Postado Por Attman e Kamadon
A "Revolução Bolivariana" de Chávez tem sido muito popular entre os
pobres. Poderia explicar como a sociedade venezuelana tem mudado
desde que Chávez chegou ao poder?
Em primeiro lugar, vamos reconhecer que a Revolução Bolivariana colocou o socialismo democrático na agenda mundial depois de atravessarmos um período na década de 1990 em que muitos ficavam mesmo alarmados em falar de socialismo, quando parecia que o capitalismo global havia atingido o pico da sua hegemonia e quando alguns na esquerda compravam a tese do "fim da história".
A Revolução Bolivariana deu às massas pobres e em grande medida afrocaribenhas a sua voz pela primeira vez desde a guerra da independência do colonialismo espanhol. O governo Chávez reorientou prioridades para a maioria
pobre. Ele foi capaz de utilizar os rendimentos do petróleo, em particular, para desenvolver saúde, educação e outros programas sociais que tiveram resultados dramáticos na redução da pobreza, eliminando virtualmente o analfabetismo e
melhorando a saúde da população. Organizações internacionais e agências têm reconhecido estas notáveis realizações sociais.
Contudo, como alguém que visita a Venezuela regularmente, eu diria que a mudança mais fundamental desde que Chávez chegou ao poder não é a destes indicadores sociais mas sim o despertar político e sócio-psicológico da maioria pobre – um vasto processo popular de mobilização das bases, expressão cultural, participação política e participação no poder. A velha elite e a burguesia foram
parcialmente substituídas no Estado e do poder político formal – embora não inteiramente. Mas o medo real e o ressentimento dos velhos grupos dominantes,
o pânico e o seu ódio contra Chávez é porque eles sentiram deslizar do seu domínio a capacidade confortável de exercer dominação cultura e sóciopsicológica sobre as classes populares como o fizeram durante décadas, mesmo
séculos. Naturalmente, ali ainda há outros muitos mecanismos através dos quais a burguesia e os agentes políticos do antigo regime são capazes de exercer sua influência, particularmente através dos meios de comunicação que em grande medida ainda estão nas suas mãos.
Quão avançados são os planos de nacionalização de Chávez? Há alguma
evidência de que eles levam aos resultados desejados?
A grande mudança econômica óbvia foi a recuperação do petróleo do país para um projeto popular – e mesmo que haja ainda uma burocrática oligarquia PDVSA.Outras empresas chave, tais como a siderurgia, foram nacionalizadas. E o setor cooperativo – com todos os seus problemas – tem se ampliado. No entanto, o poder econômico ainda está em grande medida nas mãos da burguesia.
A estratégia da revolução tem sido erguer novas instituições paralelas e também tentar "colonizar" o velho Estado. Mas o Estado venezuelano ainda é em grande medida um Estado capitalista. A questão chave é: como pode um projeto de transformação avançar enquanto opera através de um Estado corrupto, clientelista, burocrático e muitas vezes inerte legado pelo antigo regime? Se forças revolucionárias e socialistas chegam ao poder dentro de um processo político capitalista como você confronta o Estado capitalista e os entreves que ele
coloca nos processos de transformação? De fato, na Venezuela, e também na Bolívia, as instituições do Estado muitas vezes atuam para constranger, diluir e cooptar lutas de massas vindas de baixo.
Do meu ponto de vista, na Venezuela a maior ameaça à revolução não vem da oposição política de direita, mas sim da chamada direita "endógena" ou "chavista" e pertencente ao bloco revolucionário, incluindo elites do Estado e responsáveis partidários, desenvolverão um interesse mais profundo em defender o capitalismo global do que na transformação socialista.
A revolução tem mais de uma década. Está amadurecendo ou está
chegando a uma etapa de declínio e deformação?
Eu não diria que a revolução está em "declínio" ou "deformação". A guinada à esquerda na América Latina começou como uma rebelião contra o neoliberalismo.
Os regimes pós neoliberais empreenderam suaves reformas redistributivas e nacionalizações limitadas, particularmente de recursos energéticos e serviços públicos que anteriormente haviam sido privatizados. Eles foram capazes de reativar a acumulação. Mas o pós-neo-liberalismo que atualmente não caminha em direção a uma profunda transformação socialista, está rapidamente a atingir
os seus limites. O processo bolivariano enfrenta contradições, problemas e limitações, tal como todos os projetos históricos. Eu diria que tanto a revolução venezuelana como os processos boliviano e equatoriano podem estar a rebelar-se contra os limites da reforma redistributiva dentro da lógica do capitalismo global, especialmente considerando a atual crise do capitalismo global. O anti-neoliberalismo que não desafia mais fundamentalmente a própria lógica do capitalismo choca-se contra
limitações que podem agora ter sido atingidas.
Pode ser que a melhor ou a única defesa da revolução seja radicalizar e
aprofundar o processo, pressionar pelo avanço de transformações estruturais que vão além da redistribuição. O fato é que a burguesia venezuelana pode ter sido deslocada em parte do poder político, mas ainda detém grande parte do controle economico. Romper tal controle implica uma mudança mais significativa na propriedade e nas relações de classe. Isto por sua vez significa romper a dominação do capital, do capital global e dos seus agentes locais.
Recordemos as lições da Nicarágua e de outras revoluções. Alianças multi-classe geram contradições desde que a etapa da lua-de-mel da reforma redistributiva e dos programas sociais fáceis alcancem o seu limite. Então as alianças multi-classe começam a entrar em colapso porque há contradições fundamentais entre distintos projetos e interesses de classe. Nesse ponto, uma revolução deve definir
mais claramente o seu projeto de classe; não apenas no discurso ou na política mas na transformação estrutural real.
A um nível mais técnico, poderíamos dizer que as contradições geradas pela tentativa de romper a dominação do capital global não são uma falha da Revolução. A Venezuela ainda é um país capitalista no qual a lei do valor, da acumulação de capital, está operativa. Esforços para estabelecer uma lógica contrária – uma lógica da necessidade social e da distribuição social – chocam-se contra a lei do valor. Mas numa sociedade capitalista violar a lei do valor lança tudo na loucura, gerando muitos problemas e novos desequilíbrios que a contrarevolução é capaz de aproveitar. Isto é o desafio para qualquer revolução orientada para o socialismo dentro do capitalismo global.
William I. Robinson é professor de Sociologia, Universidade da Califórnia –
Santa Bárbara
sábado, 20 de março de 2010
Os desafios do socialismo no século 21-1° parte
Postado por Attman e Kamadon
Entrevista com Chronis Polychroniou, editor do diário grego Eleftherotypia
Por William I. Robinson
Há histórias preocupantes vindo da Venezuela. A situação na fronteira
está tensa, há uma nova base militar colombiana próxima à fronteira, o
acesso dos EUA a várias novas bases na Colômbia... Será que o regime se
preocupa com uma possível invasão? Se sim, quem está para intervir?
Chronis Polychroniou - O governo venezuelano está preocupado acerca de uma possível invasão estadunidense. Contudo, penso que os EUA estão seguindo uma estratégia de intervenção mais refinada que podíamos denominar guerra de atrito.
Já vimos esta estratégia em outros países, tais como na Nicarágua na década de1980, ou mesmo no Chile sob Allende. É o que no léxico da CIA é conhecido como desestabilização, e na linguagem do Pentágono é chamado guerra política – o que
não significa que não haja componente militar. É uma estratégia que combina ameaças militares e hostilidades com operações psicológicas, campanhas de desinformação, propaganda, sabotagem econômica, pressões diplomáticas,mobilização de forças da oposição política dentro do país, manipulação de setores insatisfeitos e a exploração de queixas legítimas entre a população. A estratégia é
hábil em aproveitar dos próprios erros e limitações da revolução, tais como corrupção, clientelismo e oportunismo, os quais devemos reconhecer que são problemas sérios na Venezuela. É hábil também em agravar e manipular problemas materiais, tais como escassez, inflação dos preços e assim por diante.
O objetivo é destruir a revolução tornando-a não funcional, pela exaustão da vontade da população em continuar a lutar para forjar uma nova sociedade e,
deste modo, minar a base social de massa da revolução. De acordo com a estratégia dos EUA a revolução deve ser destruída fazendo com que entre em colapso por si mesma, minando a notável hegemonia que o chavismo e o bolivarianismo foram capazes de alcançar dentro da sociedade civil venezuelana ao longo da última década. Os EUA esperam provocar Chávez de modo a que tome a posição de transformar o processo socialista democrático num processo autoritário. Na visão deles, Chávez finalmente será removido do poder através de
um cenário produzido pela guerra de atrito constante – seja através de eleições, de um putsch militar interno, um levantamento, deserções em massa do campo revolucionário, ou uma combinação de fatores que não podem ser antecipados.
Neste contexto, as bases militares na Colômbia proporcionam uma plataforma crucial para operações de inteligência e reconhecimento contra a Venezuela e
também para a infiltração militar contra-revolucionária, a sabotagem econômica e grupos terroristas. Estes grupos de infiltração destinam-se a provocar reações do governo e sincronizar a provocação armada com toda a gama de agressões políticas, diplomáticas, psicológicas, econômicas e ideológicas que fazem parte da guerra de atrito.
Além disso, a simples ameaça de agressão militar dos EUA que as bases
representam constitui uma poderosa operação psicológica estadunidense destinada a elevar as tensões dentro da Venezuela, forçar o governo a posições
extremistas ou a fortalecer as forças internas anti-chavistas e contrarevolucionárias.
Entretanto, é importante verificar que as bases militares fazem parte de uma estratégia mais ampla dos EUA em relação a toda a América Latina. Os EUA e a direita na América Latina lançaram uma contra-ofensiva para reverter a guinada para a esquerda ou a chamada "Maré Rosa". A Venezuela é o epicentro de um emergente bloco contra-hegemônico na América Latina. Mas a Bolívia, Equador e os movimentos sociais e forças políticas de esquerda da região são igualmente
alvos desta contra-ofensiva tal como a Venezuela. O golpe em Honduras deu ímpeto a esta contra-ofensiva e fortaleceu a direita e as forças contrarevolucionárias.
A Colômbia tornou-se o epicentro regional da contra-revolução –
realmente um bastião do fascismo século 21.
Entrevista com Chronis Polychroniou, editor do diário grego Eleftherotypia
Por William I. Robinson
Há histórias preocupantes vindo da Venezuela. A situação na fronteira
está tensa, há uma nova base militar colombiana próxima à fronteira, o
acesso dos EUA a várias novas bases na Colômbia... Será que o regime se
preocupa com uma possível invasão? Se sim, quem está para intervir?
Chronis Polychroniou - O governo venezuelano está preocupado acerca de uma possível invasão estadunidense. Contudo, penso que os EUA estão seguindo uma estratégia de intervenção mais refinada que podíamos denominar guerra de atrito.
Já vimos esta estratégia em outros países, tais como na Nicarágua na década de1980, ou mesmo no Chile sob Allende. É o que no léxico da CIA é conhecido como desestabilização, e na linguagem do Pentágono é chamado guerra política – o que
não significa que não haja componente militar. É uma estratégia que combina ameaças militares e hostilidades com operações psicológicas, campanhas de desinformação, propaganda, sabotagem econômica, pressões diplomáticas,mobilização de forças da oposição política dentro do país, manipulação de setores insatisfeitos e a exploração de queixas legítimas entre a população. A estratégia é
hábil em aproveitar dos próprios erros e limitações da revolução, tais como corrupção, clientelismo e oportunismo, os quais devemos reconhecer que são problemas sérios na Venezuela. É hábil também em agravar e manipular problemas materiais, tais como escassez, inflação dos preços e assim por diante.
O objetivo é destruir a revolução tornando-a não funcional, pela exaustão da vontade da população em continuar a lutar para forjar uma nova sociedade e,
deste modo, minar a base social de massa da revolução. De acordo com a estratégia dos EUA a revolução deve ser destruída fazendo com que entre em colapso por si mesma, minando a notável hegemonia que o chavismo e o bolivarianismo foram capazes de alcançar dentro da sociedade civil venezuelana ao longo da última década. Os EUA esperam provocar Chávez de modo a que tome a posição de transformar o processo socialista democrático num processo autoritário. Na visão deles, Chávez finalmente será removido do poder através de
um cenário produzido pela guerra de atrito constante – seja através de eleições, de um putsch militar interno, um levantamento, deserções em massa do campo revolucionário, ou uma combinação de fatores que não podem ser antecipados.
Neste contexto, as bases militares na Colômbia proporcionam uma plataforma crucial para operações de inteligência e reconhecimento contra a Venezuela e
também para a infiltração militar contra-revolucionária, a sabotagem econômica e grupos terroristas. Estes grupos de infiltração destinam-se a provocar reações do governo e sincronizar a provocação armada com toda a gama de agressões políticas, diplomáticas, psicológicas, econômicas e ideológicas que fazem parte da guerra de atrito.
Além disso, a simples ameaça de agressão militar dos EUA que as bases
representam constitui uma poderosa operação psicológica estadunidense destinada a elevar as tensões dentro da Venezuela, forçar o governo a posições
extremistas ou a fortalecer as forças internas anti-chavistas e contrarevolucionárias.
Entretanto, é importante verificar que as bases militares fazem parte de uma estratégia mais ampla dos EUA em relação a toda a América Latina. Os EUA e a direita na América Latina lançaram uma contra-ofensiva para reverter a guinada para a esquerda ou a chamada "Maré Rosa". A Venezuela é o epicentro de um emergente bloco contra-hegemônico na América Latina. Mas a Bolívia, Equador e os movimentos sociais e forças políticas de esquerda da região são igualmente
alvos desta contra-ofensiva tal como a Venezuela. O golpe em Honduras deu ímpeto a esta contra-ofensiva e fortaleceu a direita e as forças contrarevolucionárias.
A Colômbia tornou-se o epicentro regional da contra-revolução –
realmente um bastião do fascismo século 21.
"Tadeu Moraçaba, o escritor"
Postado por Attman e Kamadon
Frei Betto
Conheci Tadeu Moraçaba em Belo Horizonte, nos tempos em que repórteres e editores se confraternizavam, todo fim de tarde, na Gruta Metrópole, na rua da Bahia. Seu sonho: ser reconhecido como escritor.
Há anos se empenhava em redigir seu primeiro romance, convencido de que, assim, passaria a integrar essa brilhante galáxia de seres inteligentes e criativos que, sem medo do ridículo, se dão inclusive o direito de se celebrarem como imortais.
Tadeu Moraçaba tinha certeza: tivesse nascido em Paris, em 1780, ou em São Petersburgo, em 1840, não ficaria horas debruçado sobre a máquina de escrever, à espera de inspiração.
Há escritores que são, antes de tudo, seus principais personagens. Já nascem em épocas e lugares imantados de clima literário. Tadeu Moraçaba acreditava que, para James Joyce, deve ter sido fácil deixar fluir o enredo de Ulisses que, como uma onda de calor que se desprende do chão, emergia das ruas de Dublin!
Dostoiévski encontrou na Rússia czarista, que o levou a amargar quatro anos de cárcere, o cenário adequado às suas histórias. Émile Zola escrevia como um experiente orador político derrama sua verve indignada sobre fatos que envergonham a espécie humana.
No entanto, Guimarães Rosa precisou regressar ao sertão de Minas e travestir-se de vaqueiro para criar Diadorim. Em Minas, a literatura é sofrida, fruto da tenacidade de poucos que ousam romper o misterioso silêncio de suas montanhas. Em Minas, a arte é bela e muda, como os profetas de Aleijadinho. No máximo, o lamento gutural, monocórdio, teluricamente gregoriano, do canto de Milton Nascimento.
Minas se espelha na timidez uniformizada dos coretos de praça. Nada de orquestras ou sinfônicas. Na literatura, meia dúzia de obras por autor já é um luxo. Nada de estranho, portanto, que Augusto dos Anjos tenha se abrigado em Minas para escrever um único poema, Eu, suficiente para fazê-lo figurar entre os mais talentosos poetas brasileiros. Fernando Sabino ficou como autor de Encontro marcado.
Tadeu Moraçaba experimentava as mesmas dores de parto, agravadas por sua sólida convicção de que seria o Balzac ou o Hemingway da literatura mineira.
A última vez que nos vimos foi no restaurante Scotellaro, onde se comia um delicioso filé com feijão tropeiro. Perguntei-lhe pelo romance. Lamentou não conseguir dar prosseguimento. Perfeccionista, mais rasgava laudas do que criava. Indaguei quanto tempo ele trabalhava no texto:
- Seis anos.
- Seis anos?!
- Sim, e acho pouco. Quero personagens tão elaborados quanto os que trafegam nas páginas de Thomas Mann ou Steinbeck. Almejo uma figura tão universal quanto Dom Quixote e Eugene Oneguin. A igreja do Pilar, em Ouro Preto, levou vinte anos para ser construída. Marguerite Yourcenar demorou vinte e sete para escrever Memórias de Adriano, e Goethe, quase sessenta para terminar Fausto. Não tenho pressa.
De fato, ninguém acreditava no talento literário de Tadeu Moraçaba. Era considerado um jornalista medíocre, editor adjunto de política. Seu texto era prolixo e arrastado. Quando repórter, redigia em cinco laudas o que caberia em três.
Convencido de seu talento, Tadeu Moraçaba tomava como ofensa o fato de os editores não darem destaque às suas matérias. Afinal, passou a considerar o jornalismo uma atividade menor, necessária para garantir-lhe o salário e permitir que, em casa, se dedicasse à elaboração de sua obra-prima.
Tinha tudo planejado: cinquenta capítulos, oitocentas laudas. "Livro fino não provoca impacto", dizia. Mantinha em seu quarto-escritório-biblioteca, próximo à estação rodoviária, o organograma completo do romance, acompanhado do gráfico da complexa trama entre os personagens.
Perguntei se ele lia muito. Retrucou que era mais escritor do que leitor. E apelou para Rimbaud que, aos dezenove anos e, segundo ele, pouca leitura, havia criado o clássico Uma estação no inferno, dando-se ao luxo de encerrar sua carreira literária aos trinta e dois.
Tadeu Moraçaba sofria de ansiedade autoral, essa síndrome que toma conta de quem mais almeja ser publicado do que criar uma obra literária consistente. Nunca tive acesso aos originais do romance. Não tenho ideia se logrou terminá-lo.
Passamos muitos anos sem nos ver. Agora soube que o encontraram morto na pensão em que morava. Do lado da cama, uma lixeira com papéis queimados. Junto, um bilhete: "Obra completa de Tadeu Moraçaba."
* Escritor e assessor de movimentos sociais
Frei Betto
Conheci Tadeu Moraçaba em Belo Horizonte, nos tempos em que repórteres e editores se confraternizavam, todo fim de tarde, na Gruta Metrópole, na rua da Bahia. Seu sonho: ser reconhecido como escritor.
Há anos se empenhava em redigir seu primeiro romance, convencido de que, assim, passaria a integrar essa brilhante galáxia de seres inteligentes e criativos que, sem medo do ridículo, se dão inclusive o direito de se celebrarem como imortais.
Tadeu Moraçaba tinha certeza: tivesse nascido em Paris, em 1780, ou em São Petersburgo, em 1840, não ficaria horas debruçado sobre a máquina de escrever, à espera de inspiração.
Há escritores que são, antes de tudo, seus principais personagens. Já nascem em épocas e lugares imantados de clima literário. Tadeu Moraçaba acreditava que, para James Joyce, deve ter sido fácil deixar fluir o enredo de Ulisses que, como uma onda de calor que se desprende do chão, emergia das ruas de Dublin!
Dostoiévski encontrou na Rússia czarista, que o levou a amargar quatro anos de cárcere, o cenário adequado às suas histórias. Émile Zola escrevia como um experiente orador político derrama sua verve indignada sobre fatos que envergonham a espécie humana.
No entanto, Guimarães Rosa precisou regressar ao sertão de Minas e travestir-se de vaqueiro para criar Diadorim. Em Minas, a literatura é sofrida, fruto da tenacidade de poucos que ousam romper o misterioso silêncio de suas montanhas. Em Minas, a arte é bela e muda, como os profetas de Aleijadinho. No máximo, o lamento gutural, monocórdio, teluricamente gregoriano, do canto de Milton Nascimento.
Minas se espelha na timidez uniformizada dos coretos de praça. Nada de orquestras ou sinfônicas. Na literatura, meia dúzia de obras por autor já é um luxo. Nada de estranho, portanto, que Augusto dos Anjos tenha se abrigado em Minas para escrever um único poema, Eu, suficiente para fazê-lo figurar entre os mais talentosos poetas brasileiros. Fernando Sabino ficou como autor de Encontro marcado.
Tadeu Moraçaba experimentava as mesmas dores de parto, agravadas por sua sólida convicção de que seria o Balzac ou o Hemingway da literatura mineira.
A última vez que nos vimos foi no restaurante Scotellaro, onde se comia um delicioso filé com feijão tropeiro. Perguntei-lhe pelo romance. Lamentou não conseguir dar prosseguimento. Perfeccionista, mais rasgava laudas do que criava. Indaguei quanto tempo ele trabalhava no texto:
- Seis anos.
- Seis anos?!
- Sim, e acho pouco. Quero personagens tão elaborados quanto os que trafegam nas páginas de Thomas Mann ou Steinbeck. Almejo uma figura tão universal quanto Dom Quixote e Eugene Oneguin. A igreja do Pilar, em Ouro Preto, levou vinte anos para ser construída. Marguerite Yourcenar demorou vinte e sete para escrever Memórias de Adriano, e Goethe, quase sessenta para terminar Fausto. Não tenho pressa.
De fato, ninguém acreditava no talento literário de Tadeu Moraçaba. Era considerado um jornalista medíocre, editor adjunto de política. Seu texto era prolixo e arrastado. Quando repórter, redigia em cinco laudas o que caberia em três.
Convencido de seu talento, Tadeu Moraçaba tomava como ofensa o fato de os editores não darem destaque às suas matérias. Afinal, passou a considerar o jornalismo uma atividade menor, necessária para garantir-lhe o salário e permitir que, em casa, se dedicasse à elaboração de sua obra-prima.
Tinha tudo planejado: cinquenta capítulos, oitocentas laudas. "Livro fino não provoca impacto", dizia. Mantinha em seu quarto-escritório-biblioteca, próximo à estação rodoviária, o organograma completo do romance, acompanhado do gráfico da complexa trama entre os personagens.
Perguntei se ele lia muito. Retrucou que era mais escritor do que leitor. E apelou para Rimbaud que, aos dezenove anos e, segundo ele, pouca leitura, havia criado o clássico Uma estação no inferno, dando-se ao luxo de encerrar sua carreira literária aos trinta e dois.
Tadeu Moraçaba sofria de ansiedade autoral, essa síndrome que toma conta de quem mais almeja ser publicado do que criar uma obra literária consistente. Nunca tive acesso aos originais do romance. Não tenho ideia se logrou terminá-lo.
Passamos muitos anos sem nos ver. Agora soube que o encontraram morto na pensão em que morava. Do lado da cama, uma lixeira com papéis queimados. Junto, um bilhete: "Obra completa de Tadeu Moraçaba."
* Escritor e assessor de movimentos sociais
"Desafios econômico-políticos da televisão brasileira"
Postado por Attman e Kamadon
IHU - Unisinos *
Adital - TV completa 60 anos no Brasil com modelo econômico em crise e politicamente contestada. Leia o artigo de Valério Cruz Brittos.
Por Valério Cruz Brittos*
A televisão aberta brasileira completa 60 anos neste ano de 2010, sendo duplamente desafiada. Politicamente, torna-se, a cada dia, mais insustentável que um meio com tamanha consequência na vida dos brasileiros siga fornecendo pautas, orientações e mesmo construções da realidade unicamente a partir de interesses econômicos. Economicamente, está em crise mundial o modelo tradicional de TV, sustentado na publicidade, com um número limitado de canais, baixíssimo nível de interatividade, transmissão de uma única programação por emissora e grade com horários estabelecidos pela operadora.
Começando pela questão política, a contradição televisiva é gravíssima: se a influência da televisão é enorme, sendo a principal fonte de referência da maioria da população brasileira (e em grande parte das vezes de modo exclusivo, já que o índice de leitura é muito baixo no país), são privatizados os atos de midiatização, ou seja, de tornar públicos acontecimentos, reivindicações, posições, identidades e todas as manifestações. Em outras palavras: o negócio (a venda de publicidade e seu faturamento) é privado, do dono da empresa, mas a definição da agenda, do que tornar conhecido pela sociedade, logicamente não poderia ser.
O paradoxo não é novo. Desde sua implantação no Brasil, o quadro televisivo nacional estabeleceu-se como um mercado conformado por poucas obrigações impostas aos seus operadores, agentes privados que recebem uma concessão do Estado. Sendo uma concessão, deveria cumprir uma série de compromissos para desenvolver tal atividade, que, ao ser delegada pelo ente estatal à iniciativa privada, não perde seu caráter público, por não deixar de interferir (independentemente da valoração) na vida das pessoas, na sua forma de compreender o mundo e de reunir informações básicas para decidir e movimentar-se.
A diferença, agora, é que a sociedade brasileira está mais atenta ao problema da comunicação. Nas últimas duas décadas, a sociedade civil tem se mobilizado em prol da democratização comunicacional, não obstante o empecilho maior para publicizar tal luta: a resistência dos conglomerados de mídia, que temem qualquer regulamentação que venha a dar alguma dimensão pública ao setor. Para isso, não raro fazem propaganda quando apregoam desenvolverem jornalismo, como no caso das coberturas extremamente enviesadas da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), acontecida em dezembro último.
Mas como hoje existem mais brechas para driblar o cerco das tradicionais indústrias culturais, a Confecom realizou-se com a adesão e os resultados satisfatórios, contribuindo para a conscientização de que a comunicação, tendo origem e repercussão públicas, deve ser discutida por toda a sociedade. O controle já existe e não tem como deixar de existir nas sociedades complexas: o que se deve refletir é a mudança de um patamar de controle privado por outro, de controle público. Para isso, é preciso o engajamento do máximo possível do conjunto social, numa discussão que ainda tem muito a ser travada e avançada.
Já no plano econômico, as dificuldades são mais novas, mas não menos graves. Vêm desde os anos 90 do século passado e passam pela proliferação de novas e antigas plataformas de distribuição de conteúdos tradicionalmente concebidos como próprios da televisão. Com isso, ao mesmo tempo em que mais agentes buscam a atenção do público (a ser trocada por dinheiro no mercado, quando se tratam de empresas, a forma hegemônica), é fragilizado o próprio princípio de venda de publicidade, já que não há uma garantia de que o consumidor de televisual prestará atenção nos intervalos comerciais e mesmo que não trocará de canal.
Tudo isso molda a Fase da Multiplicidade da Oferta, a qual caracteriza a TV na atualidade, promovendo a intensificação da disputa entre os capitais, o que implica em maior popularização dos conteúdos e, ao contrário do que indica o senso comum, menos diversidade, já que, ao obter êxito, um formato ou temática passa a ser insistentemente explorada pelos demais competidores. A concorrência não se dá mais somente intramídia, mas de forma intermídia, com operadores culturais em suportes diversos, disputando a atenção do público. O problema segue intensificando-se, pela aceleração da inovação tecnológica.
O receptor mudou, e, hoje, por todas as transformações que afetaram e afetam o mundo, quer participar mais, tendencialmente rejeitando um sistema com poucas opções e uma baixíssima capacidade de intervenção, até para definir quais horários assistir às suas atrações preferidas. Há uma nova TV em ebulição, que está na Internet, em aparelhos móveis (como o telefone celular), na fila, no avião, no ônibus, no trem, no elevador e até no televisor conhecido de todos. Tal surgimento de novas concepções televisivas desestabiliza os atuais concessionários, radicalizando a Fase da Multiplicidade da Oferta e permitindo afirmar-se que o amanhã será ainda mais diverso do hoje. Mas em qual direção dependerá dos movimentos da humanidade, reforçando hegemonias ou criando novas circularidades.
[* Professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), coordenador do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation), doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e vice-presidente da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federación). E-mail: val.bri@terra.com.br].
* Instituto Humanitas Unisinos
IHU - Unisinos *
Adital - TV completa 60 anos no Brasil com modelo econômico em crise e politicamente contestada. Leia o artigo de Valério Cruz Brittos.
Por Valério Cruz Brittos*
A televisão aberta brasileira completa 60 anos neste ano de 2010, sendo duplamente desafiada. Politicamente, torna-se, a cada dia, mais insustentável que um meio com tamanha consequência na vida dos brasileiros siga fornecendo pautas, orientações e mesmo construções da realidade unicamente a partir de interesses econômicos. Economicamente, está em crise mundial o modelo tradicional de TV, sustentado na publicidade, com um número limitado de canais, baixíssimo nível de interatividade, transmissão de uma única programação por emissora e grade com horários estabelecidos pela operadora.
Começando pela questão política, a contradição televisiva é gravíssima: se a influência da televisão é enorme, sendo a principal fonte de referência da maioria da população brasileira (e em grande parte das vezes de modo exclusivo, já que o índice de leitura é muito baixo no país), são privatizados os atos de midiatização, ou seja, de tornar públicos acontecimentos, reivindicações, posições, identidades e todas as manifestações. Em outras palavras: o negócio (a venda de publicidade e seu faturamento) é privado, do dono da empresa, mas a definição da agenda, do que tornar conhecido pela sociedade, logicamente não poderia ser.
O paradoxo não é novo. Desde sua implantação no Brasil, o quadro televisivo nacional estabeleceu-se como um mercado conformado por poucas obrigações impostas aos seus operadores, agentes privados que recebem uma concessão do Estado. Sendo uma concessão, deveria cumprir uma série de compromissos para desenvolver tal atividade, que, ao ser delegada pelo ente estatal à iniciativa privada, não perde seu caráter público, por não deixar de interferir (independentemente da valoração) na vida das pessoas, na sua forma de compreender o mundo e de reunir informações básicas para decidir e movimentar-se.
A diferença, agora, é que a sociedade brasileira está mais atenta ao problema da comunicação. Nas últimas duas décadas, a sociedade civil tem se mobilizado em prol da democratização comunicacional, não obstante o empecilho maior para publicizar tal luta: a resistência dos conglomerados de mídia, que temem qualquer regulamentação que venha a dar alguma dimensão pública ao setor. Para isso, não raro fazem propaganda quando apregoam desenvolverem jornalismo, como no caso das coberturas extremamente enviesadas da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), acontecida em dezembro último.
Mas como hoje existem mais brechas para driblar o cerco das tradicionais indústrias culturais, a Confecom realizou-se com a adesão e os resultados satisfatórios, contribuindo para a conscientização de que a comunicação, tendo origem e repercussão públicas, deve ser discutida por toda a sociedade. O controle já existe e não tem como deixar de existir nas sociedades complexas: o que se deve refletir é a mudança de um patamar de controle privado por outro, de controle público. Para isso, é preciso o engajamento do máximo possível do conjunto social, numa discussão que ainda tem muito a ser travada e avançada.
Já no plano econômico, as dificuldades são mais novas, mas não menos graves. Vêm desde os anos 90 do século passado e passam pela proliferação de novas e antigas plataformas de distribuição de conteúdos tradicionalmente concebidos como próprios da televisão. Com isso, ao mesmo tempo em que mais agentes buscam a atenção do público (a ser trocada por dinheiro no mercado, quando se tratam de empresas, a forma hegemônica), é fragilizado o próprio princípio de venda de publicidade, já que não há uma garantia de que o consumidor de televisual prestará atenção nos intervalos comerciais e mesmo que não trocará de canal.
Tudo isso molda a Fase da Multiplicidade da Oferta, a qual caracteriza a TV na atualidade, promovendo a intensificação da disputa entre os capitais, o que implica em maior popularização dos conteúdos e, ao contrário do que indica o senso comum, menos diversidade, já que, ao obter êxito, um formato ou temática passa a ser insistentemente explorada pelos demais competidores. A concorrência não se dá mais somente intramídia, mas de forma intermídia, com operadores culturais em suportes diversos, disputando a atenção do público. O problema segue intensificando-se, pela aceleração da inovação tecnológica.
O receptor mudou, e, hoje, por todas as transformações que afetaram e afetam o mundo, quer participar mais, tendencialmente rejeitando um sistema com poucas opções e uma baixíssima capacidade de intervenção, até para definir quais horários assistir às suas atrações preferidas. Há uma nova TV em ebulição, que está na Internet, em aparelhos móveis (como o telefone celular), na fila, no avião, no ônibus, no trem, no elevador e até no televisor conhecido de todos. Tal surgimento de novas concepções televisivas desestabiliza os atuais concessionários, radicalizando a Fase da Multiplicidade da Oferta e permitindo afirmar-se que o amanhã será ainda mais diverso do hoje. Mas em qual direção dependerá dos movimentos da humanidade, reforçando hegemonias ou criando novas circularidades.
[* Professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), coordenador do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation), doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e vice-presidente da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (ULEPICC-Federación). E-mail: val.bri@terra.com.br].
* Instituto Humanitas Unisinos
terça-feira, 16 de março de 2010
"Caim"
Postado por Attman e Kamadon
Eduardo Hoonaert
Esplendidamente escrito e demonstrando um domínio insuperável da língua portuguesa, o novo romance de José Saramago, prêmio nobel de literatura, intitulado Caim e recentemente editado pela Companhia das Letras (São Paulo, 2009), vem nos surpreender. Pois Caim é apresentado como uma pessoa corajosa, que critica os feitos do ‘senhor deus’ e é valorizado por isso.
À primeira vista, parece que Saramago tem a intenção de nos escandalizar com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos. Mas não é bem assim. O autor demonstra que a história de Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e a torre de Babel, Abraão e Isaac, José e seus irmãos, Moisés e o povo no deserto, Josué, a tomada de Jericó e tantas outras são conhecidas pela maioria das pessoas de forma banalizada, sem a profundidade do próprio texto bíblico.
Saramago não comenta a bíblia, ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação vulgarizada da bíblia, ou seja, à ‘história sagrada’. Seu romance é uma crítica ácida e corrosiva da ‘história sagrada’ tal qual é intensamente difundida e universalmente conhecida, pois ela retira o conteúdo vivo das narrativas bíblicas e joga ao povo um amontoado de histórias incompreensíveis e estranhas, como a história de um deus que resolve destruir a humanidade de vez (o dilúvio), manda fogo e enxofre sobre uma cidade onde, ao que parece, se pratica a homossexualidade (Sodoma e Gomorra), manda a um pai matar seu próprio filho (Abraão e Isaac), consente na matança de três mil pessoas que praticaram um rito religioso que não é de seu agrado (os israelitas no deserto) e se deleita nas crueldades cometidas pelos exércitos de Israel (tomada de Jericó por Josué).
Saramago declara-se ateísta desse deus, ele desmascara a maneira em que a bíblia costuma ser interpretada nos dias de hoje. O autor combate a ingenuidade com que as pessoas identificam a imagem de deus com a imagem de um senhor que manda, governa e faz o que quer, sem respeitar o interesse da pessoa humana que parece um joguete em suas mãos.
O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação superficial da bíblia, pois ele critica a fé ingênua de pessoas que se recusam a pensar criticamente e com liberdade. Saramago gostaria que o ser humano fosse mais consciente de suas potencialidades e libertasse sua mente do domínio de organizações religiosas que secularmente explicam as sagradas escrituras como lhes convém. Por isso penso que vale a pena ler o romance Caim. É um livro que, além de proporcionar o prazer causado pelo um domínio perfeito da língua portuguesa, ajuda a pensar.
Eduardo Hoonaert
Esplendidamente escrito e demonstrando um domínio insuperável da língua portuguesa, o novo romance de José Saramago, prêmio nobel de literatura, intitulado Caim e recentemente editado pela Companhia das Letras (São Paulo, 2009), vem nos surpreender. Pois Caim é apresentado como uma pessoa corajosa, que critica os feitos do ‘senhor deus’ e é valorizado por isso.
À primeira vista, parece que Saramago tem a intenção de nos escandalizar com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos. Mas não é bem assim. O autor demonstra que a história de Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e a torre de Babel, Abraão e Isaac, José e seus irmãos, Moisés e o povo no deserto, Josué, a tomada de Jericó e tantas outras são conhecidas pela maioria das pessoas de forma banalizada, sem a profundidade do próprio texto bíblico.
Saramago não comenta a bíblia, ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação vulgarizada da bíblia, ou seja, à ‘história sagrada’. Seu romance é uma crítica ácida e corrosiva da ‘história sagrada’ tal qual é intensamente difundida e universalmente conhecida, pois ela retira o conteúdo vivo das narrativas bíblicas e joga ao povo um amontoado de histórias incompreensíveis e estranhas, como a história de um deus que resolve destruir a humanidade de vez (o dilúvio), manda fogo e enxofre sobre uma cidade onde, ao que parece, se pratica a homossexualidade (Sodoma e Gomorra), manda a um pai matar seu próprio filho (Abraão e Isaac), consente na matança de três mil pessoas que praticaram um rito religioso que não é de seu agrado (os israelitas no deserto) e se deleita nas crueldades cometidas pelos exércitos de Israel (tomada de Jericó por Josué).
Saramago declara-se ateísta desse deus, ele desmascara a maneira em que a bíblia costuma ser interpretada nos dias de hoje. O autor combate a ingenuidade com que as pessoas identificam a imagem de deus com a imagem de um senhor que manda, governa e faz o que quer, sem respeitar o interesse da pessoa humana que parece um joguete em suas mãos.
O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação superficial da bíblia, pois ele critica a fé ingênua de pessoas que se recusam a pensar criticamente e com liberdade. Saramago gostaria que o ser humano fosse mais consciente de suas potencialidades e libertasse sua mente do domínio de organizações religiosas que secularmente explicam as sagradas escrituras como lhes convém. Por isso penso que vale a pena ler o romance Caim. É um livro que, além de proporcionar o prazer causado pelo um domínio perfeito da língua portuguesa, ajuda a pensar.
"A miséria moral de ex-esquerdistas"
Postado por Attman e Kamadon
Emir Sader *
Adital -
Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita - como se dissessem: "Eu sabia, você nunca me enganou", etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade - em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.
O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais - e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.
O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam - às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele "veneno" que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem "conheceu o monstro por dentro", sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.
Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a "dialética", a "luta de classes", a promessa de uma "sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado". Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do "socialismo", do "totalitarismo", do "stalinismo".
Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.
Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o "totalitarismo", em cada política social a "mão corruptora do Estado", do "chavismo", do "populismo".
Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a "democracia" contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o "perigo comunista" - sem o qual não seriam nada - está vivo, escondido detrás do PAC, do ‘Minha casa, minha vida’, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma - "uma vez terrorista, sempre terrorista".
Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem - e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras - e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.
Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro.
* Filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas
Emir Sader *
Adital -
Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita - como se dissessem: "Eu sabia, você nunca me enganou", etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade - em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.
O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais - e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.
O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam - às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele "veneno" que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem "conheceu o monstro por dentro", sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.
Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a "dialética", a "luta de classes", a promessa de uma "sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado". Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do "socialismo", do "totalitarismo", do "stalinismo".
Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.
Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o "totalitarismo", em cada política social a "mão corruptora do Estado", do "chavismo", do "populismo".
Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a "democracia" contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o "perigo comunista" - sem o qual não seriam nada - está vivo, escondido detrás do PAC, do ‘Minha casa, minha vida’, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma - "uma vez terrorista, sempre terrorista".
Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem - e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras - e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.
Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro.
* Filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Deus ou o Dinheiro?
Postado por Attman e Kamadon
Selvino Heck *
Um grande jornal do sul fez a seguinte manchete, em letras garrafais, na quarta-feira de cinzas, dia do lançamento da Campanha da Fraternidade/2010: "Igrejas se unem em crítica à economia". Nas matérias internas escreve: "A Campanha da Fraternidade de 2010 coloca a partir de hoje a ética cristã em guerra com o espírito do capitalismo. Na mira de bispos, pastores e reverendos figuram inimigos como a ânsia por lucro, o agronegócio, o capital especulativo, o consumismo e o sistema financeiro internacional. Uma análise dos documentos e materiais da Campanha da Fraternidade deste ano revela uma sintonia com o discurso adotado por entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ou eventos como o Fórum Social Mundial".
A colunista política do mesmo jornal intitula sua análise: "Utopia nas igrejas". E escreve: "Com o tema Economia e Vida e idéias que parecem ter saído de documento do Fórum Social Mundial, do programa de um partido socialista, de um congresso de estudantes ou mesmo de uma reunião do MST, a Campanha da Fraternidade 2010 tem potencial para acender polêmicas em todos os cantos do país. O slogan ‘Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro’, extraído do Evangelho de São Mateus, dá uma idéia do que se ouvirá nas igrejas e templos durante a quaresma. Tudo o que os organizadores da campanha propõem para ocupar o lugar dos bancos, da globalização e do agronegócio -cooperativas, redes solidárias, agricultura familiar e redes de microcrédito- tem espaço na sociedade, mas como uma opção a mais, não como substituto. Lutar contra a globalização é remar contra a maré: ela está na vida dos fiéis de qualquer credo".
Mais uma vez, a demonização e a criminalização dos movimentos sociais é a pauta principal de setores da grande mídia. MST e Fórum Social Mundial são apresentados como inimigos do povo e da pátria e, por associação, as igrejas cristãs que participam e organizam a Campanha da Fraternidade. Ao mesmo tempo são apresentados como românticos incuráveis, que têm sonhos irrealizáveis e, vejam só, ainda falam em ‘utopias’.
Nem parece que o mundo atravessa a pior crise econômica dos últimos 70 anos, com quebra de bancos e empresas, desemprego em massa nos países ricos, empobrecimento da população, fruto do lucro desmedido, da ganância desenfreada, do consumismo, da financeirização da economia e das teses neoliberais do Estado mínimo e do mercado livre e absoluto.
Vale a pena (re)ler o Evangelho de São Mateus e (re)descobrir o contexto de sua radicalidade. A afirmação de Jesus - Ninguém pode ser vir a dois senhores, porque ou aborrecerá um e amará o outro, ou apreciará o primeiro e desprezará o segundo. É impossível servir a Deus e ao dinheiro - vem no mesmo capítulo em que Jesus ensina o Pai Nosso: "Por isso, vocês têm que orar assim. (...) Venha o teu reino, seja feita a tua vontade na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia" (Mt, 6,9. Em seguida Jesus diz: "Não amontoeis riquezas na terra, onde se põem a perder, porque a traça e a ferrugem as destroem, os ladrões assaltam e roubam" (Mt, 6,19). E na seqüência: "Por isso lhes digo: Não andem preocupados por sua vida, que vamos comer, ou por seu corpo, que vamos vestir. Não vale mais a vida que o alimento e o corpo mais que a roupa? Olhem como as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros, e o Pai celestial as alimenta. Não valem vocês mais que as aves?" (Mt 6, 25-26.
O tema da Campanha da Fraternidade/2010, promovida pelo Conselho das Igrejas Cristãs - CONIC -, formado pela Igreja católica, pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pela Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e pela Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, coloca o dedo na ferida. Estamos em tempos em que o capital e o sistema que o sustenta, o capitalismo, santificam o individualismo, a ganância, o consumismo, desprezando valores como a solidariedade, a partilha, o fazer coletivo. Tempos em que o meio ambiente e a natureza não servem mais à humanidade como fonte de bem viver, mas apenas como lucro e acúmulo de riqueza, levando ao aquecimento global, aos desastres e desequilíbrios naturais, à falta de água e ao ar irrespirável.
Urge, pois, como diz Campanha da Fraternidade, "denunciar a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte; educar para a prática de uma economia de solidariedade, de cuidado com a criação e valorização da vida como o bem mais precioso; conclamar as Igrejas, as religiões e toda a sociedade para ações sociais e políticas que levem à implantação de um modelo econômico de solidariedade e justiça para todas as pessoas."
A Economia Solidária, com seus milhares de grupos, cooperativas e redes espalhados por todo Brasil, é uma possibilidade de "pensar outra economia rumo a outro desenvolvimento, uma outra economia possível", com base em valores como a cooperação, a autogestão, solidariedade, "construindo a produção sustentável, o comércio justo, o consumo solidário". Para isso, é preciso incentivar as trocas solidárias, as cooperativas de crédito, os bancos comunitários, o microcrédito solidário, os fundos rotativos solidários.
Além disso, propõe a Campanha da Fraternidade, é preciso construir uma educação e cultura solidárias, a partir de experiências existentes como os Centros de Formação em Economia Solidária, as Escolas Família Agrícola, a Assistência técnica em Economia Solidária, as Incubadoras Populares e Universitárias, a Rede TALHER de Educação Cidadã, a Educação de Jovens e Adultos, os Jogos Cooperativos.
Não é crime sonhar e alimentar utopias, fortalecendo uma economia a serviço da vida. No mundo de hoje, elas são urgentes, necessárias e, principalmente, possíveis.
[Selvino Heck é da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política].
* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
Selvino Heck *
Um grande jornal do sul fez a seguinte manchete, em letras garrafais, na quarta-feira de cinzas, dia do lançamento da Campanha da Fraternidade/2010: "Igrejas se unem em crítica à economia". Nas matérias internas escreve: "A Campanha da Fraternidade de 2010 coloca a partir de hoje a ética cristã em guerra com o espírito do capitalismo. Na mira de bispos, pastores e reverendos figuram inimigos como a ânsia por lucro, o agronegócio, o capital especulativo, o consumismo e o sistema financeiro internacional. Uma análise dos documentos e materiais da Campanha da Fraternidade deste ano revela uma sintonia com o discurso adotado por entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ou eventos como o Fórum Social Mundial".
A colunista política do mesmo jornal intitula sua análise: "Utopia nas igrejas". E escreve: "Com o tema Economia e Vida e idéias que parecem ter saído de documento do Fórum Social Mundial, do programa de um partido socialista, de um congresso de estudantes ou mesmo de uma reunião do MST, a Campanha da Fraternidade 2010 tem potencial para acender polêmicas em todos os cantos do país. O slogan ‘Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro’, extraído do Evangelho de São Mateus, dá uma idéia do que se ouvirá nas igrejas e templos durante a quaresma. Tudo o que os organizadores da campanha propõem para ocupar o lugar dos bancos, da globalização e do agronegócio -cooperativas, redes solidárias, agricultura familiar e redes de microcrédito- tem espaço na sociedade, mas como uma opção a mais, não como substituto. Lutar contra a globalização é remar contra a maré: ela está na vida dos fiéis de qualquer credo".
Mais uma vez, a demonização e a criminalização dos movimentos sociais é a pauta principal de setores da grande mídia. MST e Fórum Social Mundial são apresentados como inimigos do povo e da pátria e, por associação, as igrejas cristãs que participam e organizam a Campanha da Fraternidade. Ao mesmo tempo são apresentados como românticos incuráveis, que têm sonhos irrealizáveis e, vejam só, ainda falam em ‘utopias’.
Nem parece que o mundo atravessa a pior crise econômica dos últimos 70 anos, com quebra de bancos e empresas, desemprego em massa nos países ricos, empobrecimento da população, fruto do lucro desmedido, da ganância desenfreada, do consumismo, da financeirização da economia e das teses neoliberais do Estado mínimo e do mercado livre e absoluto.
Vale a pena (re)ler o Evangelho de São Mateus e (re)descobrir o contexto de sua radicalidade. A afirmação de Jesus - Ninguém pode ser vir a dois senhores, porque ou aborrecerá um e amará o outro, ou apreciará o primeiro e desprezará o segundo. É impossível servir a Deus e ao dinheiro - vem no mesmo capítulo em que Jesus ensina o Pai Nosso: "Por isso, vocês têm que orar assim. (...) Venha o teu reino, seja feita a tua vontade na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia" (Mt, 6,9. Em seguida Jesus diz: "Não amontoeis riquezas na terra, onde se põem a perder, porque a traça e a ferrugem as destroem, os ladrões assaltam e roubam" (Mt, 6,19). E na seqüência: "Por isso lhes digo: Não andem preocupados por sua vida, que vamos comer, ou por seu corpo, que vamos vestir. Não vale mais a vida que o alimento e o corpo mais que a roupa? Olhem como as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros, e o Pai celestial as alimenta. Não valem vocês mais que as aves?" (Mt 6, 25-26.
O tema da Campanha da Fraternidade/2010, promovida pelo Conselho das Igrejas Cristãs - CONIC -, formado pela Igreja católica, pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pela Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e pela Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, coloca o dedo na ferida. Estamos em tempos em que o capital e o sistema que o sustenta, o capitalismo, santificam o individualismo, a ganância, o consumismo, desprezando valores como a solidariedade, a partilha, o fazer coletivo. Tempos em que o meio ambiente e a natureza não servem mais à humanidade como fonte de bem viver, mas apenas como lucro e acúmulo de riqueza, levando ao aquecimento global, aos desastres e desequilíbrios naturais, à falta de água e ao ar irrespirável.
Urge, pois, como diz Campanha da Fraternidade, "denunciar a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte; educar para a prática de uma economia de solidariedade, de cuidado com a criação e valorização da vida como o bem mais precioso; conclamar as Igrejas, as religiões e toda a sociedade para ações sociais e políticas que levem à implantação de um modelo econômico de solidariedade e justiça para todas as pessoas."
A Economia Solidária, com seus milhares de grupos, cooperativas e redes espalhados por todo Brasil, é uma possibilidade de "pensar outra economia rumo a outro desenvolvimento, uma outra economia possível", com base em valores como a cooperação, a autogestão, solidariedade, "construindo a produção sustentável, o comércio justo, o consumo solidário". Para isso, é preciso incentivar as trocas solidárias, as cooperativas de crédito, os bancos comunitários, o microcrédito solidário, os fundos rotativos solidários.
Além disso, propõe a Campanha da Fraternidade, é preciso construir uma educação e cultura solidárias, a partir de experiências existentes como os Centros de Formação em Economia Solidária, as Escolas Família Agrícola, a Assistência técnica em Economia Solidária, as Incubadoras Populares e Universitárias, a Rede TALHER de Educação Cidadã, a Educação de Jovens e Adultos, os Jogos Cooperativos.
Não é crime sonhar e alimentar utopias, fortalecendo uma economia a serviço da vida. No mundo de hoje, elas são urgentes, necessárias e, principalmente, possíveis.
[Selvino Heck é da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política].
* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
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