelano de Hugo Chávez, contra o governo de Cuba, contra a jornada de 40 horas e contra qualquer ocupação de terra ou de terrenos na cidade.
6. O governo Lula passou oito anos pregando a conciliação de classes, se iludindo com a possibilidade de apaziguar os ânimos das elites reacionárias. Ledo engano. Virão delas, as principais iniciativas de ataque.
Aos movimentos sociais e às forças populares não cabem ilusões. A luta de classes continuará mais dinâmica do que nunca e a burguesia optou por priorizar a luta no campo ideológico. Afinal, no campo econômico, ela continua ganhando muito dinheiro e, no campo político, continua dividindo parcelas importantes do poder, seja no Executivo, mas sobretudo no Judiciário e no Legislativo.
7. Assim, nos próximos meses, as batalhas ideológicas no campo das ideias e dos projetos e as disputas ao redor de qualquer tema ganharão relevância. E os meios de comunicação terão um papel importantíssimo.
Esperamos que as forças populares entendam esse momento para fortalecer ainda mais as lutas sociais e os veículos de comunicação autônomos da classe trabalhadora.
8. A CUT e a CTB já decidiram - e os movimentos da Via Campesina Brasil se somarão a elas - fazer uma grande jornada de paralisação nacional em todo país, no dia 18 de maio, como forma de pressão pela aprovação do projeto de lei que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Será um belo teste para os avanços da luta de classes e a disputa ideológica na sociedade brasileira. Afinal, a "maioria parlamentar", construída pelo governo a peso de ouro, não foi suficiente para avançar nas questões fundamentais para a classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho, o projeto que determina a expropriação das fazendas com trabalho escravo e a manutenção do código florestal para proteger nosso meio ambiente.
Serão boas lutas nos próximos meses. Preparem-se e participem!
[Editorial - Brasil de Fato - edição 371 - de 8 a 14 de abril de 2010].
* Agência Brasil de Fato. Uma visão popular do Brasil e do Mundo
"Seminário: IV Semana de Ciência e Cultura - Dia 30/04/2010 - 6ª feira "
Postado por Attman e Kamadon
“A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico”
Por Tatiana Merlino
Nos últimos dez anos, a América Latina se transformou na vanguarda da luta anti-imperialista: “foi o continente onde o socialismo do século 21 entrou na agenda política”. A análise é do intelectual português Boaventura de Sousa Santos, que vê grandes avanços no domínio político e “alguns avanços sociais” durante a década passada no continente latinoamericano. No entanto, ele afirma estar receoso com início do novo decênio: “vejo sinais perturbadores”, diz, referindo-se à recente derrota eleitoral da “esquerda moderada” no Chile e ao crescimento da direita na Venezuela.
Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e professor titular da Universidade de Coimbra, em Portugal, Boaventura é considerado um dos principais intelectuais da língua portuguesa na área de ciências sociais. Em conversa com a Caros Amigos, o português falou sobre a crise do capitalismo, o papel da China no novo cenário político-econômico mundial, as propostas de integração da América Latino, e criticou o primeiro ano do governo de Obama: “Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra”.
Diferentemente do que muitos analistas imaginavam, a crise financeira mundial não resultou no colapso do capitalismo. Como o senhor vê a situação daqui para a frente? O que podemos esperar?
Boaventura de Sousa Santos – Essa situação mostra duas coisas: uma, que o pensamento crítico e de esquerda deveria fazer uma moratória de uma ideia que anda sempre presente, que é a crise final do capitalismo. Quantas crises finais já vimos, quantas foram anunciadas? Meus amigos Immanuel Wallerstein e David Harvey já estão falando em crise final. É evidente que haverá um fim, mas é muito difícil imaginá-lo agora. Hoje, o capitalismo não é um modo de produção, e sim um modo de civilização. Temos hábitos que não se imagina que possam existir fora da sociedade capitalista. Portanto, essa é uma luta por uma nova hegemonia, uma nova cultura. São necessárias transformações civilizacionais, e é por meio de uma luta de civilização que o capitalismo vai, eventualmente, cair. Mas não será já. Por exemplo, a crise financeira mostrou exatamente a capacidade de fôlego e de renovação interna que o capitalismo tem. Ele não tem princípios – só tem um, o lucro. Por isso que o capitalismo é, por essência, antidemocrático. Ele tolera a democracia enquanto ela for irrelevante para a proteção dos seus interesses. No momento em que ela ameaçar o desenvolvimento dos seus interesses, o capitalismo pode se transformar em anti-democrático.
Mas o fatos dos bancos terem recorrido ao Estado não muda o cenário do capitalismo mundial?
A partir de uma leitura marxista de Estado não há nenhuma surpresa. O Estado está aí para segurar o capital, e obviamente o Estado americano sustentou o capital financeiro. É aí que podemos discutir em que fase do capitalismo estamos. Nesse ponto eu concordo com os meus colegas. Acho que estamos numa fase particularmente perdedora do capitalismo. E, historicamente, uma certa derrocada do capitalismo acontece fundamentalmente nos momentos em que o capital financeiro começa a dominar o capital produtivo. Foi assim no declínio da Inglaterra, e hoje cremos que pode vir a dar-se a crise desse sistema. A palavra mais demonizada dos últimos tempos foi a “nacionalização”. No entanto, os homens de Wall Street não
hesitaram em aceitar a nacionalização da grande empresa de seguros A&G e de alguns bancos. Foram salvos exatamente pelo Estado. Ou seja, não há princípios, há resultados, há lucros. Essa crise não foi superada, pois, agora, foi aparentemente resolvida pelo capital financeiro. O presidente Obama declara que tem que haver uma regulação do capital financeiro porque a situação não é admissível para os cidadãos. Isso, mesmo numa democracia tão limitada como a norte-americana, em que tantos trilhões de dólares foram injetados no sistema financeiro para obter lucros fabulosos e se distribuir bônus e subsídios aos seus executivos, como faziam antes. Então, nada mudou. Essa é a primeira razão para mostrarmos que temos que ter uma certa prudência quando declararmos as fases finais do capitalismo. Temos que continuar a lutar, mas sabendo que esse é um sistema que tem uma capacidade histórica de se renovar. A segunda razão pela qual nada mudou é que a esquerda nas duas últimas décadas comprou as teses neoliberais. Aquela esquerda que tem a pretensão de chegar ao governo em muitos países – com exceção de alguns países do continente, como Equador, Bolívia ou Venezuela – acabou por aceitar que o mercado é um princípio de eficiência fundamental, que é melhor que o Estado, que a desregulação é importante, que a iniciativa privada é importante. Ou seja, a esquerda ficou desarmada.
Como o senhor vê o papel da China nessa nova conjuntura político-econômica? Ela tem potencial para redefinir a geopolítica mundial?
Tem, sim, e estamos a falar de mais de um quinto da população mundial, com uma parcela significativa da humanidade. Esse país tem uma grande capacidade de ser uma força internacional. Ao contrário dos países ocidentais, injetou dinheiro na economia produtiva e, portanto, é o primeiro país a sair da crise. Com um crescimento que, calcula-se, será de 9% neste ano. Entre suas limitações está a disjunção entre o sistema político e econômico. É um sistema do lucro, do egoísmo, governado por um partido único autoritário que tem outras lógicas de funcionamento. Por quanto tempo essa disjunção vai existir? A China vai ser uma influência boa e má. Boa no sentido de moderar os instintos imperialistas dos Estados Unidos. Mas isso não é garantia que não possa vir a prejudicar outros interesses da humanidade.
Quando Barack Obama ganhou as eleições presidenciais, o senhor escreveu um artigo falando do valor simbólico da vitória. Passado um ano de governo, recém-completado, qual é o balanço que o senhor faz, tanto da política interna quanto externa?
Nesse artigo eu já mostrava alguma distância em relação ao Obama. É curioso que fui talvez uma das primeiras pessoas a escrever colunas internacionais que não “embandeiraram arco”, como a gente diz em Portugal, com a eleição de Obama. É claro que simbolicamente há um poder enorme, porque, não ele, mas sua mulher, é descendente de escravos, e, assim, entra na Casa Branca uma descendente dos escravos que construíram a mesma Casa Branca. E isso é de um valor simbólico notável, do mesmo modo que é chegar um operário ao governo no Brasil. Mas um ano depois, o que vemos é que, por mais inteligente que seja um homem – e ele é o melhor aluno de Harvard até hoje –, por mais que ele tenha uma capacidade retórica impressionante, quando chega ao poder fica totalmente enredado a esse poder. Ao fim desse primeiro ano de mandato só temos desilusões. De fato, não há nada de positivo. Quando da crise financeira, o Obama ainda era candidato e o vi na televisão rodeado pelos grandes homens do Goldman Sachs [um dos maiores bancos de investimento do mundo], que são hoje seus consultores. Portanto, ainda como candidato ele deu sinais de que não ia mudar a política do país. Mas foi pior do que aquilo que se esperava, na medida em que ele tinha um perfil de luta contra a guerra. Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra. O Obama também tem a sua. E esta, todavia, é quiçá mais perigosa que a guerra do Bush contra o Iraque. Porque é uma guerra no Afeganistão, onde historicamente ninguém ganha. E é uma guerra que se estende a um país que antes era amigo, o Paquistão, que está a ser desagregado devido à influencia dos EUA. Portanto, a desilusão no campo da guerra é total. A segunda desilusão é o comportamento em relação à América Latina. Não é desilusão porque eu não estava iludido, mas é evidente que muita gente ficou, porque Obama veio com um discurso completamente distinto, de estender a mão aos colegas latino-americanos. Mas a verdade é que a Quarta Frota continua e vieram as sete bases militares na Colômbia, que não têm nada a ver com a droga, nem sequer com a guerrilha. Elas estão orientadas basicamente para a biodiversidade desse continente, área estratégica para os Estados Unidos. Portanto, não pode ocorrer nada nesse continente que ponha em risco os seus interesses estratégicos ou o seu acesso aos recursos naturais.
Tatiana Merlino é jornalista
“A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico”
Por Tatiana Merlino
Nos últimos dez anos, a América Latina se transformou na vanguarda da luta anti-imperialista: “foi o continente onde o socialismo do século 21 entrou na agenda política”. A análise é do intelectual português Boaventura de Sousa Santos, que vê grandes avanços no domínio político e “alguns avanços sociais” durante a década passada no continente latinoamericano. No entanto, ele afirma estar receoso com início do novo decênio: “vejo sinais perturbadores”, diz, referindo-se à recente derrota eleitoral da “esquerda moderada” no Chile e ao crescimento da direita na Venezuela.
Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e professor titular da Universidade de Coimbra, em Portugal, Boaventura é considerado um dos principais intelectuais da língua portuguesa na área de ciências sociais. Em conversa com a Caros Amigos, o português falou sobre a crise do capitalismo, o papel da China no novo cenário político-econômico mundial, as propostas de integração da América Latino, e criticou o primeiro ano do governo de Obama: “Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra”.
Diferentemente do que muitos analistas imaginavam, a crise financeira mundial não resultou no colapso do capitalismo. Como o senhor vê a situação daqui para a frente? O que podemos esperar?
Boaventura de Sousa Santos – Essa situação mostra duas coisas: uma, que o pensamento crítico e de esquerda deveria fazer uma moratória de uma ideia que anda sempre presente, que é a crise final do capitalismo. Quantas crises finais já vimos, quantas foram anunciadas? Meus amigos Immanuel Wallerstein e David Harvey já estão falando em crise final. É evidente que haverá um fim, mas é muito difícil imaginá-lo agora. Hoje, o capitalismo não é um modo de produção, e sim um modo de civilização. Temos hábitos que não se imagina que possam existir fora da sociedade capitalista. Portanto, essa é uma luta por uma nova hegemonia, uma nova cultura. São necessárias transformações civilizacionais, e é por meio de uma luta de civilização que o capitalismo vai, eventualmente, cair. Mas não será já. Por exemplo, a crise financeira mostrou exatamente a capacidade de fôlego e de renovação interna que o capitalismo tem. Ele não tem princípios – só tem um, o lucro. Por isso que o capitalismo é, por essência, antidemocrático. Ele tolera a democracia enquanto ela for irrelevante para a proteção dos seus interesses. No momento em que ela ameaçar o desenvolvimento dos seus interesses, o capitalismo pode se transformar em anti-democrático.
Mas o fatos dos bancos terem recorrido ao Estado não muda o cenário do capitalismo mundial?
A partir de uma leitura marxista de Estado não há nenhuma surpresa. O Estado está aí para segurar o capital, e obviamente o Estado americano sustentou o capital financeiro. É aí que podemos discutir em que fase do capitalismo estamos. Nesse ponto eu concordo com os meus colegas. Acho que estamos numa fase particularmente perdedora do capitalismo. E, historicamente, uma certa derrocada do capitalismo acontece fundamentalmente nos momentos em que o capital financeiro começa a dominar o capital produtivo. Foi assim no declínio da Inglaterra, e hoje cremos que pode vir a dar-se a crise desse sistema. A palavra mais demonizada dos últimos tempos foi a “nacionalização”. No entanto, os homens de Wall Street não
hesitaram em aceitar a nacionalização da grande empresa de seguros A&G e de alguns bancos. Foram salvos exatamente pelo Estado. Ou seja, não há princípios, há resultados, há lucros. Essa crise não foi superada, pois, agora, foi aparentemente resolvida pelo capital financeiro. O presidente Obama declara que tem que haver uma regulação do capital financeiro porque a situação não é admissível para os cidadãos. Isso, mesmo numa democracia tão limitada como a norte-americana, em que tantos trilhões de dólares foram injetados no sistema financeiro para obter lucros fabulosos e se distribuir bônus e subsídios aos seus executivos, como faziam antes. Então, nada mudou. Essa é a primeira razão para mostrarmos que temos que ter uma certa prudência quando declararmos as fases finais do capitalismo. Temos que continuar a lutar, mas sabendo que esse é um sistema que tem uma capacidade histórica de se renovar. A segunda razão pela qual nada mudou é que a esquerda nas duas últimas décadas comprou as teses neoliberais. Aquela esquerda que tem a pretensão de chegar ao governo em muitos países – com exceção de alguns países do continente, como Equador, Bolívia ou Venezuela – acabou por aceitar que o mercado é um princípio de eficiência fundamental, que é melhor que o Estado, que a desregulação é importante, que a iniciativa privada é importante. Ou seja, a esquerda ficou desarmada.
Como o senhor vê o papel da China nessa nova conjuntura político-econômica? Ela tem potencial para redefinir a geopolítica mundial?
Tem, sim, e estamos a falar de mais de um quinto da população mundial, com uma parcela significativa da humanidade. Esse país tem uma grande capacidade de ser uma força internacional. Ao contrário dos países ocidentais, injetou dinheiro na economia produtiva e, portanto, é o primeiro país a sair da crise. Com um crescimento que, calcula-se, será de 9% neste ano. Entre suas limitações está a disjunção entre o sistema político e econômico. É um sistema do lucro, do egoísmo, governado por um partido único autoritário que tem outras lógicas de funcionamento. Por quanto tempo essa disjunção vai existir? A China vai ser uma influência boa e má. Boa no sentido de moderar os instintos imperialistas dos Estados Unidos. Mas isso não é garantia que não possa vir a prejudicar outros interesses da humanidade.
Quando Barack Obama ganhou as eleições presidenciais, o senhor escreveu um artigo falando do valor simbólico da vitória. Passado um ano de governo, recém-completado, qual é o balanço que o senhor faz, tanto da política interna quanto externa?
Nesse artigo eu já mostrava alguma distância em relação ao Obama. É curioso que fui talvez uma das primeiras pessoas a escrever colunas internacionais que não “embandeiraram arco”, como a gente diz em Portugal, com a eleição de Obama. É claro que simbolicamente há um poder enorme, porque, não ele, mas sua mulher, é descendente de escravos, e, assim, entra na Casa Branca uma descendente dos escravos que construíram a mesma Casa Branca. E isso é de um valor simbólico notável, do mesmo modo que é chegar um operário ao governo no Brasil. Mas um ano depois, o que vemos é que, por mais inteligente que seja um homem – e ele é o melhor aluno de Harvard até hoje –, por mais que ele tenha uma capacidade retórica impressionante, quando chega ao poder fica totalmente enredado a esse poder. Ao fim desse primeiro ano de mandato só temos desilusões. De fato, não há nada de positivo. Quando da crise financeira, o Obama ainda era candidato e o vi na televisão rodeado pelos grandes homens do Goldman Sachs [um dos maiores bancos de investimento do mundo], que são hoje seus consultores. Portanto, ainda como candidato ele deu sinais de que não ia mudar a política do país. Mas foi pior do que aquilo que se esperava, na medida em que ele tinha um perfil de luta contra a guerra. Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra. O Obama também tem a sua. E esta, todavia, é quiçá mais perigosa que a guerra do Bush contra o Iraque. Porque é uma guerra no Afeganistão, onde historicamente ninguém ganha. E é uma guerra que se estende a um país que antes era amigo, o Paquistão, que está a ser desagregado devido à influencia dos EUA. Portanto, a desilusão no campo da guerra é total. A segunda desilusão é o comportamento em relação à América Latina. Não é desilusão porque eu não estava iludido, mas é evidente que muita gente ficou, porque Obama veio com um discurso completamente distinto, de estender a mão aos colegas latino-americanos. Mas a verdade é que a Quarta Frota continua e vieram as sete bases militares na Colômbia, que não têm nada a ver com a droga, nem sequer com a guerrilha. Elas estão orientadas basicamente para a biodiversidade desse continente, área estratégica para os Estados Unidos. Portanto, não pode ocorrer nada nesse continente que ponha em risco os seus interesses estratégicos ou o seu acesso aos recursos naturais.
Tatiana Merlino é jornalista
quarta-feira, 31 de março de 2010
Pileque precoce- a decadencia de ideias na juventude brasileira - Frei Betto *
Postado por Attman e Kamadon
Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.
Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar "venham todos ao meu reino", pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.
A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética.
O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.
É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.
No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV -concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.
Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.
Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra - custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido "um barato"...
O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?
A publicidade de bebida destilada -cachaça, uísque, vodca- obedece à restrição de horários, regulados pela lei 9.294/1996. Entre 6h e 21h é vetada a publicidade de destilados, embora muitas rádios burlem a proibição. A cerveja, que responde por 70% de todo álcool ingerido no Brasil, é livre de regulamentação. E é por ela que muitos jovens ingressam na dependência química.
Pela lei 9.294, bebida alcoólica é a que possui mais de 13 graus na escala Gay-Lussac. O Congresso Nacional assim determinou pressionado pelos produtores de cerveja e vinho. Normas internacionais consideram que é alcoólica toda bebida com 0,5º GL ou acima.
Todas as demais leis do Brasil -de trânsito, de fabricação etc.- consideram alcoólica toda bebida com mais de 0,5º GL. A cerveja tem cerca de 4,8º GL. Verifique com lupa o rótulo de uma cerveja dita "sem álcool". Com exceção de uma marca, as demais possuem 0,5º GL, ou seja, fazem, com respaldo da lei, propaganda enganosa. Assim, pais desavisados deixam crianças ingerirem a cerveja "sem álcool" e alcoólicos em tratamento são vítimas do mesmo engodo.
O Código de Autorregulamentacao do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) alerta que comerciais de cervejas não devem ser atrativos para o público jovem. O que se vê é o contrário. As peças publicitárias exalam jovialidade, bom humor, espírito de tribo, linguagem própria de jovens, sem que haja nenhum controle.
Vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se permanecer liberado o direito de associar desportistas com bebidas alcoólicas a Lei Seca, com certeza, vai dar água...
Em muitos países, como no Canadá, há regulamentação à publicidade de bebida alcoólica, visando à proteção do público infantil. Lá não se vende bebida alcoólica em supermercados, lojas, padarias e mercearias. Só se permite em bares e restaurantes.
O Free Jazz, festival de música, foi cancelado por ser patrocinado por uma marca de cigarro. O mais badalado camarote do sambódromo exige que se vista a camisa de uma produtora de cerveja. Não existe o alerta: "Se fumar, não dirija". Já no caso da bebida...
O argumento de que regular a publicidade é censura ou fere a liberdade de expressão é mero terrorismo consumista centrado em sobrepor interesses privados ao interesse público, como é o caso da proteção da saúde da população, em especial de nossas crianças e adolescentes.
[Autor, em parceria com Marcelo Barros, de "O amor fecunda o Universo - ecologia e espiritualidade" (Agir), entre outros livros.
* Escritor e assessor de movimentos sociais
Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.
Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar "venham todos ao meu reino", pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.
A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética.
O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.
É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.
No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV -concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.
Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.
Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra - custo e efeito: uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido "um barato"...
O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica?
A publicidade de bebida destilada -cachaça, uísque, vodca- obedece à restrição de horários, regulados pela lei 9.294/1996. Entre 6h e 21h é vetada a publicidade de destilados, embora muitas rádios burlem a proibição. A cerveja, que responde por 70% de todo álcool ingerido no Brasil, é livre de regulamentação. E é por ela que muitos jovens ingressam na dependência química.
Pela lei 9.294, bebida alcoólica é a que possui mais de 13 graus na escala Gay-Lussac. O Congresso Nacional assim determinou pressionado pelos produtores de cerveja e vinho. Normas internacionais consideram que é alcoólica toda bebida com 0,5º GL ou acima.
Todas as demais leis do Brasil -de trânsito, de fabricação etc.- consideram alcoólica toda bebida com mais de 0,5º GL. A cerveja tem cerca de 4,8º GL. Verifique com lupa o rótulo de uma cerveja dita "sem álcool". Com exceção de uma marca, as demais possuem 0,5º GL, ou seja, fazem, com respaldo da lei, propaganda enganosa. Assim, pais desavisados deixam crianças ingerirem a cerveja "sem álcool" e alcoólicos em tratamento são vítimas do mesmo engodo.
O Código de Autorregulamentacao do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) alerta que comerciais de cervejas não devem ser atrativos para o público jovem. O que se vê é o contrário. As peças publicitárias exalam jovialidade, bom humor, espírito de tribo, linguagem própria de jovens, sem que haja nenhum controle.
Vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se permanecer liberado o direito de associar desportistas com bebidas alcoólicas a Lei Seca, com certeza, vai dar água...
Em muitos países, como no Canadá, há regulamentação à publicidade de bebida alcoólica, visando à proteção do público infantil. Lá não se vende bebida alcoólica em supermercados, lojas, padarias e mercearias. Só se permite em bares e restaurantes.
O Free Jazz, festival de música, foi cancelado por ser patrocinado por uma marca de cigarro. O mais badalado camarote do sambódromo exige que se vista a camisa de uma produtora de cerveja. Não existe o alerta: "Se fumar, não dirija". Já no caso da bebida...
O argumento de que regular a publicidade é censura ou fere a liberdade de expressão é mero terrorismo consumista centrado em sobrepor interesses privados ao interesse público, como é o caso da proteção da saúde da população, em especial de nossas crianças e adolescentes.
[Autor, em parceria com Marcelo Barros, de "O amor fecunda o Universo - ecologia e espiritualidade" (Agir), entre outros livros.
* Escritor e assessor de movimentos sociais
Democratizar e fortalecer as Forças Armadas - Messias Pontes *
Postado por Attman e Kamadon
Adital -
Amanhã, 1º de abril, o golpe militar completa 46 anos. Era o início da terceira maior tragédia já vivida pelos brasileiros em toda a sua história: a primeira foi a escravidão que durou quase quatro séculos; a segunda foi a ditadura do Estado Novo ( 1937 a 1945); a terceira foi a ditadura militar de 1964 a 1985. A quarta maior tragédia foi o desmonte do Estado brasileiro iniciado por Fernando Collor de Mello e seqüenciado pelos neoliberais tucano-pefelistas de 1995 a 2002.
Essa triste página de nossa história precisa ser bem contada para que a atual e as futuras gerações não permitam que ela se repita. A começar pela traição aos interesses nacionais, quando os militares golpistas, orientados e financiados pelo imperialismo norte-americano e com o irrestrito apoio da grande mídia conservadora, venal e golpista rasgaram a Constituição da República, depuseram o presidente João Goulart, democraticamente eleito, implantaram uma feroz ditadura, transformando-a em terrorismo de Estado em 13 de dezembro de 1968 com o famigerado Ato Institucional nº 5.
É importante observar que essa mesma mídia que acusou Getúlio Vargas de manter um mar de lama de corrupção no Palácio do Catete; é a mesma que não queria a posse de Jango em 1961; é a mesma que apoiou o golpe militar de 64 e apoiou a ditadura nos longos 21 anos; é a mesma que elegeu Collor de Mello; elegeu e reelegeu o Coisa Ruim e apoiou o desmonte do Estado; e é a mesma que tem infernizado o governo do presidente Lula e demoniza os movimentos sociais; e é a mesma que já iniciou a mentirosa, criminosa e impatriótica campanha contra a ministra Dilma Rousseff.
Para se manter no poder, os militares golpistas utilizaram as práticas mais condenáveis como a implantação da censura e a institucionalização da tortura, do seqüestro, do estupro, da prisão ilegal de milhares de democratas e do assassinato de centenas de opositores. Ainda hoje, 140 democratas e patriotas brasileiros assassinados ainda não tiveram seus corpos entregues a seus familiares para que os enterrem com dignidade como é feito em todo o mundo.
Os militares de hoje precisam ter a coragem de romper com o corporativismo e pedir perdão ao povo brasileiro pelos hediondos crimes cometidos, como fizeram os militares chilenos. É inadmissível que ainda hoje haja na Marinha uma grande resistência em admitir o heroísmo do marinheiro João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, há exatos 100 anos, que ficou conhecido como o Almirante Negro, e que foi anistiado somente em 2008, portanto 98 anos depois.
Os democratas e patriotas que exigem a democratização das Forças Armadas são os mesmos que advogam o seu fortalecimento para que cumpram o seu dever constitucional de defender a soberania nacional. Afinal, o imperialismo, notadamente o norte-americano, não desiste de tentar se apoderar de nossas incalculáveis riquezas, em especial na Amazônia e no litoral com a descoberta de um mar de petróleo leve na camada do pré-sal.
Não foi à toa que a IV Frota Naval ianque foi reativada depois do anúncio da descoberta do pré-sal, e dezenas de bases militares foram instaladas na vizinha Colômbia a pretexto de combater o narcotráfico e a guerrilha das FARC.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como comandante-em-chefe das Forças Armadas, não deve permitir que militares antidemocráticos e impatrióticos festejem o golpe militar que eles teimam em dizer que foi em 31 de março e não assumem que foi no dia 1º de abril, dia da mentira.
Aliás, o golpe militar foi todo forjado na mentira. Acusavam o presidente João Goulart de comunista, de querer implantar um regime comunista no Brasil, mas esse argumento não resiste a uma breve viagem pela história, pois em 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os militares tentaram a todo custo impedir a posse de Jango. O Golpe deveria ter sido dado dez anos antes, ou seja, em 1954, não acontecendo porque o presidente Getúlio Vargas impediu com o seu suicídio.
Mais que nunca é imperioso fortalecer as nossas Forças Armadas. Mas antes elas têm de ser democratizadas.
* Jornalista
Adital -
Amanhã, 1º de abril, o golpe militar completa 46 anos. Era o início da terceira maior tragédia já vivida pelos brasileiros em toda a sua história: a primeira foi a escravidão que durou quase quatro séculos; a segunda foi a ditadura do Estado Novo ( 1937 a 1945); a terceira foi a ditadura militar de 1964 a 1985. A quarta maior tragédia foi o desmonte do Estado brasileiro iniciado por Fernando Collor de Mello e seqüenciado pelos neoliberais tucano-pefelistas de 1995 a 2002.
Essa triste página de nossa história precisa ser bem contada para que a atual e as futuras gerações não permitam que ela se repita. A começar pela traição aos interesses nacionais, quando os militares golpistas, orientados e financiados pelo imperialismo norte-americano e com o irrestrito apoio da grande mídia conservadora, venal e golpista rasgaram a Constituição da República, depuseram o presidente João Goulart, democraticamente eleito, implantaram uma feroz ditadura, transformando-a em terrorismo de Estado em 13 de dezembro de 1968 com o famigerado Ato Institucional nº 5.
É importante observar que essa mesma mídia que acusou Getúlio Vargas de manter um mar de lama de corrupção no Palácio do Catete; é a mesma que não queria a posse de Jango em 1961; é a mesma que apoiou o golpe militar de 64 e apoiou a ditadura nos longos 21 anos; é a mesma que elegeu Collor de Mello; elegeu e reelegeu o Coisa Ruim e apoiou o desmonte do Estado; e é a mesma que tem infernizado o governo do presidente Lula e demoniza os movimentos sociais; e é a mesma que já iniciou a mentirosa, criminosa e impatriótica campanha contra a ministra Dilma Rousseff.
Para se manter no poder, os militares golpistas utilizaram as práticas mais condenáveis como a implantação da censura e a institucionalização da tortura, do seqüestro, do estupro, da prisão ilegal de milhares de democratas e do assassinato de centenas de opositores. Ainda hoje, 140 democratas e patriotas brasileiros assassinados ainda não tiveram seus corpos entregues a seus familiares para que os enterrem com dignidade como é feito em todo o mundo.
Os militares de hoje precisam ter a coragem de romper com o corporativismo e pedir perdão ao povo brasileiro pelos hediondos crimes cometidos, como fizeram os militares chilenos. É inadmissível que ainda hoje haja na Marinha uma grande resistência em admitir o heroísmo do marinheiro João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, há exatos 100 anos, que ficou conhecido como o Almirante Negro, e que foi anistiado somente em 2008, portanto 98 anos depois.
Os democratas e patriotas que exigem a democratização das Forças Armadas são os mesmos que advogam o seu fortalecimento para que cumpram o seu dever constitucional de defender a soberania nacional. Afinal, o imperialismo, notadamente o norte-americano, não desiste de tentar se apoderar de nossas incalculáveis riquezas, em especial na Amazônia e no litoral com a descoberta de um mar de petróleo leve na camada do pré-sal.
Não foi à toa que a IV Frota Naval ianque foi reativada depois do anúncio da descoberta do pré-sal, e dezenas de bases militares foram instaladas na vizinha Colômbia a pretexto de combater o narcotráfico e a guerrilha das FARC.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como comandante-em-chefe das Forças Armadas, não deve permitir que militares antidemocráticos e impatrióticos festejem o golpe militar que eles teimam em dizer que foi em 31 de março e não assumem que foi no dia 1º de abril, dia da mentira.
Aliás, o golpe militar foi todo forjado na mentira. Acusavam o presidente João Goulart de comunista, de querer implantar um regime comunista no Brasil, mas esse argumento não resiste a uma breve viagem pela história, pois em 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os militares tentaram a todo custo impedir a posse de Jango. O Golpe deveria ter sido dado dez anos antes, ou seja, em 1954, não acontecendo porque o presidente Getúlio Vargas impediu com o seu suicídio.
Mais que nunca é imperioso fortalecer as nossas Forças Armadas. Mas antes elas têm de ser democratizadas.
* Jornalista
sábado, 20 de março de 2010
"Carta das FARC para um tratado de paz"
Postado por Attman e Kamadon
FARC: "Não somos belicistas nem lutamos por vinganças pessoais .."
Memorando para um intercâmbio sobre o conflito colombiano.
Primeiro: Sempre acreditamos numa solução política para o conflito. Mesmo antes da agressão a Marquetalia,
e durante esses 46 anos, temos reiterado, expressado e lutado por esse objetivo.
Segundo: Não somos belicistas, nem lutamos por vinganças pessoais. Não temos patrimônios materiais ou
privilégios a defender, somos revolucionários comprometidos com nossa consciência, e desde sempre, com a
busca de uma sociedade justa e soberana, profundamente humanistas, desprovidos de qualquer interesse
pessoal mesquinho. Nós amamos nosso país acima de tudo e somos obrigados a desenvolver a guerra contra
uma classe dominante posta de joelhos perante o império, que tem usado de maneira sistemática a violência e
os atentados pessoais como uma arma política para manter-se no poder desde 25 de setembro 1828, quando
buscou assassinar o Libertador Simón Bolívar, e até os dias de hoje, em que utiliza as práticas de terrorismo de
Estado para manter o status quo.
Terceiro: A dificuldade que a Colômbia tem enfrentado para conseguir a reconciliação através do diálogo e de
acordos se deve ao conceito de paz oligárquica do regime, que só aceita a submissão absoluta da insurgência à
chamada "ordem estabelecida", ou, como alternativa, à "paz das cemitérios".
Quarto: Não temos lutado toda a nossa vida contra um regime excludente e violento, corrupto, injusto e antipatriota,
para agora, sem alterações em sua estrutura, aderirmos a ele.
Quinto: Na Colômbia, muitas pessoas boas e capazes que queriam um país melhor e que lutaram por esses
objetivos por meios pacíficos, como Jaime Pardo Leal, Bernardo Jaramillo, Manuel Cepeda, entre outros,
foram assassinados de forma premeditada, vil e covardemente pelos serviços de inteligência do Estado em
aliança com os paramilitares e bandidos, inimigos do povo, em um genocídio sem precedentes que liquidou
fisicamente todo um movimento político dinâmico e em pleno crescimento: A UNIÃO PATRIÓTICA.
Por conta dessa estratégia de Terrorismo de Estado, falhou-se na busca da solução política, durante as
administrações de Belisario Betancur e Virgilio Barco e, em Caracas e no México, durante o governo de César
Gaviria.
Sexto: Em El Caguán, como o Presidente Pastrana reconheceu em seu livro e em declarações públicas, o
regime procurou apenas ganhar tempo para reconstruir a abatida força militar do estado com um cronograma,
diretrizes, instruções e financiamento da Casa Branca, integrado ao Plano Colômbia e impostas pela
administração de Bill Clinton para abortar uma solução política democrática para o conflito colombiano, e dar
início a sua campanha para reverter as mudanças progressivas que desde então avançam no continente. O
satanizado processo de Caguán estava condenado ao fracasso antes mesmo de começar, como tem corroborado
o ex-presidente Pastrana, pois seu governo nunca buscou preparar o caminho para a paz, senão para reforçar e
aperfeiçoar seu aparato de dominação para continuar a guerra.
Sétimo: Estes fatos não invalidam a possibilidade de uma solução política para o conflito colombiano.
Evidenciam sim, a intenção quase nula da classe dirigente colombiana de ceder em sua hegemonia e sua
intolerância frente a outras correntes ou opções políticas de oposição que questionam seu regime político e seu
alinhamento internacional incondicional a favor dos interesses imperiais dos Estados Unidos, em detrimento
de nossa soberania e contra os mais caros e significativos interesses da nação e da pátria.
Sua concepção sobre o exercício do poder é marcada e sustentada pela violência, pela corrupção e pela
ganância, o que torna ainda mais difícil uma saída sem derramamento de sangue; de todas as formas, uma
solução política continuará sendo bandeira das FARC – EP, e certamente de amplos setores do povo que,
afinal, são os que sofrem os efeitos da hegemonia oligárquica.
Oitavo: Os interesses dos diferentes setores sociais estão se confrontando permanentemente. Em momentos e
por períodos definidos, a oligarquia exerce sua ditadura a fundo, sem respostas transcendentes por parte das
maiorias em função da pressão, repressão, guerra suja e desqualificação que se desenvolve desde o Estado até
elas de diferentes maneiras; em outros, as respostas são importantes, mas não são suficientes; porém, após um
acúmulo de fatores sociais transbordantes, a resposta popular é contundente. Nós entendemos que os interesses
dos diferentes setores de uma sociedade como a nossa estão em constante movimento e choque, nunca
paralisados. Assim, falar na Colômbia de hoje do pós-conflito é propaganda enganosa.
Nono: Esta reflexão é pertinente, posto que as causas geradoras da revolta armada em nosso país existem mais
vivas e pujantes do que há 46 anos, o que reclama, se queremos construir um futuro de convivência
democrática, maiores esforços, desprendimento, compromisso, generosidade e imaginação realista para atacar
a raiz dos problemas e não as consequências do mesmo.
Décimo: Após 12 anos da ofensiva total contra as FARC - EP por parte do governo dos Estados Unidos e do
Estado colombiano, os assassinatos oficiais, verdadeiros crimes contra a humanidade, hoje chamados de falsos
positivos, o terror crescente da nova máscara do narcoparamilitarismo denominada bandos criminosos, a
asquerosa truculência do presidente para permanecer no poder através de trapaças, a desenfreada corrupção da
administração e da iniciativa privada, que em troca dessa mesma corrupção e de milionárias somas apoia o
governo, a descarada invasão do exército gringo na Colômbia e a crescente injustiça social com desemprego
elevado, sem acesso aos serviços de saúde para a maioria, com um altíssimo êxodo interno, com um ridículo
salário mínimo em oposição aos enormes lucros dos banqueiros, latifundiários e empresas multinacionais, e
depois de haver rapinado com uma reforma trabalhista as conquistas salariais mais significativas dos
trabalhadores do campo e da cidade, tudo que alcançaram foi adubar ainda mais o terreno para o crescimento
da insurgência revolucionária.
SEGUNDA PARTE
1. O conflito armado colombiano possui profundas raízes históricas, sociais e políticas. Não foi a
invenção de nenhum demiurgo, produto de ânimos sectários, nem consequência de alguma especulação
teórica, mas o resultado e a resposta a formas determinadas de dominação específicas, impostas pelas
classes governantes desde os germes do Estado - nação cujo eixo tem sido a sistemática violência
terrorista anti-popular, propiciada desde o Estado, especialmente nos últimos 60 anos.
2. Superá-lo, por vias pacíficas, supõe que preliminarmente exista total disposição para abordar as
questões do poder e do regime político, se a decisão é encontrar soluções sólidas e duradouras.
3. Temos levantado a necessidade de conversar, em princípio, para lograr acordos de troca, o que
permitiria não só a liberdade dos prisioneiros de guerra de ambos os lados, mas também avançar na
humanização do conflito e, certamente, ganhar terreno no caminho para acordos definitivos.
4. Conversar, buscar conjuntamente soluções para os principais problemas do país, não deve ser
considerada como uma concessão de ninguém, mas como um cenário realista possível de se tentar,
mais uma vez, pôr fim à guerra entre os colombianos a partir da civilidade dos diálogos.
5. Reunir-se para conversar sobre trocas e uma solução pacífica supõe plenas garantias para fazê-lo
sem qualquer pressão, tendo por certo que aquele que pode outorgar-lhe, é, exclusivamente, o governo
de turno, se realmente tiver vontade de encontrar caminhos de diálogo.
6. A nossa histórica e permanente disposição para encontrar cenários de confluência através do diálogo
e a busca coletiva de acordos de convivência democrática que não dependam de conjuntura especial ou
da correlação de forças políticas é, sensivelmente, parte da nossa dificuldade programática.
7. Durante os últimos 45 anos temos sido objeto de toda sorte de ofensivas políticas, propagandísticas,
militares, com a presença aberta ou velada do Pentágono, com todo tipo de ultimatos e ameaças de
autoridades civis e militares, sob uma permanente agressão terrorista contra a população civil nas áreas
em que atuamos, etc, que não prejudicou a nossa determinação e vontade de lutar, por qualquer meio
que nos deixem, por uma Colômbia soberana, democrática e com justiça social.
8. Entendemos os diálogos, na busca de caminhos para a paz, não como uma negociação, porque não o
são, mas como um enorme esforço coletivo para chegar a acordos que possibilitem atacar as raízes que
originam o conflito colombiano.
TERCEIRA PARTE
As FARC somos resposta à violência e à injustiça do Estado. A nossa insurgência é um ato legítimo,
um exercício do direito universal que assiste a todos os povos do mundo a se rebelarem contra a
opressão. De nossos libertadores aprendemos que, "quando o poder é opressor, a virtude tem o direito
de aniquilá-lo", e que, "o homem social pode conspirar contra toda lei impositiva que tenha curvado
seu pescoço”.
Tal como foi proclamado pelo Programa Agrário dos Guerrilheiros, as FARC "somos uma organização
política militar que recolhe as bandeiras bolivarianas e as tradições libertárias do nosso povo para lutar
pelo poder e levar a Colômbia ao execício pleno de sua soberania nacional e fazer vigente a soberania
popular. Lutamos pelo estabelecimento de um regime democrático que garanta a paz com justiça
social, o respeito aos direitos humanos e um desenvolvimento econômico com bem-estar para todos
que vivem na Colômbia."
Uma organização com estas projeções, que busca a realização do projeto social e político do pai da
República, o Libertador Simón Bolívar, irradia em sua tática e estratégia um caráter eminentemente
político impossível de refutar. Somente o governo de Bogotá, que atua como uma colônia de
Washington, nega o caráter político do conflito. O faz no marco da sua estratégia de guerra sem fim
para negar a saída política que reivindica mais de 70% da população. Este pretende impor pela força
uma antipatriótica concepção de segurança idealizada pelos estrategistas do Comando Sul do exército
dos Estados Unidos, relegando para um lugar secundário a dignidade da nação.
Para o governo de Uribe, na Colômbia não há conflito político-social, mas uma guerra do Estado
contra o “terrorismo”, e com este pressuposto, complementado pela mais intensa manipulação
informativa, acredita-se com justificativa e carta branca para desencadear o seu terror de Estado contra
a população, e negar a solução política e o direito à paz.
Agora que a Colômbia é um país formalmente invadido, ocupado militarmente por tropas
estadunidenses, essa absurda percepção será reforçada, resultando no agravamento do conflito.
Uribe não foi instruído por seus mestres em Washington para a troca de prisioneiros políticos nem para
a paz.
O presidente da Colômbia cria fantasmas para justificar a sua imobilidade frente à questão da troca de
prisioneiros: que o acordo implica um reconhecimento do estatuto de beligerante do adversário e que a
liberação de guerrilheiros provocaria uma grande desmoralização das tropas ... É a sua maneira de
atravessar pedras no caminho do entendimento. Esta intransigência desnecessária do governo tem sido
a causa da prolongação do cativeiro de prisioneiros de ambos os lados. Quando Bolívar assinou o
armistício com Morillo em novembro de 1820, propôs ao general espanhol aproveitar a vontade de
entendimento reinante para acordar um tratado de regulamentação da guerra "conforme as leis das
nações civilizadas e os princípios liberais e filantrópicos”. Sua iniciativa foi aceita, proporcionando a
troca de prisioneiros, a recuperação dos corpos dos mortos em combate, e o respeito à população civil
não-combatente. Quão distante está Uribe desses imperativos éticos de humanidade.
Sem dúvida, associa Uribe a solução política do conflito com o fracasso e a inutilidade de sua Doutrina
de Segurança Nacional e a melancólica finalidade de seu frenesi bélico em aplastar pela força das
armas o crescente descontentamento social. Parece um soldado da II Guerra Mundial, perdido em uma
ilha, atirando em inimigos imaginários em meio à sua loucura.
Aos participantes deste intercâmbio sobre o conflito colombiano, reiteramos as observações feitas
recentemente aos presidentes da UNASUL e da ALBA:
"... Com Uribe imbuído com o frenesi da guerra e encorajado pelas bases norte-americanas, não haverá
paz na Colômbia nem estabilidade na região. Se não frearem o belicismo - agora repotenciado –
incrementar-se-á em proporção dantesca a tragédia humanitária na Colômbia. É hora da Nossa
América e o mundo voltarem seus olhos para este país violento desde o poder. Não se pode condenar
eternamente a Colômbia a ser o país dos "falsos positivos", do assassinato de milhares de civis nãocombatentes
pelas forças de segurança, das valas comuns, do despejo de suas terras, o deslocamento
forçado de milhões de camponeses, as detenções em massa de cidadãos, da tirania e da impunidade dos
agressores protegidos pelo Estado ".
Como um princípio de solução política do conflito, solicitamos o reconhecimento do status de força
beligerante às Farc. Seria o início da marcha em direção à paz na Colômbia. Se estamos falando de
paz, as tropas norte-americanas devem deixar o país, e o senhor Uribe deve abandonar a sua campanha
goebbeliana de qualificar de terrorista as FARC. De nossa parte, estamos prontos para levar a discussão
sobre a organização do Estado e da economia, da política social e da doutrina que irá guiar as novas
Forças Armadas da nação.
Com os melhores cumprimentos.
Compatriotas,
Secretariado do Estado-Maior das FARC.
Montanhas da Colômbia, fevereiro de 2010
FARC: "Não somos belicistas nem lutamos por vinganças pessoais .."
Memorando para um intercâmbio sobre o conflito colombiano.
Primeiro: Sempre acreditamos numa solução política para o conflito. Mesmo antes da agressão a Marquetalia,
e durante esses 46 anos, temos reiterado, expressado e lutado por esse objetivo.
Segundo: Não somos belicistas, nem lutamos por vinganças pessoais. Não temos patrimônios materiais ou
privilégios a defender, somos revolucionários comprometidos com nossa consciência, e desde sempre, com a
busca de uma sociedade justa e soberana, profundamente humanistas, desprovidos de qualquer interesse
pessoal mesquinho. Nós amamos nosso país acima de tudo e somos obrigados a desenvolver a guerra contra
uma classe dominante posta de joelhos perante o império, que tem usado de maneira sistemática a violência e
os atentados pessoais como uma arma política para manter-se no poder desde 25 de setembro 1828, quando
buscou assassinar o Libertador Simón Bolívar, e até os dias de hoje, em que utiliza as práticas de terrorismo de
Estado para manter o status quo.
Terceiro: A dificuldade que a Colômbia tem enfrentado para conseguir a reconciliação através do diálogo e de
acordos se deve ao conceito de paz oligárquica do regime, que só aceita a submissão absoluta da insurgência à
chamada "ordem estabelecida", ou, como alternativa, à "paz das cemitérios".
Quarto: Não temos lutado toda a nossa vida contra um regime excludente e violento, corrupto, injusto e antipatriota,
para agora, sem alterações em sua estrutura, aderirmos a ele.
Quinto: Na Colômbia, muitas pessoas boas e capazes que queriam um país melhor e que lutaram por esses
objetivos por meios pacíficos, como Jaime Pardo Leal, Bernardo Jaramillo, Manuel Cepeda, entre outros,
foram assassinados de forma premeditada, vil e covardemente pelos serviços de inteligência do Estado em
aliança com os paramilitares e bandidos, inimigos do povo, em um genocídio sem precedentes que liquidou
fisicamente todo um movimento político dinâmico e em pleno crescimento: A UNIÃO PATRIÓTICA.
Por conta dessa estratégia de Terrorismo de Estado, falhou-se na busca da solução política, durante as
administrações de Belisario Betancur e Virgilio Barco e, em Caracas e no México, durante o governo de César
Gaviria.
Sexto: Em El Caguán, como o Presidente Pastrana reconheceu em seu livro e em declarações públicas, o
regime procurou apenas ganhar tempo para reconstruir a abatida força militar do estado com um cronograma,
diretrizes, instruções e financiamento da Casa Branca, integrado ao Plano Colômbia e impostas pela
administração de Bill Clinton para abortar uma solução política democrática para o conflito colombiano, e dar
início a sua campanha para reverter as mudanças progressivas que desde então avançam no continente. O
satanizado processo de Caguán estava condenado ao fracasso antes mesmo de começar, como tem corroborado
o ex-presidente Pastrana, pois seu governo nunca buscou preparar o caminho para a paz, senão para reforçar e
aperfeiçoar seu aparato de dominação para continuar a guerra.
Sétimo: Estes fatos não invalidam a possibilidade de uma solução política para o conflito colombiano.
Evidenciam sim, a intenção quase nula da classe dirigente colombiana de ceder em sua hegemonia e sua
intolerância frente a outras correntes ou opções políticas de oposição que questionam seu regime político e seu
alinhamento internacional incondicional a favor dos interesses imperiais dos Estados Unidos, em detrimento
de nossa soberania e contra os mais caros e significativos interesses da nação e da pátria.
Sua concepção sobre o exercício do poder é marcada e sustentada pela violência, pela corrupção e pela
ganância, o que torna ainda mais difícil uma saída sem derramamento de sangue; de todas as formas, uma
solução política continuará sendo bandeira das FARC – EP, e certamente de amplos setores do povo que,
afinal, são os que sofrem os efeitos da hegemonia oligárquica.
Oitavo: Os interesses dos diferentes setores sociais estão se confrontando permanentemente. Em momentos e
por períodos definidos, a oligarquia exerce sua ditadura a fundo, sem respostas transcendentes por parte das
maiorias em função da pressão, repressão, guerra suja e desqualificação que se desenvolve desde o Estado até
elas de diferentes maneiras; em outros, as respostas são importantes, mas não são suficientes; porém, após um
acúmulo de fatores sociais transbordantes, a resposta popular é contundente. Nós entendemos que os interesses
dos diferentes setores de uma sociedade como a nossa estão em constante movimento e choque, nunca
paralisados. Assim, falar na Colômbia de hoje do pós-conflito é propaganda enganosa.
Nono: Esta reflexão é pertinente, posto que as causas geradoras da revolta armada em nosso país existem mais
vivas e pujantes do que há 46 anos, o que reclama, se queremos construir um futuro de convivência
democrática, maiores esforços, desprendimento, compromisso, generosidade e imaginação realista para atacar
a raiz dos problemas e não as consequências do mesmo.
Décimo: Após 12 anos da ofensiva total contra as FARC - EP por parte do governo dos Estados Unidos e do
Estado colombiano, os assassinatos oficiais, verdadeiros crimes contra a humanidade, hoje chamados de falsos
positivos, o terror crescente da nova máscara do narcoparamilitarismo denominada bandos criminosos, a
asquerosa truculência do presidente para permanecer no poder através de trapaças, a desenfreada corrupção da
administração e da iniciativa privada, que em troca dessa mesma corrupção e de milionárias somas apoia o
governo, a descarada invasão do exército gringo na Colômbia e a crescente injustiça social com desemprego
elevado, sem acesso aos serviços de saúde para a maioria, com um altíssimo êxodo interno, com um ridículo
salário mínimo em oposição aos enormes lucros dos banqueiros, latifundiários e empresas multinacionais, e
depois de haver rapinado com uma reforma trabalhista as conquistas salariais mais significativas dos
trabalhadores do campo e da cidade, tudo que alcançaram foi adubar ainda mais o terreno para o crescimento
da insurgência revolucionária.
SEGUNDA PARTE
1. O conflito armado colombiano possui profundas raízes históricas, sociais e políticas. Não foi a
invenção de nenhum demiurgo, produto de ânimos sectários, nem consequência de alguma especulação
teórica, mas o resultado e a resposta a formas determinadas de dominação específicas, impostas pelas
classes governantes desde os germes do Estado - nação cujo eixo tem sido a sistemática violência
terrorista anti-popular, propiciada desde o Estado, especialmente nos últimos 60 anos.
2. Superá-lo, por vias pacíficas, supõe que preliminarmente exista total disposição para abordar as
questões do poder e do regime político, se a decisão é encontrar soluções sólidas e duradouras.
3. Temos levantado a necessidade de conversar, em princípio, para lograr acordos de troca, o que
permitiria não só a liberdade dos prisioneiros de guerra de ambos os lados, mas também avançar na
humanização do conflito e, certamente, ganhar terreno no caminho para acordos definitivos.
4. Conversar, buscar conjuntamente soluções para os principais problemas do país, não deve ser
considerada como uma concessão de ninguém, mas como um cenário realista possível de se tentar,
mais uma vez, pôr fim à guerra entre os colombianos a partir da civilidade dos diálogos.
5. Reunir-se para conversar sobre trocas e uma solução pacífica supõe plenas garantias para fazê-lo
sem qualquer pressão, tendo por certo que aquele que pode outorgar-lhe, é, exclusivamente, o governo
de turno, se realmente tiver vontade de encontrar caminhos de diálogo.
6. A nossa histórica e permanente disposição para encontrar cenários de confluência através do diálogo
e a busca coletiva de acordos de convivência democrática que não dependam de conjuntura especial ou
da correlação de forças políticas é, sensivelmente, parte da nossa dificuldade programática.
7. Durante os últimos 45 anos temos sido objeto de toda sorte de ofensivas políticas, propagandísticas,
militares, com a presença aberta ou velada do Pentágono, com todo tipo de ultimatos e ameaças de
autoridades civis e militares, sob uma permanente agressão terrorista contra a população civil nas áreas
em que atuamos, etc, que não prejudicou a nossa determinação e vontade de lutar, por qualquer meio
que nos deixem, por uma Colômbia soberana, democrática e com justiça social.
8. Entendemos os diálogos, na busca de caminhos para a paz, não como uma negociação, porque não o
são, mas como um enorme esforço coletivo para chegar a acordos que possibilitem atacar as raízes que
originam o conflito colombiano.
TERCEIRA PARTE
As FARC somos resposta à violência e à injustiça do Estado. A nossa insurgência é um ato legítimo,
um exercício do direito universal que assiste a todos os povos do mundo a se rebelarem contra a
opressão. De nossos libertadores aprendemos que, "quando o poder é opressor, a virtude tem o direito
de aniquilá-lo", e que, "o homem social pode conspirar contra toda lei impositiva que tenha curvado
seu pescoço”.
Tal como foi proclamado pelo Programa Agrário dos Guerrilheiros, as FARC "somos uma organização
política militar que recolhe as bandeiras bolivarianas e as tradições libertárias do nosso povo para lutar
pelo poder e levar a Colômbia ao execício pleno de sua soberania nacional e fazer vigente a soberania
popular. Lutamos pelo estabelecimento de um regime democrático que garanta a paz com justiça
social, o respeito aos direitos humanos e um desenvolvimento econômico com bem-estar para todos
que vivem na Colômbia."
Uma organização com estas projeções, que busca a realização do projeto social e político do pai da
República, o Libertador Simón Bolívar, irradia em sua tática e estratégia um caráter eminentemente
político impossível de refutar. Somente o governo de Bogotá, que atua como uma colônia de
Washington, nega o caráter político do conflito. O faz no marco da sua estratégia de guerra sem fim
para negar a saída política que reivindica mais de 70% da população. Este pretende impor pela força
uma antipatriótica concepção de segurança idealizada pelos estrategistas do Comando Sul do exército
dos Estados Unidos, relegando para um lugar secundário a dignidade da nação.
Para o governo de Uribe, na Colômbia não há conflito político-social, mas uma guerra do Estado
contra o “terrorismo”, e com este pressuposto, complementado pela mais intensa manipulação
informativa, acredita-se com justificativa e carta branca para desencadear o seu terror de Estado contra
a população, e negar a solução política e o direito à paz.
Agora que a Colômbia é um país formalmente invadido, ocupado militarmente por tropas
estadunidenses, essa absurda percepção será reforçada, resultando no agravamento do conflito.
Uribe não foi instruído por seus mestres em Washington para a troca de prisioneiros políticos nem para
a paz.
O presidente da Colômbia cria fantasmas para justificar a sua imobilidade frente à questão da troca de
prisioneiros: que o acordo implica um reconhecimento do estatuto de beligerante do adversário e que a
liberação de guerrilheiros provocaria uma grande desmoralização das tropas ... É a sua maneira de
atravessar pedras no caminho do entendimento. Esta intransigência desnecessária do governo tem sido
a causa da prolongação do cativeiro de prisioneiros de ambos os lados. Quando Bolívar assinou o
armistício com Morillo em novembro de 1820, propôs ao general espanhol aproveitar a vontade de
entendimento reinante para acordar um tratado de regulamentação da guerra "conforme as leis das
nações civilizadas e os princípios liberais e filantrópicos”. Sua iniciativa foi aceita, proporcionando a
troca de prisioneiros, a recuperação dos corpos dos mortos em combate, e o respeito à população civil
não-combatente. Quão distante está Uribe desses imperativos éticos de humanidade.
Sem dúvida, associa Uribe a solução política do conflito com o fracasso e a inutilidade de sua Doutrina
de Segurança Nacional e a melancólica finalidade de seu frenesi bélico em aplastar pela força das
armas o crescente descontentamento social. Parece um soldado da II Guerra Mundial, perdido em uma
ilha, atirando em inimigos imaginários em meio à sua loucura.
Aos participantes deste intercâmbio sobre o conflito colombiano, reiteramos as observações feitas
recentemente aos presidentes da UNASUL e da ALBA:
"... Com Uribe imbuído com o frenesi da guerra e encorajado pelas bases norte-americanas, não haverá
paz na Colômbia nem estabilidade na região. Se não frearem o belicismo - agora repotenciado –
incrementar-se-á em proporção dantesca a tragédia humanitária na Colômbia. É hora da Nossa
América e o mundo voltarem seus olhos para este país violento desde o poder. Não se pode condenar
eternamente a Colômbia a ser o país dos "falsos positivos", do assassinato de milhares de civis nãocombatentes
pelas forças de segurança, das valas comuns, do despejo de suas terras, o deslocamento
forçado de milhões de camponeses, as detenções em massa de cidadãos, da tirania e da impunidade dos
agressores protegidos pelo Estado ".
Como um princípio de solução política do conflito, solicitamos o reconhecimento do status de força
beligerante às Farc. Seria o início da marcha em direção à paz na Colômbia. Se estamos falando de
paz, as tropas norte-americanas devem deixar o país, e o senhor Uribe deve abandonar a sua campanha
goebbeliana de qualificar de terrorista as FARC. De nossa parte, estamos prontos para levar a discussão
sobre a organização do Estado e da economia, da política social e da doutrina que irá guiar as novas
Forças Armadas da nação.
Com os melhores cumprimentos.
Compatriotas,
Secretariado do Estado-Maior das FARC.
Montanhas da Colômbia, fevereiro de 2010
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