Postado por Attman e Kamadon
José Luis Fiori *
1. Brasil e América do Sul: história e conjuntura
i. As guerras e disputas políticas e territoriais, durante a formação dos estados sul-americanos, no século XIX, não produziram as mesmas consequências sistêmicas - políticas e econômicas - das guerras de centralização do poder e de formação dos estados e das economias nacionais européias. E mesmo no século XX, não se consolidou no continente sul-americano, um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como ocorreu na Ásia, depois da sua descolonização. Por isto, nunca existiu na América do Sul uma disputa hegemônica, entre os seus próprios estados e economias nacionais, e nenhum dos seus estados jamais disputou a hegemonia continental com as grandes potências. De fato, desde sua independência, o continente sul-americano viveu sob a tutela anglo-saxônica: primeiro, da Grã Bretanha, até o fim do século XIX, e depois, dos Estados Unidos, até o início do século XXI. Como consequência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionaram durante todo o século XIX, como zona de experimentação do "imperialismo de livre comércio" da Grã Bretanha. No século XX, e em particular depois da 2ª. Guerra Mundial, quase todos estados sul-americanos alinharam sua política externa, com os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, e aderiram com graus diferentes de sucesso, às políticas econômicas desenvolvimentistas, apoiada pelos Estados Unidos, até a década de 1970. Depois do fim da Guerra Fria, durante a década de 1990, de novo, a maioria dos governos da região voltaram a se alinhar ao lado da política externa e da política econômica preconizada pelos EUA e seu projeto de "globalização liberal".
ii. No início do século XXI, entretanto, a situação política do continente mudou, com a vitória -em quase todos os países da América do Sul- de partidos e coalizões políticas nacionalistas, desenvolvimentistas e socialistas, que mudaram o rumo político-ideológico do continente, durante a primeira década do século. No início do período, quase todos os novos governos de esquerda mantiveram a política macroeconômica ortodoxa dos neoliberais da década de 90, e só aos poucos foram mudando, em alguns casos, o rumo mais amplo de sua política econômica, sem conseguir alterar a estrutura e o modelo tradicional de inserção internacional da economia continental. Assim mesmo, todos estes novos governos se posicionaram ideologicamente contra o neoliberalismo da década anterior, e mudaram sua política externa, apoiando a integração político-econômica da América do Sul, e criticando intervencionismo norte-americano no continente. Este giro político à esquerda ocorreu de forma simultânea, em quase todo o continente, e coincidiu com a mudança do governo e da política externa americana, com a nova administração republicana de George Bush, que engavetou, na prática, o globalismo econômico liberal, da Administração Clinton, e o seu projeto da ALCA, para as Américas. Este giro à esquerda coincidiu também com um novo ciclo de expansão da economia mundial, que se prolongou até 2008, e permitiu a retomada do crescimento, alto e generalizado, de todas as economias nacionais da região. A grande novidade foi a participação da China, que se transformou na grande compradora das exportações sul-americanas de minérios, energia e grãos. Neste período também, os altos preços das commodities fortaleceram a capacidade fiscal dos estados e ajudaram a financiar várias iniciativas do projeto de integração da infra-estrutura energética e de transportes do continente. Além disto, permitiram a acumulação de reservas e a diminuição da fragilidade externa do continente, aumentando o poder de resistência e negociação da região.
iii. Durante esta primeira década do século, destacou-se dentro do continente, a rápida mudança da posição política e econômica do Brasil, que retomou -aos poucos e de forma ainda irregular- a trilha do crescimento e aumentou sua participação no produto e no comercio dentro e fora da América do Sul. Ao mesmo tempo, o Brasil assumiu a liderança do processo de integração do continente e expandiu suas relações comerciais e financeiras com outras regiões do mundo, projetando sua presença diplomática em várias instancias e fóruns multinacionais de negociação, dentro e fora das Nações Unidas. E hoje o Brasil já tem praticamente assegurada, até o fim da próxima década, uma posição entre as cinco maiores economias do mundo, quando deverá ser provavelmente, o maior produtor mundial de alimentos, e um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo, além de seguir controlando a maior parte dos recursos hídricos e da biodiversidade da Amazônia. Neste movimento duplo, em direção à América do Sul e aos demais continentes, e zonas de expansão e conflito internacional, o Brasil tem se apoiado, aliado e competido, a um só tempo, com outros estados e economias nacionais que também estão se expandindo rapidamente e reivindicando uma maior participação nas decisões do núcleo central de poder do sistema mundial, entre as quais se destacam, sobretudo, a China e a Índia.
iv. Agora bem, depois de quase uma década convergente, a crise financeira de 2008 provocou uma queda abrupta do crescimento regional e uma desaceleração do projeto integração econômica do continente sul-americano. E quase ao mesmo tempo, ainda na Administração George Bush, os Estados Unidos abandonaram sua passividade no continente, e decidiram reativar sua IV º Frota Naval responsável pelo controle marítimo do Atlântico Sul. E logo em seguida, já na administração democrata do presidente Barak Obama, os Estados Unidos assinaram o acordo militar com a Colômbia que lhe deu acesso a sete bases militares dentro do território colombiano, e com isto fragilizou o processo de integração política, e os planos de defesa conjunta e autônoma do continente. Logo em seguida, os EUA tiveram uma participação ativa na crise política de Honduras, e unilateral no terremoto que destruiu o Haiti, demonstrando vontade e decisão de retomar ou reafirmar sua presença e sua supremacia dentro do "hemisfério ocidental". Por outro lado, no início de 2010, o Chile interrompeu a sucessão de vitórias eleitorais da esquerda, e elegeu um presidente de centro-direita, que reforçará a aliança estratégica com os Estados Unidos do "eixo antibolivariano", na Região Andina. E com isto, deverá aumentar as divisões que sempre facilitaram - através da história - a tutela externa do continente. De qualquer maneira, a configuração completa deste novo cenário político ainda dependerá das eleições presidenciais no Brasil e Colômbia, em 2010, e na Argentina e Peru, em 2011.
v. Neste momento de incerteza política, uma discussão sobre a inserção do Brasil e da América do Sul, no cenário internacional, na segunda década do século XXI, tem que partir de uma definição do que seja uma "inserção soberana". Com relação ao que seja uma política externa soberana, nosso ponto de partida é muito simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema. Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos "tabuleiros" geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potencias dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isto, não é possível conceber uma política externa soberana e inovadora, que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potencias que controlam o núcleo central do poder mundial. Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potencias dominantes. Mas toda política externa soberana e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potencias, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma "lei" essencial do sistema interestatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do "estado questionador" é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.
vi. Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora ou subalterna. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.
2. Um balanço, no final da primeira década do século XXI
Ao terminar a primeira década do século XXI, entre crise e guerras, é possível fazer um balanço preliminar da estratégia imperial americana, que nasceu da crise dos 70 e se aprofundou depois do fim da Guerra Fria:
i. O poder militar americano cresceu de forma contínua e se projetou sobre todo o mundo, mas a própria dinâmica contraditória da sua expansão, fortaleceu politicamente e "ressuscitou" militarmente, a Alemanha, a Rússia e o Japão, e contribuiu para o fortalecimento da China, Índia, Irã, Turquia, Brasil, países que disputam zonas de influência com os EUA, e participam da "corrida imperialista" que se explicitou nesta primeira década, e que deve se intensificar nos próximos anos. Os revezes políticos e militares dos EUA, na primeira década do século XXI desaceleraram o projeto imperial americano, mas ele não foi abandonado. Mas apesar disto, estes revezes criaram novas fraturas e divisões dentro dos EUA. E depois da Guerra do Iraque, está em curso um realinhamento interno de forças e posições, como ocorreu também na década de 70, e não é improvável que surja daí uma nova estratégia internacional. Mas estes processos de realinhamento interno do establishment americano costumam ser lentos, e os seus resultados finais dependerão ainda da própria luta interna e da evolução dos conflitos dos EUA com os seus principais concorrentes nas várias regiões do mundo. Porque apesar dos seus revezes recentes, e de suas dificuldades econômicas, os EUA seguem sendo o único player global, que está presente e disputa posições em cada uma, e em todas as regiões do mundo. De qualquer forma, do nosso ponto de vista, não há possibilidade que os EUA abdiquem do seu poder, ou renunciem a expandi-lo permanentemente. Pelo contrário, deverão seguir aumentando sua capacidade militar em escala geométrica, numa velocidade que aumentará na medida em que se aproxime a sua ultrapassagem econômica pela China. Qualquer mudança mais substantiva, nesta correlação de forças, só ocorrerá com o aumento da capacidade e do poder regional e global das novas potências que estão se projetando neste início do século XXI.
ii. Por outro lado, do ponto de vista econômico, também se pode dizer que a resposta americana à crise de Bretton Woods acabou se transformando numa estratégia, que levou à recuperação e à expansão contínua da economia americana, cada vez mais associada ao crescimento da economia chinesa, sobretudo a partir de 1990. Este novo eixo dinâmico da economia mundial, por sua vez, provocou uma mudança estrutural da economia mundial, com o deslocamento para a Ásia, do seu principal centro de produção e acumulação de capital, e com o surgimento de uma economia nacional - a chinesa - com um poder gravitacional, sobre o conjunto da economia capitalista, equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova configuração estrutural, e sua expansão contínua, explica o aumento da "pressão competitiva", dentro da economia mundial, na primeira década do século XXI.
iii. Por isto, do nosso ponto de vista, esta pressão econômica, somada à competição geopolítica, e à corrida imperialista que está em curso, são manifestações essenciais, e são ao mesmo tempo o anuncio de que o "sistema interestatal capitalista" está atravessando uma grande "explosão expansiva". Nestes momentos, é impossível prever com precisão o futuro. O o único que se pode dizer, é que são transformações seculares dentro de um mesmo universo, que seguirá se expandindo, enquanto for constituído e liderado por "Estados-economias nacionais" capitalistas, complementares e competitivas.
iv. Assim mesmo, no horizonte de curto prazo, entretanto, o "núcleo duro" da competição geopolítica mundial deverá estar composto velos Estados Unidos, China e Rússia. Três "estados continentais", que detém um quarto da superfície da terra, e mais de um terço da população mundial. Nesta nova "geopolítica das nações", a União Européia terá um papel secundário, ao lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de um poder unificado, com capacidade de iniciativa estratégica autônoma. E a Índia, Irã, Brasil, Turquia, África do Sul, e talvez a Indonésia, deverão aumentar o seu poder regional, em escalas diferentes, mas não serão poderes globais, ainda por muito tempo. Na segunda década do século XXI, a nova "corrida imperialista" provocará um aumento dos conflitos localizados, entre os principais estados e economias do sistema, mas ainda não está no horizonte uma nova "guerra hegemônica". Por outro lado, do ponto de vista econômico, as novas crises financeiras que seguirão não deverão interromper o processo em curso de deslocamento do centro da acumulação capitalista, para a Ásia, e para algumas outras economias nacionais, dispersas pelo mundo, entre as quais, o Brasil e a Rússia, e em menor escala, a África do Sul, a Turquia, a Indonésia e o próprio Irã. Ou seja, no médio prazo, deverá ocorrer uma convergência assintótica, envolvendo numa mesma competição geopolítica e econômica, quase os mesmos estados e economias que deverão alcançar as primeiras posições na hierarquia internacional do poder e da riqueza mundial, ao lado dos Estados Unidos e da velha Europa.
v. Por último, para avaliar a importância das próximas crises financeiras e políticas que deverão se manifestar e ocorrer na próxima década, é importante compreender que: em primeiro lugar, quase todas as grandes crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência hegemônica; em segundo lugar, que estas crises são provocadas quase sempre, pela expansão vitoriosa ( e não pelo declínio) das potencias capazes de atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria expansão; e em terceiro lugar, que o sucesso econômico e a expansão da potencia líder é sempre uma força e um impulso fundamental para o fortalecimento de todos os demais estados e economias que se proponham concorrer ou "substituir" a potencia hegemônica. Mas o que é mais esdrúxulo é que, as crises provocadas pela "exuberância expansiva" da potencia líder, quase sempre afetam, de forma mais perversa e destrutiva, aos "concorrentes" mais do que ao próprio líder ou hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os demais.
Seja como for, é dentro deste contexto geopolítico e econômico, que se pode e deve pensar as alternativas de mais longo prazo, de inserção internacional soberana da América do Sul e do Brasil, na segunda década do Século XXI.
3. Brasil: possibilidades e escolhas
i. Brasil é - hoje - o segundo player mais importante, dentro do tabuleiro geopolítico da América do Sul ,e já tem tido uma importância maior nos desdobramentos político-ideológicos da América Central e do Caribe. Depois de assumir a liderança militar da missão de paz das Nações Unidas no Haiti, o Brasil tomou uma posição decidida a favor da reintegração de Cuba na comunidade americana e tem defendido, em todos os foros internacionais, o fim do bloqueio econômico norteamericano a Cuba. Ao mesmo tempo, tem assumido sua influencia político-ideológica sobre alguns novos governos de esquerda da América Central, e tomou uma posição rápida e dura frente ao golpe de estado militar de Honduras, em junho de 2009, e frente à crise provocada pelo terremoto do Haiti, no início de 2010. Mas, apesar do seu maior ativismo diplomático, o Brasil ainda não tem capacidade de projetar seu poder afirmativo ou de veto, à região centro-americana, nem tem nenhuma disposição de competir ou questionar o poder americano no seu "mar interior caribenho". Mais ao sul, entretanto, o Brasil tem exercido uma política cada vez mais ativa, mesmo quando conviva com uma desaceleração temporária do processo de integração econômica do continente.. Com a criação da UNASUAL, e do Conselho Sulamericano de Defesa, o Brasil se distanciou e esvaziou o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa que sempre contaram com o aval norte-americano. Além disto, nestes últimos dois anos, o Brasil teve uma participação ativa e pacificadora, nos conflitos entre Equador e Colômbia e entre Colômbia e Venezuela, no conflito interno da Bolívia, quando se transformou numa ameaça de guerra civil e de secessão territorial.
ii. De qualquer forma, uma coisa é certa: o futuro do projeto sul-americano dependerá cada vez mais das escolhas brasileiras, e da forma que o Brasil desenvolva suas relações com os Estados Unidos. Do ponto de vista econômico, a pressão dos mercados internacionais e as novas descobertas do petróleo da camada do pré-sal, também estão oferecendo para o Brasil a possibilidade de se transformar numa economia exportadora de alta intensidade, uma espécie de "periferia de luxo" dos grandes potencias compradoras do mundo, como foram no seu devido tempo, a Austrália e a Argentina, entre outros. Mas existe a possibilidade do Brasil escolher outro caminho que combine seu potencial exportador, como uma estrutura produtiva industrial associada e liderada por uma economia mais dinâmica, como é o caso contemporâneo do Canadá, por exemplo. Além disto, neste momento, o Brasil também dispõe de uma terceira alternativa, absolutamente nova para o país, e que aponta de certa maneira, para a reprodução da estrutura produtiva da economia norte-americana: com uma indústria de alto valor agregado, e uma enorme capacidade de produção e exportação de alimentos e outras commodities de alta produtividade, incluindo o petróleo, no caso brasileiro. Por outro lado, no campo político, depois da hegemonia das idéias neoliberais e privatistas, e de uma coalizão de poder partidária do "cosmopolitisimo subserviente", no campo internacional, está se consolidando no Brasil um novo consenso desenvolvimentista, democrático e popular que transcende cada vez mais as siglas partidárias. As perspectivas futuras desta nova coalizão, entretanto, dependerão da estratégia internacional dos próximos governos brasileiros. O Brasil pode se transformar num "aliado estratégico" dos Estados Unidos, da Grã Bretanha e da França, com direito de acesso a uma parte de sua tecnologia de ponta, como no caso do Japão ou mesmo de Israel, que construiu seu arsenal atômico com a ajuda da França. Mas o Brasil também pode escolher um caminho próprio de afirmação internacional. Mas, se o Brasil quiser mudar de posição e de estratégia, dentro das "regras" do sistema mundial, terá que desenvolver um trabalho extremamente complexo de administração contínua das relações de complementaridade e competição com os Estados Unidos, e com as outras grandes potências, a partir dos seus próprios interesses econômicos e geopolíticos. Numa disputa prolongada pela hegemonia da América do Sul, como se fosse uma "luta oriental" com os Estados Unidos. Caminhando através de uma trilha muito estreita e durante um tempo que pode se prolongar por várias décadas. Além isto, para liderar a integração sul-americana no mundo, o Brasil terá que inventar uma nova forma de expansão econômica e política continental e mundial, sem "destino manifesto" nem missão missionária, e sem o imperialismo bélico das duas grandes potências anglossaxônicas.
* Professor titular do Instituto de Economia da UFRJ
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
O veredicto da história confirma o programa trotskista
Postado por Attman e Kamadon
Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
• Em 9 de novembro de 1989, caía o Muro de Berlim. Este foi um dos fatos centrais do século 20. Este acontecimento significou o triunfo definitivo do capitalismo e o fracasso do socialismo? Têm razão os que, na esquerda, abandonaram a luta pelo socialismo e passaram a buscar humanizar o capitalismo? Ou os que falam do fracasso do modelo leninista de partido e Estado?
Para responder a essas perguntas e reafirmar o programa trotskista, Martín Hernández, dirigente da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), escreveu o livro O veredicto da História, cuja versão em espanhol acaba de ser lançada na Argentina, com a presença do autor em palestras e debates.
Apresentamos, a seguir, artigo publicado no jornal Luta Socialista, órgão da Frente Obrero Socialista (FOS), seção argentina da LIT-QI, sobre as atividades de lançamento do livro em Rosário e Buenos Aires e uma entrevista com Martín Hernández.
No dia 30 de outubro, a FOS realizou, no Hotel Bauen de Buenos Aires, que funciona sob controle dos trabalhadores, um evento de apresentação e lançamento do livro de Martín Hernández, O veredicto da História. O evento foi aberto por Eduardo Barragán, que explicou a importância de podermos retomar o debate sobre os grandes fatos do Leste Europeu quando se completam 20 anos da queda do Muro de Berlim e 92 anos do triunfo da Revolução Russa.
Ao se completarem estes 20 anos, ressurgem as diferentes expressões dos propagandistas do imperialismo, que tentam utilizar essas grandes mobilizações de massas para sua campanha de que o socialismo morreu e da suposta superioridade do capitalismo. Claro que, no meio da crise do sistema capitalista mundial, essas afirmações têm muito menos peso que em 1989. Mas, de qualquer maneira, sempre terão a capacidade de confundir os lutadores, na medida em que, dentre os que defendem a revolução, ainda não há uma clareza total sobre o caráter e as consequências dos processos do Leste Europeu de 1989-91.
Isso reafirma a importância de trabalhos de investigação como o que tem realizado Martín Hernández. Como ele afirma, não pretende fechar a discussão, mas são primeiros passos para fazer avançar o entendimento sobre esses acontecimentos e das tarefas que eles propõem aos revolucionários.
O interesse que este tema origina se refletiu nos mais de 200 companheiros que estiveram presentes nesta palestra-debate. Muitos deles eram ex-militantes do velho MAS argentino, do Partido Comunista, da Fede. Também esteve presente uma delegação da Convergência de Esquerda, bem como jovens estudantes e operários que estão participando dos recentes processos de luta e que sentem a necessidade de compreender esses grandes fatos do passado para avançar com mais segurança para o futuro.
No dia anterior, tinha acontecido uma apresentação em Rosário, organizada pelos companheiros do Espaço Cultural La Toma. Um de seus dirigentes, o companheiro Carlos Ghioldi, abriu o evento apresentando o autor e, após a palestra, coordenou o interessante debate que se abriu entre os presentes. Participaram delegados do Sindicato dos Comerciários, da Mahle e de outras importantes fábricas da região.
A seguir, reproduzimos a entrevista com Martín Hernández, na qual o autor fala dos diferentes aspectos que desenvolve em seu livro.
Entrevista com Martín Hernández
“Se não entendemos o que ocorreu, não saberemos como seguir em frente.”
O que o impulsionou a escrever este livro?
Martín Hernández – A necessidade de dar uma resposta programática, isto é, de chegar à compreensão da situação e das tarefas que estão propostas a partir desses grandes fatos. Como diz Trotsky, no século 20, o socialismo mostrou sua razão de ser. Não nas páginas do Capital, mas no terreno do cimento e do aço, porque a Revolução Russa demonstrou que era uma ideia realizável. Mostrou que um país podia funcionar sem burguesia e, a partir daí, conseguir um desenvolvimento extraordinário. Mostrou-se que a burguesia era uma classe parasitária e que o desenvolvimento da humanidade dependia de sua destruição. Isso voltou a se mostrar após a Segunda Guerra, quando se expropria à burguesia em um terço do planeta.
Vivemos tudo isso no século 20 e, no final do mesmo, ocorreram os dois grandes acontecimentos que estamos discutindo. Por um lado, restaurou-se o capitalismo e, por outro, as grandes mobilizações de massas se voltaram contra os regimes do Partido Comunista que levaram a essa restauração. Isso vai provocar enormes dúvidas e confusão em milhões de pessoas que lutavam pelo socialismo. A primeira grande dúvida: a restauração, que fecha este processo do século 20, não estava indicando um balanço definitivo da história, onde se mostrava que, ainda que o socialismo fosse uma bela ideia, não tinha nada superior ao capitalismo, como já tinha dito Churchill?
A partir daí, milhões de pessoas tiram conclusões muito negativas. Uns se decepcionam e abandonam todo tipo de militância pelo socialismo e vão para suas casas. Outros chegaram à conclusão de que o socialismo era impossível e se puseram a ganhar espaços dentro do capitalismo, isto é, viraram reformistas. Há grandes autores, como Tarik Ali, que dizem, por exemplo, que na Venezuela não existe socialismo nem nada parecido. Mas, dado que o socialismo é impossível, há de se buscar o mais progressivo dentro do capitalismo e, portanto, tem de se apoiar ao governo burguês de Chávez. Isto que Tarik Ali expressa com total clareza, grande parte da esquerda o justifica em nome dos “diferentes caminhos ao socialismo” ou do “socialismo do século XXI”.
Por outro lado, entre os que continuaram lutando pelo socialismo, surgiram outras grandes discussões. Por exemplo, ante o temor de construir partidos parecidos ao PC estalinista, chega-se ao questionamento da construção do partido. Surgem assim setores que afirmam: “socialismo sim, mas partido não”; “não à ditadura do proletariado”, “não ao caminho estatizante” etc.
Estas confusões e crises, que se dão não somente na vanguarda, mas também por dentro do movimento trotskista, são similares às que se deram depois das expropriações do pós-segunda guerra?
Para mim, não. No pós-guerra, deram-se expropriações da burguesia sem que fossem encabeçadas pela classe operária e sem a direção do partido revolucionário. Foram realizadas por direções historicamente contrarrevolucionárias. Isso havia sido previsto por Trotsky, ainda que não como o mais provável, e provocou uma crise no movimento trotskista. Alguns não reconheceram estas revoluções e o caráter operário, ainda que burocratizado, dos novos estados. Por outro lado, entre os que corretamente reconheceram o caráter operário desses estados, surgiu um setor que capitulou às direções burocráticas ou pequeno-burguesas que encabeçaram essas revoluções. Mas essas posições liquidacionistas foram minoritárias A maioria continuou combatendo a burocracia estalinista. Agora, se deu o oposto. O conjunto do movimento trotskista entrou numa grande confusão e, dentro disso, a ampla maioria não só vai à capitulação, como também abandona o programa trotskista.
Os que continuamos defendendo o programa trotskista e a reconstrução da IV Internacional somos uma minoria. E entre os que o fazemos, continua a confusão. Não temos clareza absoluta do que passou e por quê. Isso é muito perigoso, pois corremos o risco de militarmos por fé. E nós somos marxistas, somos científicos, não nos move a fé. Por exemplo, não seguiríamos sendo socialistas se o capitalismo demonstrasse sua superioridade.
No livro, eu abordo este tema. Trotsky dizia que a restauração provocaria uma deterioração qualitativa das condições de vida e da cultura. Isso se viu rapidamente. Hoje há um crescimento populacional negativo na Rússia, produto não de uma queda de natalidade, mas do aumento considerável das mortes evitáveis que se deram após a restauração. Por outro lado, os dados do Banco Mundial dizem que, no mundo, o aumento dos famintos é de 100 milhões por ano. E, como última prova, temos a crise do sistema capitalista que estamos vivendo. Nada disto mostra a superioridade do capitalismo, senão o contrário.
O que ocorreu foi algo que estava previsto por Trotsky desde a década de 1930, quando a URSS estava em pleno apogeu. Nesse momento, Trotsky diz que, se a burocracia continuasse dirigindo esse Estado, a restauração seria inevitável e que a única forma de evitar a restauração era com o triunfo da revolução política. Isto é, a revolução que, mantendo as bases econômicas do Estado, deslocasse a burocracia e pusesse a classe operária em seu lugar. Essas revoluções deram-se, em 1953, na Alemanha; em 1956, na Hungria; em 1968, na Tchecoslováquia; e em três oportunidades, na Polônia. Mas todas foram derrotadas. A burocracia continuou no poder e levou à restauração. Por isso, eu digo que o veredicto da História confirmou, pela negativa, as definições centrais e o programa de Trotsky.
Como se chegou a isso?
Esses estados operários, que tiveram um crescimento espetacular e que pareciam ir ao socialismo, começaram a entrar em crise econômica já na década de 1960. Com relação ao Leste Europeu, a resposta da burocracia não foi expandir a revolução, e sim estreitar as relações comerciais com os grandes centros imperialistas. Isto desenvolveu um grande intercâmbio comercial, completamente desigual, e todas as economias do Leste terminam numa crise brutal. A resposta, novamente, é apelar ao imperialismo, desta vez aos créditos baratos. Assim, no começo dos anos 80, estes Estados que eram independentes do imperialismo, começam a ter um grau de dependência completa via a dívida externa, que os coloca à beira da falência. A burocracia, ante o temor de que essa crise provoque uma convulsão social, se entrega totalmente ao imperialismo. Tudo isto confirma a posição de Trotsky.
Então, por que o movimento trotskista, de conjunto, não saiu fortalecido? Porque não soubemos ver o que estava se passando. Não soubemos ver quando o processo de restauração deu o salto qualitativo e mudou o caráter de classe desses Estados. E esse salto não se dá quando a burocracia aplica algumas medidas restauracionistas, mas sim quando toma uma medida básica: a de destruir os três pilares que restavam do Estado Operário: o monopólio do comércio exterior, a economia estatizada e o planejamento econômico central. Na China, isto se dá a partir de 1978, quando se votam no Comitê Central do PC chinês as quatro modernizações. Na ex-URSS, ocorre com a Perestroika de Gorbachev, a partir de 1986. Com estas medidas, produzem-se mudanças qualitativas nas leis que lhes permitem acabar com o monopólio do comércio exterior, liquidar o planejamento central e admitir a propriedade privada dos meios de produção. Teria de se precisar, país por país, em que momento se dá esse salto qualitativo, em cada caso. Mas, do ponto de vista burocrático, todas essas economias que dependiam da ex-URSS, não tinham outra saída, senão acompanhá-la no caminho da restauração.
Nós, trotskistas, não vimos isso, e alguns não o veem até hoje. Por exemplo, depois de terminada a restauração no Leste, importantes setores dizem que não há restauração em Cuba, na China e Vietnã. Por quê? Porque à frente desses Estados, estão os partidos comunistas. Isto demonstra uma confusão tremenda num setor do movimento trotskista, no qual não nos incluímos. A restauração veio do Partido Comunista. Portanto, onde se conservaram os PCs, a restauração avançou mais rapidamente, com menos contradições. É o caso da China: após a restauração, em 1978, dão-se as grandes mobilizações de 1989, que são esmagadas por um grande massacre. A partir daí, o PC impõe uma ditadura ainda mais forte e o imperialismo sente uma grande confiança para investir. Por isso, hoje a China é a fábrica do mundo: 50% do que exportam as 500 multinacionais mais importantes do mundo, sai da China. Por quê? Porque a ditadura do PC permite-lhes um grau de exploração como não existe em nenhum outro lugar do mundo. Algo similar ocorre com Cuba. Um estudo do Greenpeace diz que, de cada dez hotéis cubanos, sete são espanhóis, sendo que o turismo é a principal entrada de divisas na Ilha. Que tem isso de economia não capitalista?
Pode-se dizer que todo o movimento trotskista atuou de forma igual em frente aos ex-estados operários degenerados?
Não. Uma coisa é que, de conjunto, não víssemos quando se deu o salto qualitativo para a restauração; outra coisa são os que tiveram uma política de capitulação frente às burocracias e os que sempre as enfrentaram. Por exemplo, Ernest Mandel e Pierre Frank, dirigentes do chamado Secretariado Unificado da IV Internacional, diziam que não havia nenhuma possibilidade de restauração do capitalismo. Isso, de fato, era uma capitulação ao imperialismo, que sempre teve uma ofensiva restauradora. Mas era uma capitulação ainda pior à burocracia, já que diziam que esta, em defesa de seus interesses, nunca poderia restaurar o capitalismo.
Sobre isso, dentro do movimento trotskista, houve posições diferentes. Nahuel Moreno sempre polemizou, dentro e fora do SU, contra essa concepção. Em seu livro A ditadura revolucionária do proletariado, ataca com dureza essa posição de Mandel e diz o que sempre disse Trotsky: que enquanto não se conceder a liberdade à burguesia para explorar, enquanto não se acabar com o Estado operário, ainda que esteja burocratizado, todo o capitalismo vai considerar a URSS como sua inimiga, por mais proezas contrarrevolucionárias que faça Stalin. Esse mesmo conceito toma-o Moreno: diz que enquanto não se restaure o capitalismo, sempre haverá uma pressão permanente por restaurá-lo. E agregava que a própria burocracia, quando se visse ameaçada pela explosão das massas, se viraria de pés e mãos à restauração. Então, Mandel desarmava o movimento trotskista, enquanto Moreno alertava que iria ocorrer o que depois se deu.
De qualquer maneira, há um erro também em Moreno, que nós depois seguimos: não ver quando se concretizou essa restauração. Não viu que em 1978 já se tinha restaurado o capitalismo na China. Ele tem um trabalho sobre a China muito bom, publicado no Correio Internacional, em 1985, onde analisa todo o processo de restauração que estava dando. Mas, ao final, diz que não há restauração, pois, para que ocorresse, seria necessário impô-la com uma ditadura similar às de Pinochet ou Videla. Ao assegurar isso, Moreno segue Trotsky, que também afirmava que a restauração só poderia ser imposta através de uma repressão sangrenta. Do ponto de vista do conteúdo, Trotsky tinha razão, já que só se conseguiu a restauração porque se deu um grande massacre a partir da década de 1930. Mas, justamente pelo que dizia Trotsky, que o que tinha surgido desse genocídio era um regime similar ao fascismo, não seria necessário um novo massacre quando a burocracia assumisse a restauração.
O resultado destes processos foi um triunfo ou uma derrota?
O problema é que se tratam de dois processos de caráter oposto, que se deram em diferentes momentos, ainda que muito próximos no tempo. Primeiro dá-se a restauração do capitalismo. Isso, sem nenhuma dúvida, é algo negativo, uma derrota muito importante, já que se trata da reversão da grande conquista operária do século, a expropriação da burguesia. Essa derrota teve consequências: provocou desmoralização, confusão e dúvidas no movimento de massas. Mas não o esmagou nem o paralisou. A prova é que, poucos anos depois, se deram as grandes mobilizações que se voltaram contra os governos e regimes dos partidos comunistas, responsáveis pela restauração. Desta vez, o stalinismo pagou caro pela sua traição.
Eu dizia, na palestra, que opino que há três grandes vitórias de caráter estratégico da classe operária desde que essa existe: o triunfo da Revolução Russa, em outubro de 1917, a derrota do fascismo na Segunda Guerra e a terceira grande vitória é a derrota do aparelho stalinista. Ocorreram muitas tentativas anteriores, mas nunca se conseguiu derrubá-lo com mobilizações nacionais. Era tão poderoso que, igual ao fascismo, foi necessária uma mobilização internacional para poder derrotá-lo.
Eu acho que essa grande vitória nos coloca em melhores condições para superar o grande problema da humanidade que, como dizia Trotsky, é a crise de direção revolucionária. Porque foi destruído o aparelho central do stalinismo, o grande obstáculo para se construir a direção revolucionária. Isso não quer dizer que seja uma tarefa fácil. Nunca o foi. Mas agora há um elemento contraditório, que tem a ver com a confusão e a desmoralização provocadas pela derrota. Por isso, não há tarefa mais importante do que clarificar o caráter da derrota e do triunfo que se deram. Se não o fizermos, se não entendermos a fundo o que ocorreu, não saberemos como seguir em frente. Não acreditamos que sejamos os donos da verdade absoluta. Este livro e estes debates são só primeiros passos. O importante é saber se estes passos, os estamos dando no sentido correto ou não
Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
• Em 9 de novembro de 1989, caía o Muro de Berlim. Este foi um dos fatos centrais do século 20. Este acontecimento significou o triunfo definitivo do capitalismo e o fracasso do socialismo? Têm razão os que, na esquerda, abandonaram a luta pelo socialismo e passaram a buscar humanizar o capitalismo? Ou os que falam do fracasso do modelo leninista de partido e Estado?
Para responder a essas perguntas e reafirmar o programa trotskista, Martín Hernández, dirigente da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), escreveu o livro O veredicto da História, cuja versão em espanhol acaba de ser lançada na Argentina, com a presença do autor em palestras e debates.
Apresentamos, a seguir, artigo publicado no jornal Luta Socialista, órgão da Frente Obrero Socialista (FOS), seção argentina da LIT-QI, sobre as atividades de lançamento do livro em Rosário e Buenos Aires e uma entrevista com Martín Hernández.
No dia 30 de outubro, a FOS realizou, no Hotel Bauen de Buenos Aires, que funciona sob controle dos trabalhadores, um evento de apresentação e lançamento do livro de Martín Hernández, O veredicto da História. O evento foi aberto por Eduardo Barragán, que explicou a importância de podermos retomar o debate sobre os grandes fatos do Leste Europeu quando se completam 20 anos da queda do Muro de Berlim e 92 anos do triunfo da Revolução Russa.
Ao se completarem estes 20 anos, ressurgem as diferentes expressões dos propagandistas do imperialismo, que tentam utilizar essas grandes mobilizações de massas para sua campanha de que o socialismo morreu e da suposta superioridade do capitalismo. Claro que, no meio da crise do sistema capitalista mundial, essas afirmações têm muito menos peso que em 1989. Mas, de qualquer maneira, sempre terão a capacidade de confundir os lutadores, na medida em que, dentre os que defendem a revolução, ainda não há uma clareza total sobre o caráter e as consequências dos processos do Leste Europeu de 1989-91.
Isso reafirma a importância de trabalhos de investigação como o que tem realizado Martín Hernández. Como ele afirma, não pretende fechar a discussão, mas são primeiros passos para fazer avançar o entendimento sobre esses acontecimentos e das tarefas que eles propõem aos revolucionários.
O interesse que este tema origina se refletiu nos mais de 200 companheiros que estiveram presentes nesta palestra-debate. Muitos deles eram ex-militantes do velho MAS argentino, do Partido Comunista, da Fede. Também esteve presente uma delegação da Convergência de Esquerda, bem como jovens estudantes e operários que estão participando dos recentes processos de luta e que sentem a necessidade de compreender esses grandes fatos do passado para avançar com mais segurança para o futuro.
No dia anterior, tinha acontecido uma apresentação em Rosário, organizada pelos companheiros do Espaço Cultural La Toma. Um de seus dirigentes, o companheiro Carlos Ghioldi, abriu o evento apresentando o autor e, após a palestra, coordenou o interessante debate que se abriu entre os presentes. Participaram delegados do Sindicato dos Comerciários, da Mahle e de outras importantes fábricas da região.
A seguir, reproduzimos a entrevista com Martín Hernández, na qual o autor fala dos diferentes aspectos que desenvolve em seu livro.
Entrevista com Martín Hernández
“Se não entendemos o que ocorreu, não saberemos como seguir em frente.”
O que o impulsionou a escrever este livro?
Martín Hernández – A necessidade de dar uma resposta programática, isto é, de chegar à compreensão da situação e das tarefas que estão propostas a partir desses grandes fatos. Como diz Trotsky, no século 20, o socialismo mostrou sua razão de ser. Não nas páginas do Capital, mas no terreno do cimento e do aço, porque a Revolução Russa demonstrou que era uma ideia realizável. Mostrou que um país podia funcionar sem burguesia e, a partir daí, conseguir um desenvolvimento extraordinário. Mostrou-se que a burguesia era uma classe parasitária e que o desenvolvimento da humanidade dependia de sua destruição. Isso voltou a se mostrar após a Segunda Guerra, quando se expropria à burguesia em um terço do planeta.
Vivemos tudo isso no século 20 e, no final do mesmo, ocorreram os dois grandes acontecimentos que estamos discutindo. Por um lado, restaurou-se o capitalismo e, por outro, as grandes mobilizações de massas se voltaram contra os regimes do Partido Comunista que levaram a essa restauração. Isso vai provocar enormes dúvidas e confusão em milhões de pessoas que lutavam pelo socialismo. A primeira grande dúvida: a restauração, que fecha este processo do século 20, não estava indicando um balanço definitivo da história, onde se mostrava que, ainda que o socialismo fosse uma bela ideia, não tinha nada superior ao capitalismo, como já tinha dito Churchill?
A partir daí, milhões de pessoas tiram conclusões muito negativas. Uns se decepcionam e abandonam todo tipo de militância pelo socialismo e vão para suas casas. Outros chegaram à conclusão de que o socialismo era impossível e se puseram a ganhar espaços dentro do capitalismo, isto é, viraram reformistas. Há grandes autores, como Tarik Ali, que dizem, por exemplo, que na Venezuela não existe socialismo nem nada parecido. Mas, dado que o socialismo é impossível, há de se buscar o mais progressivo dentro do capitalismo e, portanto, tem de se apoiar ao governo burguês de Chávez. Isto que Tarik Ali expressa com total clareza, grande parte da esquerda o justifica em nome dos “diferentes caminhos ao socialismo” ou do “socialismo do século XXI”.
Por outro lado, entre os que continuaram lutando pelo socialismo, surgiram outras grandes discussões. Por exemplo, ante o temor de construir partidos parecidos ao PC estalinista, chega-se ao questionamento da construção do partido. Surgem assim setores que afirmam: “socialismo sim, mas partido não”; “não à ditadura do proletariado”, “não ao caminho estatizante” etc.
Estas confusões e crises, que se dão não somente na vanguarda, mas também por dentro do movimento trotskista, são similares às que se deram depois das expropriações do pós-segunda guerra?
Para mim, não. No pós-guerra, deram-se expropriações da burguesia sem que fossem encabeçadas pela classe operária e sem a direção do partido revolucionário. Foram realizadas por direções historicamente contrarrevolucionárias. Isso havia sido previsto por Trotsky, ainda que não como o mais provável, e provocou uma crise no movimento trotskista. Alguns não reconheceram estas revoluções e o caráter operário, ainda que burocratizado, dos novos estados. Por outro lado, entre os que corretamente reconheceram o caráter operário desses estados, surgiu um setor que capitulou às direções burocráticas ou pequeno-burguesas que encabeçaram essas revoluções. Mas essas posições liquidacionistas foram minoritárias A maioria continuou combatendo a burocracia estalinista. Agora, se deu o oposto. O conjunto do movimento trotskista entrou numa grande confusão e, dentro disso, a ampla maioria não só vai à capitulação, como também abandona o programa trotskista.
Os que continuamos defendendo o programa trotskista e a reconstrução da IV Internacional somos uma minoria. E entre os que o fazemos, continua a confusão. Não temos clareza absoluta do que passou e por quê. Isso é muito perigoso, pois corremos o risco de militarmos por fé. E nós somos marxistas, somos científicos, não nos move a fé. Por exemplo, não seguiríamos sendo socialistas se o capitalismo demonstrasse sua superioridade.
No livro, eu abordo este tema. Trotsky dizia que a restauração provocaria uma deterioração qualitativa das condições de vida e da cultura. Isso se viu rapidamente. Hoje há um crescimento populacional negativo na Rússia, produto não de uma queda de natalidade, mas do aumento considerável das mortes evitáveis que se deram após a restauração. Por outro lado, os dados do Banco Mundial dizem que, no mundo, o aumento dos famintos é de 100 milhões por ano. E, como última prova, temos a crise do sistema capitalista que estamos vivendo. Nada disto mostra a superioridade do capitalismo, senão o contrário.
O que ocorreu foi algo que estava previsto por Trotsky desde a década de 1930, quando a URSS estava em pleno apogeu. Nesse momento, Trotsky diz que, se a burocracia continuasse dirigindo esse Estado, a restauração seria inevitável e que a única forma de evitar a restauração era com o triunfo da revolução política. Isto é, a revolução que, mantendo as bases econômicas do Estado, deslocasse a burocracia e pusesse a classe operária em seu lugar. Essas revoluções deram-se, em 1953, na Alemanha; em 1956, na Hungria; em 1968, na Tchecoslováquia; e em três oportunidades, na Polônia. Mas todas foram derrotadas. A burocracia continuou no poder e levou à restauração. Por isso, eu digo que o veredicto da História confirmou, pela negativa, as definições centrais e o programa de Trotsky.
Como se chegou a isso?
Esses estados operários, que tiveram um crescimento espetacular e que pareciam ir ao socialismo, começaram a entrar em crise econômica já na década de 1960. Com relação ao Leste Europeu, a resposta da burocracia não foi expandir a revolução, e sim estreitar as relações comerciais com os grandes centros imperialistas. Isto desenvolveu um grande intercâmbio comercial, completamente desigual, e todas as economias do Leste terminam numa crise brutal. A resposta, novamente, é apelar ao imperialismo, desta vez aos créditos baratos. Assim, no começo dos anos 80, estes Estados que eram independentes do imperialismo, começam a ter um grau de dependência completa via a dívida externa, que os coloca à beira da falência. A burocracia, ante o temor de que essa crise provoque uma convulsão social, se entrega totalmente ao imperialismo. Tudo isto confirma a posição de Trotsky.
Então, por que o movimento trotskista, de conjunto, não saiu fortalecido? Porque não soubemos ver o que estava se passando. Não soubemos ver quando o processo de restauração deu o salto qualitativo e mudou o caráter de classe desses Estados. E esse salto não se dá quando a burocracia aplica algumas medidas restauracionistas, mas sim quando toma uma medida básica: a de destruir os três pilares que restavam do Estado Operário: o monopólio do comércio exterior, a economia estatizada e o planejamento econômico central. Na China, isto se dá a partir de 1978, quando se votam no Comitê Central do PC chinês as quatro modernizações. Na ex-URSS, ocorre com a Perestroika de Gorbachev, a partir de 1986. Com estas medidas, produzem-se mudanças qualitativas nas leis que lhes permitem acabar com o monopólio do comércio exterior, liquidar o planejamento central e admitir a propriedade privada dos meios de produção. Teria de se precisar, país por país, em que momento se dá esse salto qualitativo, em cada caso. Mas, do ponto de vista burocrático, todas essas economias que dependiam da ex-URSS, não tinham outra saída, senão acompanhá-la no caminho da restauração.
Nós, trotskistas, não vimos isso, e alguns não o veem até hoje. Por exemplo, depois de terminada a restauração no Leste, importantes setores dizem que não há restauração em Cuba, na China e Vietnã. Por quê? Porque à frente desses Estados, estão os partidos comunistas. Isto demonstra uma confusão tremenda num setor do movimento trotskista, no qual não nos incluímos. A restauração veio do Partido Comunista. Portanto, onde se conservaram os PCs, a restauração avançou mais rapidamente, com menos contradições. É o caso da China: após a restauração, em 1978, dão-se as grandes mobilizações de 1989, que são esmagadas por um grande massacre. A partir daí, o PC impõe uma ditadura ainda mais forte e o imperialismo sente uma grande confiança para investir. Por isso, hoje a China é a fábrica do mundo: 50% do que exportam as 500 multinacionais mais importantes do mundo, sai da China. Por quê? Porque a ditadura do PC permite-lhes um grau de exploração como não existe em nenhum outro lugar do mundo. Algo similar ocorre com Cuba. Um estudo do Greenpeace diz que, de cada dez hotéis cubanos, sete são espanhóis, sendo que o turismo é a principal entrada de divisas na Ilha. Que tem isso de economia não capitalista?
Pode-se dizer que todo o movimento trotskista atuou de forma igual em frente aos ex-estados operários degenerados?
Não. Uma coisa é que, de conjunto, não víssemos quando se deu o salto qualitativo para a restauração; outra coisa são os que tiveram uma política de capitulação frente às burocracias e os que sempre as enfrentaram. Por exemplo, Ernest Mandel e Pierre Frank, dirigentes do chamado Secretariado Unificado da IV Internacional, diziam que não havia nenhuma possibilidade de restauração do capitalismo. Isso, de fato, era uma capitulação ao imperialismo, que sempre teve uma ofensiva restauradora. Mas era uma capitulação ainda pior à burocracia, já que diziam que esta, em defesa de seus interesses, nunca poderia restaurar o capitalismo.
Sobre isso, dentro do movimento trotskista, houve posições diferentes. Nahuel Moreno sempre polemizou, dentro e fora do SU, contra essa concepção. Em seu livro A ditadura revolucionária do proletariado, ataca com dureza essa posição de Mandel e diz o que sempre disse Trotsky: que enquanto não se conceder a liberdade à burguesia para explorar, enquanto não se acabar com o Estado operário, ainda que esteja burocratizado, todo o capitalismo vai considerar a URSS como sua inimiga, por mais proezas contrarrevolucionárias que faça Stalin. Esse mesmo conceito toma-o Moreno: diz que enquanto não se restaure o capitalismo, sempre haverá uma pressão permanente por restaurá-lo. E agregava que a própria burocracia, quando se visse ameaçada pela explosão das massas, se viraria de pés e mãos à restauração. Então, Mandel desarmava o movimento trotskista, enquanto Moreno alertava que iria ocorrer o que depois se deu.
De qualquer maneira, há um erro também em Moreno, que nós depois seguimos: não ver quando se concretizou essa restauração. Não viu que em 1978 já se tinha restaurado o capitalismo na China. Ele tem um trabalho sobre a China muito bom, publicado no Correio Internacional, em 1985, onde analisa todo o processo de restauração que estava dando. Mas, ao final, diz que não há restauração, pois, para que ocorresse, seria necessário impô-la com uma ditadura similar às de Pinochet ou Videla. Ao assegurar isso, Moreno segue Trotsky, que também afirmava que a restauração só poderia ser imposta através de uma repressão sangrenta. Do ponto de vista do conteúdo, Trotsky tinha razão, já que só se conseguiu a restauração porque se deu um grande massacre a partir da década de 1930. Mas, justamente pelo que dizia Trotsky, que o que tinha surgido desse genocídio era um regime similar ao fascismo, não seria necessário um novo massacre quando a burocracia assumisse a restauração.
O resultado destes processos foi um triunfo ou uma derrota?
O problema é que se tratam de dois processos de caráter oposto, que se deram em diferentes momentos, ainda que muito próximos no tempo. Primeiro dá-se a restauração do capitalismo. Isso, sem nenhuma dúvida, é algo negativo, uma derrota muito importante, já que se trata da reversão da grande conquista operária do século, a expropriação da burguesia. Essa derrota teve consequências: provocou desmoralização, confusão e dúvidas no movimento de massas. Mas não o esmagou nem o paralisou. A prova é que, poucos anos depois, se deram as grandes mobilizações que se voltaram contra os governos e regimes dos partidos comunistas, responsáveis pela restauração. Desta vez, o stalinismo pagou caro pela sua traição.
Eu dizia, na palestra, que opino que há três grandes vitórias de caráter estratégico da classe operária desde que essa existe: o triunfo da Revolução Russa, em outubro de 1917, a derrota do fascismo na Segunda Guerra e a terceira grande vitória é a derrota do aparelho stalinista. Ocorreram muitas tentativas anteriores, mas nunca se conseguiu derrubá-lo com mobilizações nacionais. Era tão poderoso que, igual ao fascismo, foi necessária uma mobilização internacional para poder derrotá-lo.
Eu acho que essa grande vitória nos coloca em melhores condições para superar o grande problema da humanidade que, como dizia Trotsky, é a crise de direção revolucionária. Porque foi destruído o aparelho central do stalinismo, o grande obstáculo para se construir a direção revolucionária. Isso não quer dizer que seja uma tarefa fácil. Nunca o foi. Mas agora há um elemento contraditório, que tem a ver com a confusão e a desmoralização provocadas pela derrota. Por isso, não há tarefa mais importante do que clarificar o caráter da derrota e do triunfo que se deram. Se não o fizermos, se não entendermos a fundo o que ocorreu, não saberemos como seguir em frente. Não acreditamos que sejamos os donos da verdade absoluta. Este livro e estes debates são só primeiros passos. O importante é saber se estes passos, os estamos dando no sentido correto ou não
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
"OS DIATADORES DA FÉ"
Postado por Kamadon
RETIRADO DA CARTA DE PAULO AOS ROMANOS
Já que sou apóstolo para os não judeus, tenho orgulho do meu trabalho. Talvez eu possa fazer que os da minha própria raça fiquem com ciúme, e assim seja possível salvar alguns deles.
Capítulo 11 – versículo 13 a 14
Deixe-me contar uma história e interessante. Já a contei muitas vezes, mas quando se fala de religioso e não religioso, de fé e não fé, ela é muito importante. Por isso vou contar novamente.
Havia uma moça na China que era prostituta e recebia todos os homens na sua casa. Um dia, um monge que tinha sua casa em frente à dela, descobriu que ela era prostituta e foi lá e brigou com ela. 'Você não pode fazer isso, pois é contra a lei de Deus; está dormindo com os homens dos outros'. O monge a ofendeu a vontade.
Ela disse: 'desculpa monge, não sabia disso. Se soubesse que era contra a lei de Deus, jamais teria feito, pois amo a Deus. Vou me consertar'.
Ela parou de receber os homens mas aí ficou sem dinheiro para comer. Não arrumava mais nada para fazer na vida e ninguém lhe dava um tostão. Por isso, quando estava quase morrendo de fome, não teve jeito: voltou a receber homens. Só que quando cada homem saia, ela ia para o altar e conversava com Deus. Explicava a ele da sua necessidade e pedia perdão.
O monge sabendo que ela tinha voltado a receber homens, foi lá e novamente a humilhou. Ela se explicou: 'mas monge, eu não consigo outra forma de ganhar dinheiro, o senhor pode me ajudar? Ele disse: 'não, nós já temos muitas despesas no templo... Temos que comer, que fazer as oferendas para Deus, que comprar incenso, fazer velas... Por isso não posso lhe ajudar'.
Além de negar o auxílio, o monge disse: 'mas sua situação não justifica seu ato. Você não pode receber homens'. Mas, mais do que lhe dar o código legal, como todo legislador, decretou uma sentença: 'vou colocar na porta da sua casa uma pedra para cada homem que entrar. Assim, ao olhar essa pedra, terá consciência do que está fazendo'.
Isso não mudou a realidade da prostitua, pois não tinha outra forma de viver. Ela continuou recebendo homens e pedindo desculpas a Deus...
Um dia, os monge e a prostitua morreram na mesma hora. Neste momento, o monte de pedras na porta da casa da prostituta estava mais alto que a própria casa....
Na hora em que os dois morreram, foram atendidos por anjos. Enquanto o anjo que carregava o monge descia para o inferno, o com a prostituta era levada para o Céu. Aí o monge contestou: 'não, isso é impossível! Eu sou um monge. Levei minha vida dedicada a oferecer sacrifícios a Deus. Porque ela está subindo e estou descendo'?
E o anjo disse à ele: porque o seu coração está muito pesado com todas aquelas pedras.
É isso que Paulo está nos ensinando. Deus não quer sacrifícios, não quer religiosidade; Ele quer corações leves...
Deus não quer ditadores que em nome Dele imponham ao próximo ações. O que Ele quer, na realidade, é que cada um ame o próximo como a si mesmo.
RETIRADO DA CARTA DE PAULO AOS ROMANOS
Já que sou apóstolo para os não judeus, tenho orgulho do meu trabalho. Talvez eu possa fazer que os da minha própria raça fiquem com ciúme, e assim seja possível salvar alguns deles.
Capítulo 11 – versículo 13 a 14
Deixe-me contar uma história e interessante. Já a contei muitas vezes, mas quando se fala de religioso e não religioso, de fé e não fé, ela é muito importante. Por isso vou contar novamente.
Havia uma moça na China que era prostituta e recebia todos os homens na sua casa. Um dia, um monge que tinha sua casa em frente à dela, descobriu que ela era prostituta e foi lá e brigou com ela. 'Você não pode fazer isso, pois é contra a lei de Deus; está dormindo com os homens dos outros'. O monge a ofendeu a vontade.
Ela disse: 'desculpa monge, não sabia disso. Se soubesse que era contra a lei de Deus, jamais teria feito, pois amo a Deus. Vou me consertar'.
Ela parou de receber os homens mas aí ficou sem dinheiro para comer. Não arrumava mais nada para fazer na vida e ninguém lhe dava um tostão. Por isso, quando estava quase morrendo de fome, não teve jeito: voltou a receber homens. Só que quando cada homem saia, ela ia para o altar e conversava com Deus. Explicava a ele da sua necessidade e pedia perdão.
O monge sabendo que ela tinha voltado a receber homens, foi lá e novamente a humilhou. Ela se explicou: 'mas monge, eu não consigo outra forma de ganhar dinheiro, o senhor pode me ajudar? Ele disse: 'não, nós já temos muitas despesas no templo... Temos que comer, que fazer as oferendas para Deus, que comprar incenso, fazer velas... Por isso não posso lhe ajudar'.
Além de negar o auxílio, o monge disse: 'mas sua situação não justifica seu ato. Você não pode receber homens'. Mas, mais do que lhe dar o código legal, como todo legislador, decretou uma sentença: 'vou colocar na porta da sua casa uma pedra para cada homem que entrar. Assim, ao olhar essa pedra, terá consciência do que está fazendo'.
Isso não mudou a realidade da prostitua, pois não tinha outra forma de viver. Ela continuou recebendo homens e pedindo desculpas a Deus...
Um dia, os monge e a prostitua morreram na mesma hora. Neste momento, o monte de pedras na porta da casa da prostituta estava mais alto que a própria casa....
Na hora em que os dois morreram, foram atendidos por anjos. Enquanto o anjo que carregava o monge descia para o inferno, o com a prostituta era levada para o Céu. Aí o monge contestou: 'não, isso é impossível! Eu sou um monge. Levei minha vida dedicada a oferecer sacrifícios a Deus. Porque ela está subindo e estou descendo'?
E o anjo disse à ele: porque o seu coração está muito pesado com todas aquelas pedras.
É isso que Paulo está nos ensinando. Deus não quer sacrifícios, não quer religiosidade; Ele quer corações leves...
Deus não quer ditadores que em nome Dele imponham ao próximo ações. O que Ele quer, na realidade, é que cada um ame o próximo como a si mesmo.
"Saudades do comunismo"
Postado por Attman e Kamadon
Leandro Fortes *
Não deixa de ser engraçado - e emblemático - o pavor físico que a presença de Hugo Chávez na presidência da Venezuela provoca numa quantidade razoável de colunistas e analistas de aleatoriedades políticas que abundam na imprensa brasileira. De certa forma, o chavismo veio suprir a lacuna deixada pelo comunismo como doutrina do medo, expediente muito caro à direita no mundo todo, mas que no Brasil sempre oscilou entre o infantilismo ideológico e o mau caratismo. Antes do fim dos regimes comunistas da União Soviética e de seus países satélites, no final dos anos 1980, era fácil compor um bicho-papão guloso por criancinhas, ateu e cruel, prestes a ocupar condomínios de luxo com gente grosseira e sem modos, a mijar nas piscinas e sujar o mármore dos lavabos com graxa e estrume roubado a latifúndios expropriados. Ao longo dos anos 1990, muita gente ainda conseguiu sobreviver falando disso, embora fosse um discurso maluco sobre um mundo que não mais existia. Entende-se: certos vícios, sobretudo os bem remunerados, são difíceis de largar.
No vasto império da América do Norte, onde o fim do comunismo também foi comemorado como o fim da História, os falcões republicanos perceberam de cara que seria inviável continuar a assustar os eleitores com o fantasma débil e inacabado da ditadura de Fidel Castro, esse sujeito que, incrivelmente, ainda faz sujar as calças dos ruralistas brasileiros e de suas penas de aluguel. Por essa razão, e para manter azeitado o bilionário negócio de venda de armas, os americanos inventaram a tal guerra contra as drogas, cujo resultado prático, duas décadas depois, vem a ser o aumento planetário da produção e do consumo de todo tipo de entorpecente, da maconha às super anfetaminas. O Brasil, claro, embarcou na mesma canoa furada, quando, assim como no resto da América Latina de então, o presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu militarizar o comando do combate às drogas no país - o que, aliás, não mudou muito. Na Secretaria Nacional de Políticas Antidrogas (Senad), da Presidência da República, reina soberano, desde o governo FHC, o general Paulo Roberto Uchoa.
Georg W. Bush usou o medo do terrorismo para também suprir a ausência da ameaça comunista, embora não tenha sequer tido o cuidado de mudar os métodos, baseados na mentira e na tortura, nem sempre nessa ordem. Assim foi, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, com as invencionices sobre as armas de destruição de massa do Iraque e a prisão de Guantánamo, em Cuba, uma espécie de Auschwitz hightech. Ao sul do Equador, consolidou o tal Plano Colômbia, um desaguadouro de dólares cujo pretexto é o combate às drogas, embora qualquer índio isolado da fronteira saiba que o país de Gabriel García Márquez se tornou um estado preposto dos EUA, um Israel sulamericano. No fim das contas, uma estratégia para se opor ao "perigo chavista", embora não haja nenhum argumento realmente sério que sustente essa novíssima e encomendada paranóia tão bem nutrida pelas elites locais.
O mote agora, replicado aqui e acolá por analistas apavorados, é a sombra de Hugo Chávez sobre Honduras, onde um golpe de Estado passou a ser descaradamente justificado nesse contexto. Graças aos golpistas, visivelmente uma elite branca e desesperada, como aquela que faz manifestações trajando jogging em Caracas, o chavismo teria sido abortado em Honduras, antes que virasse coisa como a Bolívia, o Equador e o Paraguai - ou seja, repúblicas perigosamente dominadas por governos populares. São os novos comunistas, revolucionários da pior espécie porque, justamente, abriram mão das revoluções para tomar o poder pela via do voto, da democracia. E, pior, muitos são cristãos.
Quando tucanos e pefelistas se mobilizaram, inclusive à custa de compra de votos, para aprovar o projeto de reeleição de FHC, em 1997, os editoriais e colunas da mídia nacional se desmancharam em elogios e rapapés. Saudaram a quebra da regra eleitoral como um alento à democracia e condição essencial à continuidade do desmonte do Estado e à privatização dos setores estratégicos da economia, a qualquer custo. Quando o assunto é Chávez, no entanto, qualquer movimento institucional, todos previstos nas regras constitucionais da Venezuela, é golpe. Reeleição? É golpe. Plebiscito? É golpe. TV pública? É golpe. Usar o dinheiro do petróleo em projetos populares? Isso, então nem se fala: é mais do que golpe, é covardia.
As tentativas de re-reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia, contudo, ainda passeiam no noticiário brasileiro como "nova reeleição" do corajoso cruzado contra os narcoguerrilheiros das Farc. No Brasil, a simples insinuação de que Lula pudesse querer o mesmo virou o "golpe do terceiro mandato". Em Honduras, as multidões contrárias ao golpe contra o presidente Zelaya são chamadas de "manifestantes contrários ao governo interino". Mais ou menos o que acontece com a resistência iraquiana à invasão das tropas americanas, cujos membros foram singelamente apelidados de "insurgentes" pelo jornalismo nacional.
Os tempos do anticomunismo eram estúpidos, mas pelo menos a gente sabia do que os idiotas tinham medo, de verdade.
[Autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado ‘Brasília, eu vi’].
* Jornalista, professor e escritor
Leandro Fortes *
Não deixa de ser engraçado - e emblemático - o pavor físico que a presença de Hugo Chávez na presidência da Venezuela provoca numa quantidade razoável de colunistas e analistas de aleatoriedades políticas que abundam na imprensa brasileira. De certa forma, o chavismo veio suprir a lacuna deixada pelo comunismo como doutrina do medo, expediente muito caro à direita no mundo todo, mas que no Brasil sempre oscilou entre o infantilismo ideológico e o mau caratismo. Antes do fim dos regimes comunistas da União Soviética e de seus países satélites, no final dos anos 1980, era fácil compor um bicho-papão guloso por criancinhas, ateu e cruel, prestes a ocupar condomínios de luxo com gente grosseira e sem modos, a mijar nas piscinas e sujar o mármore dos lavabos com graxa e estrume roubado a latifúndios expropriados. Ao longo dos anos 1990, muita gente ainda conseguiu sobreviver falando disso, embora fosse um discurso maluco sobre um mundo que não mais existia. Entende-se: certos vícios, sobretudo os bem remunerados, são difíceis de largar.
No vasto império da América do Norte, onde o fim do comunismo também foi comemorado como o fim da História, os falcões republicanos perceberam de cara que seria inviável continuar a assustar os eleitores com o fantasma débil e inacabado da ditadura de Fidel Castro, esse sujeito que, incrivelmente, ainda faz sujar as calças dos ruralistas brasileiros e de suas penas de aluguel. Por essa razão, e para manter azeitado o bilionário negócio de venda de armas, os americanos inventaram a tal guerra contra as drogas, cujo resultado prático, duas décadas depois, vem a ser o aumento planetário da produção e do consumo de todo tipo de entorpecente, da maconha às super anfetaminas. O Brasil, claro, embarcou na mesma canoa furada, quando, assim como no resto da América Latina de então, o presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu militarizar o comando do combate às drogas no país - o que, aliás, não mudou muito. Na Secretaria Nacional de Políticas Antidrogas (Senad), da Presidência da República, reina soberano, desde o governo FHC, o general Paulo Roberto Uchoa.
Georg W. Bush usou o medo do terrorismo para também suprir a ausência da ameaça comunista, embora não tenha sequer tido o cuidado de mudar os métodos, baseados na mentira e na tortura, nem sempre nessa ordem. Assim foi, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, com as invencionices sobre as armas de destruição de massa do Iraque e a prisão de Guantánamo, em Cuba, uma espécie de Auschwitz hightech. Ao sul do Equador, consolidou o tal Plano Colômbia, um desaguadouro de dólares cujo pretexto é o combate às drogas, embora qualquer índio isolado da fronteira saiba que o país de Gabriel García Márquez se tornou um estado preposto dos EUA, um Israel sulamericano. No fim das contas, uma estratégia para se opor ao "perigo chavista", embora não haja nenhum argumento realmente sério que sustente essa novíssima e encomendada paranóia tão bem nutrida pelas elites locais.
O mote agora, replicado aqui e acolá por analistas apavorados, é a sombra de Hugo Chávez sobre Honduras, onde um golpe de Estado passou a ser descaradamente justificado nesse contexto. Graças aos golpistas, visivelmente uma elite branca e desesperada, como aquela que faz manifestações trajando jogging em Caracas, o chavismo teria sido abortado em Honduras, antes que virasse coisa como a Bolívia, o Equador e o Paraguai - ou seja, repúblicas perigosamente dominadas por governos populares. São os novos comunistas, revolucionários da pior espécie porque, justamente, abriram mão das revoluções para tomar o poder pela via do voto, da democracia. E, pior, muitos são cristãos.
Quando tucanos e pefelistas se mobilizaram, inclusive à custa de compra de votos, para aprovar o projeto de reeleição de FHC, em 1997, os editoriais e colunas da mídia nacional se desmancharam em elogios e rapapés. Saudaram a quebra da regra eleitoral como um alento à democracia e condição essencial à continuidade do desmonte do Estado e à privatização dos setores estratégicos da economia, a qualquer custo. Quando o assunto é Chávez, no entanto, qualquer movimento institucional, todos previstos nas regras constitucionais da Venezuela, é golpe. Reeleição? É golpe. Plebiscito? É golpe. TV pública? É golpe. Usar o dinheiro do petróleo em projetos populares? Isso, então nem se fala: é mais do que golpe, é covardia.
As tentativas de re-reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia, contudo, ainda passeiam no noticiário brasileiro como "nova reeleição" do corajoso cruzado contra os narcoguerrilheiros das Farc. No Brasil, a simples insinuação de que Lula pudesse querer o mesmo virou o "golpe do terceiro mandato". Em Honduras, as multidões contrárias ao golpe contra o presidente Zelaya são chamadas de "manifestantes contrários ao governo interino". Mais ou menos o que acontece com a resistência iraquiana à invasão das tropas americanas, cujos membros foram singelamente apelidados de "insurgentes" pelo jornalismo nacional.
Os tempos do anticomunismo eram estúpidos, mas pelo menos a gente sabia do que os idiotas tinham medo, de verdade.
[Autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado ‘Brasília, eu vi’].
* Jornalista, professor e escritor
"Pós-FSM: celebração e futuro"
Postado por Attman e Kamadon
Selvino Heck *
Olívio Dutra, governador do Estado do Rio Grande quando da realização do 1º Fórum Social Mundial (FSM) em 2001, contou uma história no painel de abertura dos 10 anos: "Estes dias, quando veraneava na colônia de férias dos bancários do BANRISUL, fiz uma caminhada pela praia com meu neto de cinco anos. Toda vez que encontrava um papel no chão, eu o ajuntava para colocá-lo na cesta do lixo. Quando chegamos em casa, meu neto perguntou: ‘Mas vô, por que só o senhor ajunta coisas na praia e os outros não fazem isso?’ Respondi que era para dar o exemplo a todos e que a gente sempre precisa fazer as coisas certas. Aí, no dia seguinte, encontrei um companheiro, destes de longa data, petista de carteirinha, que estava comendo uma bala. Daqui a pouco ele larga o papel da bala no chão. Aí eu disse: ‘Mas meu companheiro, se a gente não cuida das pequenas coisas, como é que a gente vai cuidar das grandes e mudar o mundo?’ E ajuntei o papel do chão, ele todo envergonhado".
O Fórum Social Mundial 10 anos, realizado no final de janeiro em Porto Alegre, foi mesmo uma celebração. Da mesa de abertura, com personalidades que em 2001 estiveram na linha de frente de sua realização, passando pela caminhada cheia de energia que partiu do centro da capital gaúcha, com milhares de pessoas, até a Usina do Gasômetro, os debates descentralizados em diferentes cidades da Região Metropolitana, foi um grande encontrar-se de pessoas, culturas e histórias de vida, com grande animação e entusiasmo.
Como disse a ativista uruguaia Lílian Celiberti, nem sempre as agendas dos movimentos coincidem com as agendas dos governos conquistados; é necessário cuidarmo-nos mutuamente e cuidar da esperança. Rafaela Bollini, da Itália, contou que o primeiro Fórum mudou sua vida, ajudou-a a ter uma visão de mundo, e que há hoje uma grande responsabilidade da América Latina e do Brasil. "Em 2001 éramos todos considerados subversivos, agora o próprio sistema dominante sabe que é preciso mudar." Cândido Gribowsky falou que é preciso pôr em questão o Estado-Nação e o modo como se pensam as relações sociais. O diálogo inter-movimentos ainda precisa ser desenvolvido. "Como construir novos movimentos sociais para construir novas hegemonias?" Para Olívio Dutra, o Estado deve ser controlado pela sociedade com uma democracia participativa e não o Estado controlando os movimentos. João Pedro Stédile disse que o FSM nasceu de forma coletiva, uma verdadeira feira de debates, sem exclusões e que ele contribuiu na derrota ideológica co neoliberalismo. Por outro lado, diz Stédile, o Fórum não conseguiu acumular programa mais positivo, assim como promover ações de massa em nível internacional. Faltou capacidade de aglutinar forças para propostas anti-imperialistas. A conjuntura internacional é difícil. Continua a hegemonia do capital, que com sua experiência histórica usa o Estado para readequar-se na crise.
Márcio Pochmann, presidente do IPEA, em oficina com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados, afirmou que o Brasil não fez a revolução burguesa. Nunca foi uma sociedade de rupturas. Os acertos sempre se dão por cima. Temos apenas 25 anos de experiência democrática continuada, numa democracia representativa, pouco participativa. As elites brasileiras têm dificuldade de aceitar o povo brasileiro.
Cláudio Nascimento, da Rede TALHER de Educação Cidadã, disse que é preciso construir a utopia concreta, com os pés no chão, o que Paulo Freire chamou de inédito viável. É preciso ser radicalmente contra o pragmatismo e pensar uma comunidade latinoamericana. A utopia concreta precisa: ser assentada na socialização e no controle do processo produtivo; deve haver a socialização do poder político, com a construção de um Estado ético, político, democrático; e haver uma libertação ético-cultural, um reencantamento. O caminho é um método democrático com articulação da educação popular com as políticas públicas, a construção de uma esfera pública articulada com a esfera popular.
Foram incontáveis mesas, debates, painéis sobre todos os temas possíveis e imagináveis. E aconteceu o Acampamento da Juventude em Novo Hamburgo, com milhares de participantes, as Feiras da Economia Solidária em Santa Maria, Bento Gonçalves e Canoas. E os shows em todos os municípios, sempre com grande presença de povo e muita alegria.
As palavras de Olívio Dutra foram ao mesmo tempo simbólicas e proféticas. Simbólicas, porque fazem do pequeno gesto um grande gesto e um aprendizado a todas as crianças e jovens. Não basta fazer belos discursos ou ter intenções planetárias. É ligar o local ao global, o regional ao nacional e mundial. Proféticas, porque trazem a urgência de todos e todas termos atitudes em relação ao clima, à natureza e ao meio ambiente, a consciência transformada em prática concreta e diária: cidadãos e cidadãs, governantes e militantes. O futuro do planeta e a sobrevivência da humanidade estão em jogo.
Pode-se dizer que o FSM-10 anos renovou a esperança. Todos estão atentos aos acontecimentos de Honduras, do Haiti, à necessidade da consolidação da democracia, à construção de um outro projeto de desenvolvimento e de sociedade, um outro mundo possível. Há uma sociedade vigilante, há movimentos sociais que se (re)organizam. O próximo Fórum, no Senegal em 2011, poderá avançar. Porque nos primeiros 10 anos o Fórum passou pelo teste e foi aprovado.
* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
Selvino Heck *
Olívio Dutra, governador do Estado do Rio Grande quando da realização do 1º Fórum Social Mundial (FSM) em 2001, contou uma história no painel de abertura dos 10 anos: "Estes dias, quando veraneava na colônia de férias dos bancários do BANRISUL, fiz uma caminhada pela praia com meu neto de cinco anos. Toda vez que encontrava um papel no chão, eu o ajuntava para colocá-lo na cesta do lixo. Quando chegamos em casa, meu neto perguntou: ‘Mas vô, por que só o senhor ajunta coisas na praia e os outros não fazem isso?’ Respondi que era para dar o exemplo a todos e que a gente sempre precisa fazer as coisas certas. Aí, no dia seguinte, encontrei um companheiro, destes de longa data, petista de carteirinha, que estava comendo uma bala. Daqui a pouco ele larga o papel da bala no chão. Aí eu disse: ‘Mas meu companheiro, se a gente não cuida das pequenas coisas, como é que a gente vai cuidar das grandes e mudar o mundo?’ E ajuntei o papel do chão, ele todo envergonhado".
O Fórum Social Mundial 10 anos, realizado no final de janeiro em Porto Alegre, foi mesmo uma celebração. Da mesa de abertura, com personalidades que em 2001 estiveram na linha de frente de sua realização, passando pela caminhada cheia de energia que partiu do centro da capital gaúcha, com milhares de pessoas, até a Usina do Gasômetro, os debates descentralizados em diferentes cidades da Região Metropolitana, foi um grande encontrar-se de pessoas, culturas e histórias de vida, com grande animação e entusiasmo.
Como disse a ativista uruguaia Lílian Celiberti, nem sempre as agendas dos movimentos coincidem com as agendas dos governos conquistados; é necessário cuidarmo-nos mutuamente e cuidar da esperança. Rafaela Bollini, da Itália, contou que o primeiro Fórum mudou sua vida, ajudou-a a ter uma visão de mundo, e que há hoje uma grande responsabilidade da América Latina e do Brasil. "Em 2001 éramos todos considerados subversivos, agora o próprio sistema dominante sabe que é preciso mudar." Cândido Gribowsky falou que é preciso pôr em questão o Estado-Nação e o modo como se pensam as relações sociais. O diálogo inter-movimentos ainda precisa ser desenvolvido. "Como construir novos movimentos sociais para construir novas hegemonias?" Para Olívio Dutra, o Estado deve ser controlado pela sociedade com uma democracia participativa e não o Estado controlando os movimentos. João Pedro Stédile disse que o FSM nasceu de forma coletiva, uma verdadeira feira de debates, sem exclusões e que ele contribuiu na derrota ideológica co neoliberalismo. Por outro lado, diz Stédile, o Fórum não conseguiu acumular programa mais positivo, assim como promover ações de massa em nível internacional. Faltou capacidade de aglutinar forças para propostas anti-imperialistas. A conjuntura internacional é difícil. Continua a hegemonia do capital, que com sua experiência histórica usa o Estado para readequar-se na crise.
Márcio Pochmann, presidente do IPEA, em oficina com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados, afirmou que o Brasil não fez a revolução burguesa. Nunca foi uma sociedade de rupturas. Os acertos sempre se dão por cima. Temos apenas 25 anos de experiência democrática continuada, numa democracia representativa, pouco participativa. As elites brasileiras têm dificuldade de aceitar o povo brasileiro.
Cláudio Nascimento, da Rede TALHER de Educação Cidadã, disse que é preciso construir a utopia concreta, com os pés no chão, o que Paulo Freire chamou de inédito viável. É preciso ser radicalmente contra o pragmatismo e pensar uma comunidade latinoamericana. A utopia concreta precisa: ser assentada na socialização e no controle do processo produtivo; deve haver a socialização do poder político, com a construção de um Estado ético, político, democrático; e haver uma libertação ético-cultural, um reencantamento. O caminho é um método democrático com articulação da educação popular com as políticas públicas, a construção de uma esfera pública articulada com a esfera popular.
Foram incontáveis mesas, debates, painéis sobre todos os temas possíveis e imagináveis. E aconteceu o Acampamento da Juventude em Novo Hamburgo, com milhares de participantes, as Feiras da Economia Solidária em Santa Maria, Bento Gonçalves e Canoas. E os shows em todos os municípios, sempre com grande presença de povo e muita alegria.
As palavras de Olívio Dutra foram ao mesmo tempo simbólicas e proféticas. Simbólicas, porque fazem do pequeno gesto um grande gesto e um aprendizado a todas as crianças e jovens. Não basta fazer belos discursos ou ter intenções planetárias. É ligar o local ao global, o regional ao nacional e mundial. Proféticas, porque trazem a urgência de todos e todas termos atitudes em relação ao clima, à natureza e ao meio ambiente, a consciência transformada em prática concreta e diária: cidadãos e cidadãs, governantes e militantes. O futuro do planeta e a sobrevivência da humanidade estão em jogo.
Pode-se dizer que o FSM-10 anos renovou a esperança. Todos estão atentos aos acontecimentos de Honduras, do Haiti, à necessidade da consolidação da democracia, à construção de um outro projeto de desenvolvimento e de sociedade, um outro mundo possível. Há uma sociedade vigilante, há movimentos sociais que se (re)organizam. O próximo Fórum, no Senegal em 2011, poderá avançar. Porque nos primeiros 10 anos o Fórum passou pelo teste e foi aprovado.
* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
"Economia e Vida (I): a missão"
Postado por Attman e Kamadon
Jung Mo Sung *
Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre "economia e vida". Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF.
Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc.
Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre "economia e vida", vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia.
Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de "espiritualizar" a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um "ser incorpóreo" (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se "espiritualizando" (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma.
Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha.
Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do "cristianismo de libertação" ou como se "libertação" não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores).
A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano em corpo X alma, nos ensina que, na criação, Deus insuflou nas narinas do ser humano "um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gn 2,7). Nós somos seres viventes e como tais lutamos contra a morte. E a imagem de "sopro de vida" nos lembra que a vida é o dom mais precioso que recebemos de Deus, que a vida vem de "dentro" de Deus (nosso Deus é Deus da Vida) e que, como sopro, a vida é algo frágil que precisa ser continuamente cuidada e preservada. Por isso, a Bíblia continua a narrativa dizendo que Deus fez brotar da terra "toda espécie de árvore formosa para ver e boas de comer". A vida humana é para ser vivida na formosura, beleza, e com boa comida partilhada.
É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, "o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem".
A vida humana depende do trabalho e da "natureza", depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas.
Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia).
(Autor, entre outros, de "Se Deus existe, por que há pobreza?", Ed., Reflexão).
* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião
Jung Mo Sung *
Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre "economia e vida". Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF.
Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc.
Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre "economia e vida", vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia.
Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de "espiritualizar" a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um "ser incorpóreo" (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se "espiritualizando" (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma.
Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha.
Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do "cristianismo de libertação" ou como se "libertação" não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores).
A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano em corpo X alma, nos ensina que, na criação, Deus insuflou nas narinas do ser humano "um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gn 2,7). Nós somos seres viventes e como tais lutamos contra a morte. E a imagem de "sopro de vida" nos lembra que a vida é o dom mais precioso que recebemos de Deus, que a vida vem de "dentro" de Deus (nosso Deus é Deus da Vida) e que, como sopro, a vida é algo frágil que precisa ser continuamente cuidada e preservada. Por isso, a Bíblia continua a narrativa dizendo que Deus fez brotar da terra "toda espécie de árvore formosa para ver e boas de comer". A vida humana é para ser vivida na formosura, beleza, e com boa comida partilhada.
É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, "o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem".
A vida humana depende do trabalho e da "natureza", depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas.
Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia).
(Autor, entre outros, de "Se Deus existe, por que há pobreza?", Ed., Reflexão).
* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião
"A crise em desdobramento e a relevância de Marx"
Postado por Attman e Kamadon
por István Mészáros
Alguns de vocês talvez tenham estado presentes na nossa reunião de Maio
deste ano neste edifício, quando recordei o que havia dito a Lucien Goldman,
em Paris, poucos meses antes do histórico Maio de 1968 francês. Em contraste
com a perspectiva então prevalecente do "capitalismo organizado", que se
supunha ter deixado para trás com êxito o estágio da "crise do capitalismo"
uma visão fortemente asseverada por Marcuse e nessa época também
partilhada pelo meu querido amigo Lucien Goldman insisti no facto de que, em
comparação com a crise em que estamos realmente a entrar, "a Grande Crise
Económica Mundial de 1929-1933" se parecer com "uma festa no salão de chá
do vigário".
Nas últimas semanas vocês tiveram uma antevisão do que eu tinha em mente.
Mas apenas uma antevisão, porque a crise estrutural do sistema do capital
como um todo, a qual estamos a experimentar na nossa época numa escala de
era, está destinada a ficar consideravelmente pior. Ela tornar-se-á na devida
altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das
finanças globais mais ou menos parasitárias como todos os domínios da nossa
vida social, económica e cultural.
A questão óbvia que devemos agora tratar refere-se à natureza da crise global
em desdobramento e as condições necessárias para a sua solução factível.
A CONFIANÇA E A FALTA DELA
Se tentarem recordar o que foi infindavelmente repetido nas últimas duas
semanas acerca da crise actual, há uma palavra que se destaca, ensombrando
todos os demais diagnósticos apregoados e os remédios correspondentes. Essa
palavra é confiança. Se ganhássemos uma nota de dez libras por cada vez que
esta palavra mágica foi oferecida para consumo público nas últimas duas
semanas em todo o mundo, sem mencionar a sua continuada reafirmação
desde então, estaríamos todos milionários. O nosso único problema seria então
o que fazer com os nossos milhões subitamente adquiridos. Pois nenhum dos
nossos bancos, nem mesmo os nossos bancos nacionalizados recentemente
nacionalizados ao custo considerável de não menos do que dois terços dos
seus activos de capital poderia fornecer a lendária "confiança" necessária ao
depósito ou ao investimento seguro.
Até o nosso primeiro-ministro, Gordon Brown, nos apresentou na semana
passada a frase memorável "Confiança é a coisa mais preciosa". Conheço a
cantiga e provavelmente a maioria de nós também a conhece que nos diz
que: "O amor é a coisa mais preciosa". Mas a confiança no sistema bancário
capitalista ser a coisa mais preciosa?! Tal sugestão é absolutamente perversa!
No entanto, a advocacia deste remédio mágico parece agora ser universal. A
palavra é repetida com tamanha convicção como se a "confiança" pudesse
simplesmente chover do céu ou crescer em grande abundância em árvores
financeiras "capitalistamente" bem adubadas.
Há três dias atrás (a 18 de Outubro) o programa da BBC das manhãs de
domingo o programa Andrew Marr entrevistou um eminente cavalheiro idoso,
Sir Brian Pitman, o qual foi apresentado como o antigo Chefe do negócio
bancário do Lloyd's. Eles não disseram quando ele liderou aquela organização,
mas o modo como falou logo o tornou claro. Pois transpirou através das suas
respostas respeitosamente recebidas que ele deve ter sido o Chefe do Lloyd's
Bank bem antes da Crise Económica Mundial de 1929-33. Consequentemente,
para encorajar os telespectadores, ele apresentou uma grande inovação
conceptual no discurso da confiança ao dizer que as nossas perturbações eram
todas elas devidas a alguma "Super-confiança". E imediatamente demonstrou
também o significado de "Super-confiança", ao afirmar, mais de uma vez
naquela curta entrevista, que não pode haver problemas sérios hoje, porque o
mercado sempre toma conta de tudo, mesmo que por vezes ele vá
inesperadamente muito abaixo. Posteriormente ele sempre sobe outra vez. De
modo que ele também fará isso desta vez, e subirá infalivelmente repetidas
vezes no futuro. A crise actual não deveria ser exagerada, disse ele, porque é
muito menos séria hoje do que a que experimentámos em 1974. Pois em 1974
tivemos uma semana de três dias de trabalho na Grã-Bretanha [ainda que em
nenhum outro lugar] e agora não temos isso. Temos? E quem poderia
argumentar contra aquele facto irrefutável?
por István Mészáros
Alguns de vocês talvez tenham estado presentes na nossa reunião de Maio
deste ano neste edifício, quando recordei o que havia dito a Lucien Goldman,
em Paris, poucos meses antes do histórico Maio de 1968 francês. Em contraste
com a perspectiva então prevalecente do "capitalismo organizado", que se
supunha ter deixado para trás com êxito o estágio da "crise do capitalismo"
uma visão fortemente asseverada por Marcuse e nessa época também
partilhada pelo meu querido amigo Lucien Goldman insisti no facto de que, em
comparação com a crise em que estamos realmente a entrar, "a Grande Crise
Económica Mundial de 1929-1933" se parecer com "uma festa no salão de chá
do vigário".
Nas últimas semanas vocês tiveram uma antevisão do que eu tinha em mente.
Mas apenas uma antevisão, porque a crise estrutural do sistema do capital
como um todo, a qual estamos a experimentar na nossa época numa escala de
era, está destinada a ficar consideravelmente pior. Ela tornar-se-á na devida
altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das
finanças globais mais ou menos parasitárias como todos os domínios da nossa
vida social, económica e cultural.
A questão óbvia que devemos agora tratar refere-se à natureza da crise global
em desdobramento e as condições necessárias para a sua solução factível.
A CONFIANÇA E A FALTA DELA
Se tentarem recordar o que foi infindavelmente repetido nas últimas duas
semanas acerca da crise actual, há uma palavra que se destaca, ensombrando
todos os demais diagnósticos apregoados e os remédios correspondentes. Essa
palavra é confiança. Se ganhássemos uma nota de dez libras por cada vez que
esta palavra mágica foi oferecida para consumo público nas últimas duas
semanas em todo o mundo, sem mencionar a sua continuada reafirmação
desde então, estaríamos todos milionários. O nosso único problema seria então
o que fazer com os nossos milhões subitamente adquiridos. Pois nenhum dos
nossos bancos, nem mesmo os nossos bancos nacionalizados recentemente
nacionalizados ao custo considerável de não menos do que dois terços dos
seus activos de capital poderia fornecer a lendária "confiança" necessária ao
depósito ou ao investimento seguro.
Até o nosso primeiro-ministro, Gordon Brown, nos apresentou na semana
passada a frase memorável "Confiança é a coisa mais preciosa". Conheço a
cantiga e provavelmente a maioria de nós também a conhece que nos diz
que: "O amor é a coisa mais preciosa". Mas a confiança no sistema bancário
capitalista ser a coisa mais preciosa?! Tal sugestão é absolutamente perversa!
No entanto, a advocacia deste remédio mágico parece agora ser universal. A
palavra é repetida com tamanha convicção como se a "confiança" pudesse
simplesmente chover do céu ou crescer em grande abundância em árvores
financeiras "capitalistamente" bem adubadas.
Há três dias atrás (a 18 de Outubro) o programa da BBC das manhãs de
domingo o programa Andrew Marr entrevistou um eminente cavalheiro idoso,
Sir Brian Pitman, o qual foi apresentado como o antigo Chefe do negócio
bancário do Lloyd's. Eles não disseram quando ele liderou aquela organização,
mas o modo como falou logo o tornou claro. Pois transpirou através das suas
respostas respeitosamente recebidas que ele deve ter sido o Chefe do Lloyd's
Bank bem antes da Crise Económica Mundial de 1929-33. Consequentemente,
para encorajar os telespectadores, ele apresentou uma grande inovação
conceptual no discurso da confiança ao dizer que as nossas perturbações eram
todas elas devidas a alguma "Super-confiança". E imediatamente demonstrou
também o significado de "Super-confiança", ao afirmar, mais de uma vez
naquela curta entrevista, que não pode haver problemas sérios hoje, porque o
mercado sempre toma conta de tudo, mesmo que por vezes ele vá
inesperadamente muito abaixo. Posteriormente ele sempre sobe outra vez. De
modo que ele também fará isso desta vez, e subirá infalivelmente repetidas
vezes no futuro. A crise actual não deveria ser exagerada, disse ele, porque é
muito menos séria hoje do que a que experimentámos em 1974. Pois em 1974
tivemos uma semana de três dias de trabalho na Grã-Bretanha [ainda que em
nenhum outro lugar] e agora não temos isso. Temos? E quem poderia
argumentar contra aquele facto irrefutável?
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